SXSVírus contra o medo, a desinformação e o retrocesso

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SXSVírus contra o medo, a desinformação e o retrocesso

Com a progressão do Coronavírus pelo mundo nos últimos dias, cresceu o receio de cancelamento do festival: mas o DNA do evento é justamente o oposto desse pânico


2 de março de 2020 - 8h32

 

No ano passado, o SXSW teve quase 80 mil inscrições e movimentou mais de US$ 300 milhões em Austin

Com o desembarque da doença no Brasil após o Carnaval e as recentes notícias nos EUA, os últimos dias assistiram a uma enxurrada de boatos sobre um possível cancelamento do SXSW. Como todo boato e fake news, as notícias se baseiam parte em fatos reais (como o recente cancelamento da MWC em Barcelona), fatos exagerados (como um abaixo-assinado em andamento em Austin com um número bem limitado de assinaturas pedindo o cancelamento) e hipóteses (“um único caso poderia colocar a cidade inteira em quarentena”, como disse alguém outro dia). Da única fonte oficial (o próprio SXSW), a informação é clara e direta: o festival continua como planejado.

Não deveria ser nenhuma novidade esse tipo de pânico desmedido, considerando a época que vivemos em que as fake news se disseminam pelo WhatsApp mais rápido do que (vejam só) vírus. Mas o surpreendente, pelo menos na minha inocência, é perceber como esse comportamento tem se reproduzido em grupos teoricamente mais bem informados e equilibrados. Não é mais o tiozão do Zap, agora são empresários e diretores de grandes empresas disseminando o medo.

Não se trata, obviamente, de minimizar o tamanho da crise do Coronavírus: ela é séria, imprevisível e certamente um desafio para as autoridades mundiais. Um desafio que vai além das questões de saúde (certamente prioritárias), mas que tem impactos econômicos, sociais e políticos. Como alguém que trabalha com saúde, tenho plena convicção de que temos agentes altamente qualificados (e com muito dinheiro) trabalhando na solução definitiva do problema, e que ela surgirá em breve. Mas a grande questão é o que faremos nesse meio tempo, e como lidaremos com isso como humanidade.

Vamos interromper todo o comércio internacional? Vamos parar de comprar produtos chineses? Limitar o turismo (Aos que defendem o cancelamento do SXSW, o que fazer com uma quantidade muito maior de turistas desembarcando diariamente em NY ou Londres)? Confinar os países-foco em uma quarentena global?

Esta é, exatamente, a importância do não cancelamento do SXSW: o mundo não pode parar por causa do Coronavírus. Se isso acontecer (e sim, é uma possibilidade que pode ser influenciada por cálculos políticos) será para mim a maior demonstração da derrota da inovação pelo medo e paranoia. Um retrocesso histórico.

E quando digo “inovação”, não estou me referindo ao território difuso das tendências e tecnologias emergentes. Sinceramente, você não precisa ir ao SXSW para ter acesso a essas informações: caso ele se realize você pode acompanhar aqui pelos correspondentes do Meio & Mensagem, ou por dezenas de outros meios que trazem com profundidade e didatismo um resumo do que acontece por lá. E caso não aconteça, se você segue as pessoas, empresas e instituições certas, certamente terá acesso ao que está sendo feito de melhor e mais inovador no mundo, no conforto de seu smartphone.

Mas então porquê se arriscar a ir até Austin, pegar o Coronavírus, gastar milhares de dólares na UTI (sic) e ainda ficar de quarentena (sic)?

Por que o SXSW é exatamente sobre o oposto do medo: é sobre estar aberto a novidades desconhecidas e muitas vezes ainda disformes. O formato caótico e caleidoscópico do festival, integrando assuntos e pessoas tão diversos como negócios, comportamento, tecnologia, música, cinema, games e sei lá quantos outros, é justamente o que eu considero mais inovador, com o perdão do desgaste da palavra. O SXSW é exatamente sobre contágio: contágio de ideias, de informação, de experiências, de emoções. Estar em Austin é mais do que descobrir as últimas tendências. Uma vez eu defini o festival como mais do que um festival de inovação: é um festival sobre como podemos evoluir como humanidade. E isso pode acontecer nas palestras, mas também nos bares, nos encontros inesperados pelas ruas. Mais de uma vez assisti a uma palestra bem mais ou menos, mas a conversa com amigos pós apresentação abriu horizontes que nem o palestrante sonhava.

Então essa é minha dica para os que não estão abertos para o contágio: não vão para o SXSW este ano. Na utopia construída ali há mais de 30 anos, não há espaço para o medo: apenas para a crença de que a humanidade prevalecerá.

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