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O funil do jornalismo

A compreensão teórica dos hábitos contemporâneos de consumo de mídia é fundamental para um diagnóstico correto do ambiente competitivo, mas a adequação prática dos produtos aos novos tempos é o que pode realmente mudar o jogo


17 de junho de 2019 - 12h14

(Crédito: Cred Normaals/ iStock)

Ainda que disponibilizado online por meio de arquivo em PDF, o estudo Digital News Report produzido pelo Reuters Institute for the Study of Journalism pode ser definido, mesmo que por analogia, como um autêntico “calhamaço”.

Com 156 páginas, o report é um misto de valorosas e curiosas informações a respeito do atual estado das operações digitais dos veículos jornalísticos mundo afora, tanto em aspectos diretamente ligados a negócios e receitas, quanto em questões relativas a credibilidade, relevância e influência da atividade de reportar notícias perante a sociedade.

Há problemas fundamentais para serem resolvidos em ambas as frentes, e os números mostram que as soluções aventadas até aqui, como a adoção de um modelo fomentado pelo faturamento com assinaturas, demonstraram algum potencial de sucesso apenas para as grandes grifes do jornalismo e em determinadas regiões do globo. Mesmo para essa elite, o cenário evolui muito mais lentamente do que o desejado e necessário. Nos Estados Unidos, a parcela de entrevistados dispostos a pagar por conteúdo jornalístico online se manteve em 16% nos últimos dois anos.

A compreensão teórica dos hábitos contemporâneos de consumo de mídia é fundamental para um diagnóstico correto do ambiente competitivo, mas a adequação prática dos produtos aos novos tempos é que pode realmente mudar o curso da história. Parece óbvio, mas os exemplos mostram que discurso e ação seguem ritmos dissonantes.

Pelo conjunto da obra do estudo do Institute Reuters, conclui-se que as empresas jornalísticas negligenciaram a mais eficiente fonte de inovação contemporânea, recusando-se a colocar o consumidor no centro das decisões a serem tomadas. Ao seguirem disponibilizando ao mercado produtos dentro da lógica de suas estruturas industriais, em termos de canais e distribuição, simplesmente adaptando-se às plataformas digitais, em vez de desenvolver formatos em cima de novas dinâmicas de conexão já amplamente difundidas pelo uso frequente de plataformas online, tais companhias criaram uma grande barreira para o acesso aos seus ativos.

Perderam alcance e relevância, em um espiral negativo fatal para um modelo de negócio baseado em audiência — justamente em um momento em que as barreiras de entrada para o mercado o qual dominavam foram sumariamente derrubadas, com a democratização da mídia promovida pelas plataformas citadas acima. No Brasil, 54% dos entrevistados declararam usar o Facebook para o consumo de notícias jornalísticas, 53% usam o WhatsApp, e 28% usam o YouTube.

A defasagem em termos da experiência de consumo é apenas uma das batalhas encaradas simultaneamente pelos veículos jornalísticos. Aqueles que conseguem desenvolver uma oferta sedutora e amigável sob o aspecto funcional passam, então, a brigar no território do conteúdo. Se no campo da experiência do usuário a referência são as marcas que se relacionam diretamente com o consumidor (as chamadas DTC brands), aqui a concorrência, não apenas pelo desembolso em dinheiro, mas também do tempo do consumidor, é contra praticamente tudo o que compete pela atenção das pessoas dentre o que podemos definir como entretenimento (leia-se a nova série de Netflix, o gato-celebridade do vizinho que tem perfil próprio no Instagram, o meme da semana no Twitter…). Quando perguntados se tivessem que optar por apenas um tipo de assinatura mensal online de conteúdo, 37% dos entrevistados prefeririam um serviço de vídeo, 15% ficariam com um de música e apenas 7% priorizariam um serviço de notícias.

Encontrar soluções para um cenário complexo, no qual tais tendências deverão ser intensificadas, com o aumento da influência das gerações Y e Z no mercado de consumo, demandará muito mais esforços do que os feitos até o momento e será uma tarefa de longo prazo — o que não significa que a janela de tempo para as empresas jornalísticas buscarem alternativas viáveis permanecerá aberta por tempo indeterminado.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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