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Em busca de um propósito

Mauro Segura: "A partir de 6 de abril, não tenho mais emprego; saio da IBM para buscar (ou construir) um novo caminho e este texto conta a minha história"


31 de março de 2020 - 6h00

Mauro: “Regina era highlander, sempre escapando de situações difíceis e conseguindo sair fortalecida para um novo passo em sua jornada” (Crédito: Divulgação)

Quando eu era muito pequeno, com seis ou sete anos de vida, meu pai me colocou em uma escola de natação. Em pouco tempo, já sabia nadar. Certa vez, ele me levou a um clube que tinha uma piscina gigante, duas vezes o tamanho de uma piscina olímpica. Olhei a piscina e fiquei paralisado à beira dela. Minhas pernas estavam congeladas. Virei para o meu pai e disse que estava com medo de pular naquela piscina gigante, que não saberia nadar em uma piscina tão grande, já que sempre havia nadado em piscinas pequenas, onde era fácil alcançar as bordas. Meu pai me olhou, colocou a mão no meu ombro e disse que eu já estava pronto para pular naquela piscina, só que eu ainda não sabia. O que estou vivendo agora é o mesmo que vivi naquela época. Estou pronto para pular na piscina, estou consciente disso, mesmo com medo e insegurança.

Há pouco mais de três anos, a minha amada esposa foi diagnosticada com um câncer severo, em estágio avançado e de difícil tratamento. Passei todo esse tempo dedicado a ela, que sempre foi a principal razão de minha vida. Eu a conheci no dia em que fiz 13 anos. Fomos casados por 35 anos, muitos anos de namoro e noivado, uma vida conjunta em que raramente ficamos distantes um do outro.

O câncer teve início no intestino e no fígado, mas, no último ano, se espalhou por todo o abdômen, pegando pulmão, peritônio, estômago e ovários. Em seus últimos dez dias de vida, tínhamos um serviço de homecare, já que o desejo da Regina era ficar em casa e não passar esse tempo no hospital.  De certa forma, foi tudo planejado, mas também foi muito doloroso. Dói muito ver a pessoa que a gente ama indo embora, com falência dos órgãos e perdendo a lucidez.

Ironicamente, eu e Regina crescemos muito como seres humanos durante esse período. Nos transformamos radicalmente, priorizamos os nossos valores, interesses e ansiedades. Repensamos o que valia a pena. Essa jornada foi tão sublime e profunda que é difícil descrever o que aconteceu dentro de nós. Parece que muitas coisas perderam o valor e o sentido, enquanto outras, aparentemente tão irrelevantes, ganharam importância e significância.

O câncer é muito degenerativo, perverso e nos corrói por dentro. Por outro lado, no caso da Regina, o câncer nos foi muito generoso, porque nos deu três anos e dois meses de vida. E esses foram os anos mais lindos, maravilhosos e felizes da minha vida. As pessoas não entendem isso, ficam surpresas quando falo desses anos maravilhosos, mas foram os anos em que vivi mais intensamente com ela. Tudo foi intenso, genuíno, inesquecível e simbiótico. Foi muito amor, compaixão e doação.

Foram várias cirurgias complexas, dezenas de internações de emergência, mais de 50 sessões de quimioterapia, radioterapia, centenas de consultas médicas, exames de sangue, exames de imagem, biópsias etc. Uma lista sem fim. E fizemos tudo isso sempre juntos. E o nosso amor cresceu ainda mais no meio desse turbilhão. A cada dificuldade, o amor crescia. A minha relação com a minha amada sempre foi muito baseada na admiração mútua, na generosidade, na tolerância, na cumplicidade e na empatia. E isso foi tudo muito reforçado ao longo da doença. Sou muito grato a Deus por isso.

As pessoas chegavam perto de nós e perguntavam para a Regina como estava a “sua luta”. Nunca gostei da palavra “luta”. Nós nunca lutamos contra o câncer. Ele não era um inimigo a ser batido. O câncer estava lá, dentro das nossas vidas, então, o correto era falar em como viver com o câncer, em como transformá-lo em aliado, em algo que pudesse trazer coisas boas para as nossas vidas. E foi isso que gente aprendeu ao longo do tempo. Essa abordagem nos deu conforto, paz e resignação para conviver bem com o câncer ao longo dos anos, desde o início.

