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De onde vem este barulho todo?

Criamos um paradoxo desafiador para profissionais: o trabalho será cada vez mais importante na mesma medida em que será cada vez mais banal


25 de junho de 2018 - 13h54

Crédito: mediaphotos/iStock

Oswald de Andrade publicou, 90 anos atrás, seu Manifesto Antropófago, ajustando nosso ponto de vista e definindo nossa atitude criativa por meio dos tempos: “Só a antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Única lei do mundo. Expressão mascarada de todos os individualismos. De todas as religiões. De todos os tratados de paz. Tupi or not tupi, that is the question”. Estava escancarada oficialmente a atitude de possuir, digerir, refazer da nossa própria maneira, com nosso próprio sotaque, todas as ideias do mundo. Uma atitude de desconstrução e transformação permanente dos nossos mais insignificantes gestos e referências mais profundas.

Atitude pagã por natureza, nenhuma ideia deveria ser sagrada depois da antropofagia cultural. Toda inspiração deveria ser consumida, desmontada, possuída e usada como tijolo na construção infinita de novas identidades criativas. Estava lançada nossa vocação. Assim falou Oswald.

Prematuramente hacker em sua essência, a antropofagia dos modernistas do século 20 traduziu, ao longo dos anos, a atitude de apropriação criativa, moldando a mentalidade para a geração de movimentos como a tropicália e para a formação do caráter das gambiarras (das quais tanto nos orgulhamos). Oswald dizia que um dia a massa iria comer o biscoito fino que ele fabricava. Estava provavelmente certo. O que o poeta não anteviu é que produzimos vorazmente todos os tipos de biscoitos culturais — finos, rústicos, raros, superficiais — e os consumimos com o mesmo apetite insaciável.

Na medida em que avançamos para uma economia onde a criatividade é mais presente e importante, criamos um paradoxo desafiador para profissionais da indústria criativa: o trabalho será cada vez mais importante na mesma medida em que será cada vez mais banal. Ou nem tanto, mas será compartilhado com inúmeras outras formas e fórmulas criativas que inundarão nossas vidas todos os dias, nos obrigando a conviver com ideias e ordens estéticas que, possivelmente, estarão além da compreensão imediata.

Quanto mais simples e acessíveis se tornarem os meios, as plataformas e as ferramentas criadas para nossa expressão, a tendência ficará mais intensa e evidente. Já estamos nessa por algumas décadas e a curva de aprendizado parece longe de se esgotar. O Fórum Econômico Mundial prevê que a criatividade ocupará o terceiro posto entre as habilidades mais importantes no ambiente de trabalho por volta de 2020. Nesse contexto de aceleração e abertura, imaginar que as ideias e soluções criativas sigam um caminho evolutivo previsível é uma expectativa ingênua. Os movimentos criativos e seus expoentes serão tão diversos quanto potencialmente infinitos.

Mesmo as mais antenadas lideranças criativas serão inevitavelmente surpreendidas por visões extraordinárias, vindas dos cantos mais inesperados. Enquanto discutimos formatos audiovisuais ideais, dezenas de novos Kondzillas estão afiando os dentes em outras realidades que poucos conseguem encarar antes de se tornarem biscoitos finos. Enquanto discutimos diversidade nos times criativos, centenas de MC Sophia trocam ideias entre si e roem a corrente das narrativas convencionais. Misture nesse cenário a lógica da descentralização das redes e as conexões emocionais formadas pelas comunidades. Então imagine quantas coisas incríveis estão passando agora mesmo do nosso lado que ainda não aprendemos a enxergar.

Cada um de nós, dentro ou fora das indústrias criativas, é um ponto de captura e construção de movimentos. Assim, a vida de um criativo ficou, de repente, potencialmente mais importante e exponencialmente mais difícil.

Este é um momento especial para quem quer ouvir e aprender. Ou para quem vai tentar gritar mais alto. Temos a convergência perfeita para colaborações definitivas com outras mentes criativas. Ou para a defesa sem fim de discursos esgotados. Nosso destino está deliciosamente subordinado à nossa atitude — desafio ou inspiração. Como encaramos essa janela depende da nossa abertura.

 

*Crédito da imagem no topo: SergeyNivens/iStock

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