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Algoritmo à la carte

Com acirramento da concorrência e consolidação da base de usuários dos principais competidores da gig economy, o lucro dos trabalhadores informais deve diminuir ainda mais.


23 de abril de 2019 - 13h03

 

(crédito: Pixabay)

Espera-se que a evolução tecnológica esteja em função da melhora da vida das pessoas, mas o que se vê, em muitos casos, é um algoritmo alimentado por outros interesses.

Talvez você não tenha pensado, mas o pão na chapa tostadinho e o café com leite proporcionalmente preenchido na xícara que leva o nome de pingado foi preparado por alguém que acordou mais cedo que você. Alguém que saiu de casa quando ainda era escuro, que deixou seu filho sem dizer tchau, que pegou ônibus lotado, que demorou mais de uma hora para chegar ao trabalho. E, enquanto você nem sonhava em acordar, a chapa já estava quente para alguém.

Do pão na chapa às camisas impecavelmente passadas, da babá que ficou até mais tarde para você não perder aquela festa de aniversário ao porteiro que estava de prontidão para abrir o portão da garagem. Os privilégios estão por toda parte e é fácil se acostumar a eles

O que não é de costume pensar é que, para cada regalia existe um sacrifício. Um não, muitos. A quantidade de sacrifício para atender um privilégio é desproporcionalmente mais alta.

Em português bem claro: muita gente deu um ralo danado só para você beber seu café quentinho quando chega ao trabalho.

Aliás, essa é a própria definição de privilégio: direito, vantagem, prerrogativa, válidos apenas para um indivíduo ou um grupo, em detrimento da maioria; apanágio, regalia.

O contexto atual dado o fenômeno da chamada “gig economy” (economia baseada no “bico”) acrescenta ainda requintes de crueldade. As taxas decrescentes de emprego formal e o crescimento do mercado informal acabam colocando as pessoas mais vulneráveis em uma sinuca de bico.

Estima-se que, já em 2020, metade da força de trabalho venha de trabalhadores autônomos nos Estados Unidos da América. Por aqui, a informalidade bate recorde. Hoje, segundo o IBGE, 43% dos brasileiros no mercado de trabalho estão em situação informal — muitos enxergam o bico em apps prestadores de serviço como a única saída para gerar renda.

Com o acirramento da concorrência e a consolidação da base de usuários dos principais competidores da gig economy, a margem de lucro dos trabalhadores informais deve diminuir ainda mais. Assim, o que parecia uma possibilidade de complemento de renda para alguns está se tornando um pesadelo para muitos.

Achou ruim? Calma, porque piora. Os apps estipulam novas metas e novos objetivos que delegam ao prestador de serviço a responsabilidade pelo sucesso. Tudo vira uma grande brincadeira, mas com um final não muito feliz para quem está do outro lado do smartphone. “Agora temos que lidar com as consequências de colocar o lucro acima de tudo na sociedade. Porque isso significa que as pessoas estão recebendo menos do que é preciso para viver, significa que as pessoas que precisam de insulina morrem, porque não podem pagar por ela, mesmo que nós, como sociedade, possamos pagar. Então, para mim, é uma questão de prioridades”, resumiu a congressista norte- americana Alexandria Ocasio-Cortez em fala durante o SXSW 2019.

Fácil se deslumbrar com a tecnologia quando se está sentado na mesa esperando para ser servido. Difícil é tratar bem o garçom quando a carne não chega no ponto.

*Crédito da foto no topo: Reprodução 

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