Eu e minha amada sempre falamos abertamente sobre tudo ao longo do tempo. Falávamos sobre morte, como seria a minha vida sem ela, como cuidar das coisas que estavam sob cuidados dela, os nossos filhos, a parte dos bens em seu nome etc. Às vezes, eram assuntos chatos, mas necessários. Nós sempre tivemos conversas muito abertas sobre tudo, e isso parecia muito incomum para as pessoas, afinal, existem pessoas que têm dificuldade de falar a palavra “morte”. Médicos, médicas e enfermeiras diziam que formávamos um casal singular, onde as conversas eram fáceis e honestas, sem filtros, com otimismo, mas sempre realistas e com os pés no chão. Aliás, estivemos cercados de médicos e profissionais da saúde fabulosos, abençoados, competentes e humanos. Nunca esquecerei disso e sou eternamente grato a todos.

Tudo isso estava centrado na Regina, que era um ser de luz, sempre sorrindo e de bem com a vida. Nas situações mais difíceis, mais loucas, era ela que dava a palavra de paz e conforto, com resignação, suportando as dores e dificuldades com um comportamento quase celestial. Tinha sempre um sorriso no rosto. Nos hospitais e nas clínicas, a Regina era cultuada, alguém que conseguia trazer paz e carinho para todos. Sempre que ela chegava, o ambiente se iluminava. As pessoas se aproximavam dela porque se sentiam acariciadas, e tudo isso fez muita diferença em nossa história.

No final de 2019, comecei a pensar em pedir demissão do trabalho. Algo dentro de mim me dizia que eu precisava viver mais intensamente os meses seguintes com a Regina, ficar plenamente dedicado a ela. A inquietação foi ficando muito forte, algo quase insuportável. E aqui preciso ser justo e citar que a empresa onde trabalho, a IBM, me deu todas as condições para viver essa jornada com ela. Os meus chefes, os meus colegas, os recursos, os suportes médico e financeiro, tudo foi provido maravilhosamente pela IBM. Serei eternamente grato por isso. Porém, mesmo trabalhando em home office e com liberdade, eu ainda vivia cercado de calls, videoconferências, toneladas de e-mails, projetos complexos, decisões difíceis e pressão por resultados. Tudo isso me inquietava muito, tornando-se um peso crescente na minha vida. E, pior, muita coisa me parecia pouco importante diante do quadro de minha amada.

Nesses três anos de tratamento, todas as férias de trabalho que tive passei internado com Regina em hospitais, às vezes por conta de cirurgias planejadas, outras devido a emergências. Todos os minutos que tinha de folga era para estar ao lado dela, servindo-a, cuidando dela, ou, às vezes, em algumas oportunidades específicas, viajando e passeando com ela. Acredite ou não, mas tivemos muitos momentos de diversão, viagens, relaxamento, carinho e curtição ao longo desse período. Mesmo nos dias mais difíceis, a gente encontrava um jeito de se divertir. Continuei tomando a minha cerveja e ela, nas jujubas e sorvetes sem fim. Íamos à praia, bem cedinho, onde ela tomava um banho de mar, que sempre a revigorava muito. Quem viveu próximo de nós durante esse tempo é testemunha dessa nossa busca por um clima de normalidade e plenitude de vida.

No início deste ano, minha decisão de sair do trabalho já estava tomada, pelo menos na minha cabeça, mas ainda tinha que ser executada. A minha amada relutava com essa minha decisão, porque havia um pacto entre nós de continuarmos trabalhando até o fim. A Regina sempre se manteve no trabalho até a véspera de sua morte, mesmo com uma dificuldade imensa para pegar um lápis. Sua paixão pela arquitetura era algo indescritível, que a alimentou durante todos esses anos e lhe deu prazer de viver. Mesmo com inúmeras dificuldades, lá estava a Regina liderando dezenas de projetos, muitas vezes deitada em camas de hospitais recebendo medicamentos intravenosos, nas sessões de quimioterapia ou na antessala de uma consulta médica. Portanto, entre nós, havia um acordo velado de continuarmos trabalhando, sob quaisquer condições, até o fim.

Finalmente, houve o acerto com a IBM. A decisão foi pela minha entrada em licença sabática, seguida de uma rescisão de trabalho no final de 2020. Isso me daria tempo e paz para me dedicar ainda mais à Regina. Era o que eu queria: dedicação integral à minha amada. Eu não tinha ideia de quanto tempo mais teria. Poderia ser um mês, um ano ou três anos, o tempo que nos restasse. Os médicos sempre falavam que a Regina era highlander, sempre escapando de situações difíceis e conseguindo sair fortalecida para um novo passo em sua jornada. Portanto, falar de previsão de tempo sempre foi algo difícil para mim.

