Cannes

Oprah Winfrey me fez perguntar: por que realmente estou aqui?

A fala de Oprah em Cannes expôs um ponto que o mercado ainda evita: autenticidade também é estratégia

Adilson Trindade

Diretor de Cultura e Relacionamento do Grupo MAP 25 de junho de 2026 - 15h13

Esta é a minha segunda vez no festival, agora representando o Grupo MAP e os Publicitários Negros. Entre painéis sobre IA, criatividade e novos modelos de negócio, teve um momento que não estava na pauta de tendências de mercado e que, ainda assim, foi o mais relevante da semana para mim: a palestra de Oprah Winfrey.

Ela abriu com uma pergunta que parece simples, mas que poucos profissionais do nosso mercado realmente se permitem responder com honestidade: por que você está aqui? Não a resposta de currículo, a que cabe em um slide de apresentação. A resposta verdadeira.

Oprah defendeu uma ideia que considero central para qualquer pessoa que trabalha com criatividade: quando a sua personalidade vem para servir ao mundo, a sua essência se torna a sua força, e não o contrário. Em outras palavras, a marca que você constrói, pessoal ou corporativa, é uma expressão de quem você é, e o que você coloca no mundo, de alguma forma, volta para você.

Para mim, isso tem um peso específico. Sou um homem preto e gay construindo carreira no mercado publicitário brasileiro, um mercado que historicamente tratou pessoas como eu como pauta, e não como protagonistas. Por muito tempo, aprendi, sem perceber, a separar quem eu sou de quem eu entrego profissionalmente, como se minha vivência fosse um detalhe pessoal, e não um ativo estratégico.

Cannes me devolveu o oposto disso. Minha vivência, meu repertório cultural e minha verdade não existem apesar do meu trabalho como estrategista. São a origem dele. É dali que vem a capacidade de ler cultura, entender comunidades e traduzir isso em estratégia de negócio para marcas, que é, no fim, ao que eu mais me dedico.

Acho que esse é o ponto que o mercado brasileiro ainda precisa amadurecer. Diversidade tem sido tratada, na maior parte das vezes, como item de compliance: uma meta de contratação, uma campanha pontual, uma cota a cumprir. Raramente é tratada como o que de fato é: inteligência cultural. E inteligência cultural é vantagem competitiva. Profissionais pretos, LGBTQIA+ e periféricos carregam repertórios que boa parte do mercado publicitário ainda não sabe acessar, porque nunca deu espaço de liderança para quem tem esse repertório.

A pergunta que a Oprah fez para uma audiência global eu trago de volta para o nosso mercado: por que estamos aqui? Se a resposta for só para preencher uma vaga, fechar uma meta ou aparecer numa campanha de diversidade no mês certo, continuamos girando em falso. Se a resposta for para construir, de verdade, marcas e negócios que carreguem cultura como estratégia, e não como decoração, aí sim começamos a mudar a indústria de dentro para fora.

Saí de Cannes com uma intenção mais clara do que entrei: ser o mais genuíno possível na minha criatividade. Usar minha trajetória, minha vivência e minha verdade não como justificativa, mas como metodologia de trabalho. Talvez essa seja a pergunta que toda marca, toda agência e todo profissional deste mercado devesse se fazer com mais frequência: por que, de fato, estamos aqui?