Streaming: representatividade como modelo de negócio

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Streaming: representatividade como modelo de negócio

Cofundador da Wolo TV, Licínio Januário fala sobre proposta de descentralizar a indústria do entretenimento

Renato Rogenski
16 de dezembro de 2020 - 6h00

Licínio Januário: “Precisamos mudar a imagem e as narrativas negativas que a televisão e o cinema criaram para a população negra” (Crédito: divulgação)

Nas brechas deixadas pelo mercado em questões como a representatividade de raça, gênero ou classe social, novos produtos e serviços aproveitam o poder e o alcance dos meios digitais para atender demandas da sociedade que durante muito tempo permaneceram reprimidas. No próximo dia 25 de dezembro, por exemplo, acontece o lançamento da Wolo TV, plataforma de streaming, com produção e conteúdo focado na população negra brasileira.

A empresa foi criada pelo ator e diretor Licínio Januário, em parceria com Leandro Lemos, profissional com bagagem de mais de 20 anos de experiência na área de tecnologia. Segundo eles, o objetivo é posicionar a Wolo TV como um hub de representatividade de artistas negros na produção audiovisual do País. A plataforma estreia com a produção original “Casa da Vó”, uma comédia estrelada pela cantora e atriz Margareth Menezes, com participações especiais do rapper e produtor musical Rincon Sapiência, do ator Wilson Rabelo (Bacurau), da atriz e influencer baiana Jacy Lima e do influenciador digital Dum Ice.

Escrita por Licínio, junto com o ator, roteirista e diretor baiano, Alex Miranda e roteirizado por ambos em parceria com Érica Ribeiro e Milena Anjos, a série conta com elenco e equipe compostos por 99% de profissionais negros. Na entrevista jogo rápido, abaixo, Licínio fala não apenas sobre a proposta de sua empresa, como os dilemas da representatividade e modelos de negócios da produção audiovisual no país.

Meio & Mensagem – Qual é o potencial da Wolo TV como negócio no Brasil?
Licínio Januário – Nos últimos anos a indústria começou a abrir os olhos para atender a demanda muitas vezes reprimida da população negra. O segmento de beleza é um grande exemplo disso. Da noite para o dia, uma série de marcas passou a fabricar produtos para o cabelo ou maquiagem para esse público. Isso é fruto de uma certa internacionalização, porque outros países e diásporas negras ao redor do mundo estavam clamando pelas mesmas coisas e potencializando essas indústrias. A internet aproximou essa cultura comercial para a nossa vivência. E essa demanda pela expansão da indústria e a necessidade de diversidade e inclusão também vai para o audiovisual. A população negra brasileira tem o mesmo potencial artístico que a população negra americana ou qualquer outra.

M&M – E há como o Brasil explorar essa capacidade como potência para romper fronteiras e gerar intercâmbio cultural com outros países?
Licínio – Sem dúvida, mesmo com a barreira da língua. E ainda nesses casos, também podemos nos unir com os outros países lusófonos. E seguir o mesmo caminho que a Beyonce traçou, por exemplo, quando produziu o seu clipe “Black is King” nos países africanos. O mesmo acontece com muitos artistas africanos, que estão indo se apresentar nos Estados Unidos. Precisamos potencializar esse intercâmbio em nossos filmes, séries, levando o algoritmo comercial para as narrativas populares. Precisamos pegar essas narrativas que não nossas, muito particulares, e levar para um padrão de qualidade internacional. O Brasil precisa viver o que os Estados Unidos viveram nos anos 1980 e 1990, com os artistas negros ganhando destaque, protagonismo e autonomia.

M&M – E quais são os conceitos que norteiam esse modelo da Wolo TV para mudar um ecossistema que ainda carece de diversidade e inclusão?
Licínio – Do ponto de vista de linguagem, somos muito focados no nosso consumidor final, e queremos chegar até ele. O nosso público é a massa da população, é o gari, a empregada doméstica e toda a classe operária que movimenta o Brasil, e que na alegria ou na tristeza vai beber cerveja. A gente abdica da linguagem classista e acadêmica. Sob o ponto de vista de talentos, também vamos buscar a diversidade regional. Queremos profissionais do norte e nordeste, um povo muito fiel e com uma capacidade artística incrível. Em alguns casos, eu vejo o mercado do sudeste com uma linguagem muito focada em agradar gringo, quando a obra deveria primeiramente falar e se conectar com o povo daqui.

M&M – Qual é o estágio que a mídia brasileira ainda está no quesito representatividade e diversidade?
Licínio – Está começando a caminhar agora. Mas a representatividade ainda é incipiente para a quantidade de talentos negros do País. Essa questão é como um bebezinho, que está começando a engatinhar, muito lentamente. E é preciso ir além de falar sobre diversidade para agradar o mercado internacional ou cumprir agenda. É necessário investir, de fato, e deixar de ver as pessoas negras no lugar de assistencialismo. Temos que mudar esse olhar. A população negra consume em média 1,7 trilhões de reais por ano no Brasil (de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva), mas ainda não há praticamente séries de TV que mostrem famílias negras em posição de sucesso. Para mudar essa realidade, precisamos mudar a imagem e as narrativas negativas que a televisão e o cinema criaram para a população negra. A imagem tem poder, as pessoas precisam ver. Portanto, não existe maneira melhor que combater o racismo por meio do entretenimento.

*Crédito da imagem de topo: cred.: Ajwad Creative/iStock

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