Infelizmente, o tempo foi muito mais curto do que eu esperava. A minha amada partiu em 28 de fevereiro de 2020.

Em suas últimas semanas de vida, prometi a Regina que iria me transformar em um ser humano completamente novo. Ela era tão linda e especial que, ao ir embora, me deu de presente uma vida completamente nova. A gente falava muito sobre isso. Ela dizia: “Estou indo embora e você está ganhando uma vida completamente nova para você fazer o que quiser com ela, viver onde quiser, com quem quiser, da maneira como quiser”. Ela falava comigo até quais seriam as características da nova companheira que eu deveria buscar, para dar ideia de como eram os nossos papos. Prometi a ela que faria essa minha nova vida valer a pena, que viveria diferente e que seria uma vida digna.

Desde que essa nova perspectiva de vida entrou em minha mente e se tornou um plano para o meu futuro, a saída do trabalho ganhou uma nova dimensão. Era preciso sair do mundo corporativo, do meu trabalho atual, da minha profissão, do ambiente onde estou inserido para me submeter a novas experiências, conhecer pessoas diferentes, ir a lugares diferentes, passar por novas dinâmicas e possibilidades. Farei isso não porque a vida que vivi até agora não tenha valido a pena, ou porque quero esquecer do passado, mas porque isso é parte essencial do capítulo para me tornar um novo ser humano: repensar o que quero. E, para esse repensar, preciso me desconectar e ser disruptivo com todas as coisas que tenho ao meu redor, para poder me transformar em um pássaro e voar. E, para voar mais alto e mais longe, preciso tirar as amarras e as bolas de ferro que estão presas às minhas pernas.

Nos próximos meses, pretendo fazer coisas diferentes. Não tenho muita clareza de tudo que vou fazer, mas tenho uma lista de coisas que não quero fazer. Já é um primeiro passo. Comprei um caderno e anoto tudo que me vem à cabeça. A lista cresce o tempo todo, me incentiva e desafia. São muitas coisas a fazer, muitas possibilidades, tem um mundo enorme para eu conhecer e descobrir. E muitas coisas também para não fazer.

Dia 6 de abril será o último dia de trabalho na IBM. Não fazia sentido ficar em licença, portanto, saio definitivamente. Deixo o mundo corporativo para entrar em um mundo maior. Não tenho ideia do futuro que me espera, se retorno para o meio corporativo algum dia, se serei consultor, se vou trabalhar de novo com marketing, se vou ajudar as pessoas em suas carreiras, se trabalharei com cidadania, com apoio aos necessitados, dos quais me aproximei muito nos últimos anos. Tudo isso será um futuro que ainda será construído. Por enquanto, estarei longe de qualquer trabalho. Meu desejo é repensar a vida, esse é o meu foco agora.

O meu momento é muito peculiar. Passei a maior parte da vida vivendo para a minha amada. De repente, aquele lindo futuro que imaginei vivendo com ela, velhinhos, em algum lugar no interior, se transformou em uma corrida contra o tempo, onde o futuro que eu havia imaginado deveria ser vivido no presente, com intensidade e com o relógio acima de nossas cabeças. Esse era o meu propósito: viver com ela e para ela. Com a sua partida, agora estou em busca de um novo propósito de vida.

Já me peguei pensando como será a vida sem a minha amada. Tinha tantas coisas que ainda queríamos fazer juntos. Mas aprendi que o segredo não é se lamentar pelo futuro que não virá, porque isso dói, mas sim celebrar o passado que construímos juntos, com uma família linda, uma história bonita e nosso crescimento como seres humanos. A Regina está dentro de mim intensamente. Tudo que sou hoje, que realizei e conquistei, foi com ela e por ela. O ser humano que sou foi forjado por ela. E, portanto, se ela está tão dentro de mim, tudo que virá e ainda será construído, certamente será com ela. Estaremos sempre juntos, inseparáveis e unidos, mesmo com uma saudade que dói o coração algumas vezes. Me resta partir para o novo capítulo na minha vida, com ela junto, dentro de mim, em mente e coração.

Tudo isso me fez lembrar da história da piscina com meu pai, que contei na abertura deste texto. Sei que tenho que pular na piscina, que estou pronto para isso e que essa é a decisão correta para a minha vida neste momento. Pular na piscina enorme, com bordas infinitas, que não sei onde termina, é o primeiro movimento da jornada de meu novo propósito.

(Foto do alto: Divulgação)

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