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O que vem primeiro

Desejo que, como profissionais da área, possamos voltar à nossa essência, que é a de estudiosos do comportamento humano


22 de junho de 2020 - 10h13

(Crédito: iStock)

Com números ainda crescentes de casos de Covid-19, começamos a assistir no Brasil, enquanto escrevo este texto, uma precipitada reabertura econômica que ocorre sob a pressão da manutenção de empregos e negócios. Entre os incontáveis conflitos com os quais temos de lidar nesta crise, este é certamente o mais gritante: para muitos de nós, brasileiros, não sair de casa e preservar a saúde impacta diretamente na capacidade de colocar comida na mesa. São duas necessidades básicas que se contrapõem de maneira dramática.

Considerando o contexto, parte da indústria da comunicação se encontra em uma posição privilegiada por não viver esse dilema, podendo trabalhar na segurança de seus lares. É claro, porém, que há setores mais sensíveis ao isolamento social, como o de produção, afetado pela natureza de um negócio que gira em torno de expressões como castings, locações e abertura de câmera. E como ecossistema que somos, o baque é sentido por todos.

Esses desafios temporários, embora o próprio conceito de temporário seja questionado hoje, estão na nossa pauta diária, mas nos levam a reflexões mais macros sobre as mudanças que serão perenes no pós-Covid. É bastante sintomático notar, por exemplo, como algumas substituições que já apareciam na nossa linguagem se tornaram mais frequentes e condizentes com a sensibilidade do momento. E essas mudanças de forma tendem a se manter porque refletem as transformações de essência que estamos vivendo.

Falar em consumidores, hoje, soa estranho, não? Somos pessoas, sempre fomos, e é assim que esperamos que as marcas nos tratem. A venda é mais do que nunca experiência, até porque agora é online e depende muito de uma UX amigável para gerar frutos. E talvez a transformação mais marcante em termos de negócios que acompanhamos durante a pandemia tenha sido a percepção de que competidores se tornam aliados quando as causas são maiores. Nós já havíamos visto isso ocorrer em ações pontuais. Mas nunca com essa intensidade.

Todas essas transformações estão diretamente ligadas ao sentimento de insegurança das pessoas neste momento. Em uma live recente do Rishad Tobaccowalla, consultor sênior do Publicis Groupe e autor do best seller “Restoring the Soul of Business: Staying Human in the Age of Data”, foi levantado um ponto que nos ajuda a pensar sobre a questão de forma bastante objetiva. Durante décadas, o marketing focou na área de cima, de desejo, da pirâmide de Maslow: realização e autoestima. Neste momento, porém, o foco voltou para a base da pirâmide, para nossas necessidades fisiológicas e de segurança.

Ou seja, era sobre o para fora, e hoje o olhar é para dentro. É uma questão simplesmente de identificar o que vem primeiro. Rishad ponderou, porém, que em algum momento, quando encontrarmos uma vacina ou cura para a Covid-19, voltaremos ao topo da pirâmide, que é, sim, importante para as pessoas. Em suas palavras: “Os seres humanos sempre tiveram a necessidade de autorrealização, mas apenas quando se sentem seguros.”

Meu feeling é de que, depois de uma experiência de tantas angústias como a que estamos vivendo, vamos levar um bom tempo ainda para nos sentirmos, de fato, seguros. E o meu desejo diante dessa constatação é que, como profissionais de comunicação, possamos fazer o mesmo que as pessoas com quais tanto queremos conversar: voltar à nossa essência, que é a de estudiosos do comportamento humano. Quanto mais acirrada for a nossa percepção nesse sentido, mais assertiva será a comunicação das marcas com as quais trabalhamos.

*Crédito da foto no topo: iStock

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