Comunicação que salva ou tira vidas

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Comunicação que salva ou tira vidas

Temos uma oportunidade sem precedentes para analisar qual é nosso verdadeiro papel na sociedade


14 de abril de 2020 - 12h19

(Crédito: Zubada/ iStock)

O ano era 1992, o momento era a campanha presidencial americana e o personagem era James Carville, então assessor do candidato Bill Clinton. Ele cunhou a frase “É a economia, estúpido!”, querendo dizer, grosseiramente, que os resultados de eleições, mais do que qualquer outra coisa, estavam ligados às condições econômicas do país no momento. Na ocasião, ele acertou. A vitória de Clinton sobre George Bush naquele ano mostrou que os eleitores estavam mais preocupados com a crise econômica do que com o triunfo de Bush na Guerra do Golfo.

Quase 30 anos depois, no momento que passamos por uma pandemia (de informações desencontradas) sem precedentes, bem que a frase de Carville poderia ser adaptada para “É a comunicação, estúpido!”

Como escreveu recentemente o professor Yuval Noah Harari, nada tem mais poder de preservar a economia, a democracia, a saúde e as instituições — enfim, a vida — do que uma sociedade consciente e bem informada. O que torna a comunicação uma arma de salvação (ou de destruição) em massa.

Exemplos não faltam de narrativas que, numa quantidade brutal, entopem nossas fontes de informação a todo segundo. Sejam fortuitas ou deliberadas, frágeis ou sólidas, bem ou mal-intencionadas, elas constituem o “novo normal” e representam o espírito do nosso tempo. A questão é: como devemos nos comportar diante dessa avalanche de fatos e versões?

Penso que é importante seguir alguns princípios essenciais. O primeiro é buscar fontes primárias de informação que sejam confiáveis, valorizando o conhecimento especializado. A maioria das informações exatas vem de especialistas, mais precisamente de cientistas que não se beneficiam comercial nem politicamente da semeadura de dúvidas e desconfianças. Especialistas, não ignorantes, devem ser valorizados.

O segundo ponto é buscar informações em veículos que trabalhem com fatos — a chamada “mídia objetiva”, que conta com profissionais treinados e responsáveis. Pesquisas mostram que meios de comunicação da imprensa profissional (TV e jornais à frente) são vistos pela população como os mais confiáveis na divulgação de informações sobre a crise do coronavírus. É fundamental valorizar esses veículos em detrimento de bots nas redes que compartilham histórias destinadas a causar confusão e caos. Informações bem apuradas valem mais do que boatos sobre a sopa de morcego. Fatos valem mais do que teorias da conspiração distorcidas sobre armas biológicas e o 5G.

Um terceiro princípio essencial é ser coerente com o que se diz e se faz. Neste ponto, é preciso valorizar a importância de uma comunicação bem feita por instituições e empresas. O profissional de comunicação corporativa e relações públicas, que sempre teve um papel de liderança nas situações de crise, será fundamental para ajudar a manter comunidades saudáveis, pessoas em segurança e empresas em funcionamento. Comunicações em massa correm um risco imenso de se tornar politizadas, por consequência complexas e divisórias, pois as pessoas tendem a receber e compartilhar informações em suas próprias bolhas sociais. É importante, então, contar com especialistas que ajudem a apresentar informações de maneira neutra e factual, evitando armadilhas e garantindo a continuidade de operações, de negócios, de relacionamentos e, por que não dizer, de governos.

Por fim, temos uma oportunidade sem precedentes. Vivemos num momento que nos convida a analisar qual é nosso verdadeiro papel na sociedade. Quais são nossos valores ou propósito. Nunca tivemos tanto tempo para reflexão e autocrítica. E nunca uma quarentena tão grande para discutir temas importantes e exercitar a responsabilidade de executar ações que façam a diferença no planeta.

O histórico manifesto proposto no ano passado pela Business Roundtable, a associação americana que reúne alguns dos CEOs mais importantes do mundo, abriu uma janela para empresas e governos. Cravou que empresas não devem mais seguir só os interesses de seus acionistas, mas da comunidade em geral, investindo em seus funcionários, protegendo o ambiente e sendo mais sustentáveis em todos os sentidos. Governantes assinaram embaixo. Pois bem, se todos os figurões que debateram o assunto no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro, foram sinceros sobre como resolver problemas sociais e ter um objetivo maior do que o lucro ou ganhos políticos, nunca houve momento melhor para provar isso.

Em um mundo polarizado e povoado por fake news, comunicar da forma certa e, sobretudo, saber entender e interpretar o que está sendo comunicado pode fazer a diferença. Sem estupidez.

*Crédito da foto no topo: Ajwad Creative/ iStock

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