Quando a vida imita a arte

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Quando a vida imita a arte

Temos que usar tudo que vimos e aprendemos ao longo de toda nossa vida. Olhar para as ferramentas e recursos que temos à disposição e pensar em como aplicar nessa nova realidade


6 de agosto de 2020 - 11h00

Náufrago, filme dirigido por Robert Zemeckis, em 2001 (Crédito: Reprodução/ Youtube)

O ano é 1995 e Chuck Noland, um engenheiro da FedEx, obcecado pelo tempo, viaja o mundo resolvendo problemas de produtividade nos depósitos da empresa. Sua vida vira de cabeça para baixo, quando ele sofre um acidente aéreo e vai parar em uma ilha deserta, no meio do Pacífico Sul.

Estamos falando do filme Náufrago, um clássico do cinema estrelado por Tom Hanks.

Em meio à pandemia, resolvi rever o filme e me chamou a atenção o fato de que as metáforas e lições da narrativa se aplicam perfeitamente ao momento pelo qual estamos passando.

Chuck vivia um relacionamento estável, tinha planos de se casar – o pedido foi feito no carro, antes de embarcar no fatídico voo –, e uma carreira bem-sucedida, como mostram os inúmeros troféus em sua estante. Tudo isso foi literalmente “por água abaixo” de uma hora para outra, de maneira muito similar ao impacto que sofremos com a pandemia.

Quantos sonhos e carreiras interrompidos? Incrível pensar que precisamos viver situações extremas como essa, para entendermos o que realmente importa. E não adianta falar, temos que sentir.

Passado o susto do primeiro momento – simbolizado pela situação da queda do avião até a chegada na ilha –, onde o instinto de sobrevivência fala mais alto e nada mais importa, vem o sentimento de negação. Preciso dar um jeito de sair dessa, achar alguém para me ajudar, voltar para minha vida e rotina “normais”.

Mas ninguém responde aos gritos de socorro, nem ao S.O.S escrito na areia. O remédio mágico não funciona. A vacina não existe. É mais que um acidente e não é só uma gripezinha. Vamos ter que dar um jeito de sobreviver nessas condições mesmo. E por um bom tempo.

É hora de aplicar nossa criatividade para criar condições básicas. Temos que reaprender a pescar, buscar abrigo, aprender a usar novas ferramentas. Para isso, temos que usar tudo que vimos e aprendemos ao longo de toda nossa vida. Olhar para as ferramentas e recursos que temos à disposição e pensar em como aplicar nessa nova realidade. Um par de patins vira um machado; um vestido se torna uma rede de pesca, enquanto uma bola de vôlei vira um fiel companheiro de jornada. Olhe para dentro e ao seu redor: Quais suas habilidades e conhecimentos? Que recursos você dispõe e como pode usá-los?

Nesses momentos também é possível perceber que a gente precisa de muito menos para sobreviver e satisfazer nossas principais necessidades, do que indica nossa corrida desenfreada por “mais e mais”. Como diz a sabedoria popular: “nem tudo que reluz é ouro”.

Sair da nossa zona de conforto, obviamente, não é, digamos, confortável. O processo de adaptação e aprendizado muitas vezes é doloroso, cansativo, desgastante. As cenas onde Chuck está tentando fazer fogo, abrir um coco, conseguir um alimento, ilustram isso muito bem.

No começo parece que não vai dar certo, mas com uma boa dose de paciência, resiliência e criatividade, as coisas vão se ajeitando, a gente pega o jeito, aprende. O bom disso tudo é que nosso amigo nunca mais vai precisar de um fósforo para fazer fogo se não quiser. E eu não precisarei me deslocar até o outro lado da cidade para fazer uma reunião.

A estratégia adotada por ele para sobreviver pode nos trazer dicas valiosas. Em primeiro lugar, compreender que para sobreviver em situações de crise é importantíssimo olharmos as nossas raízes (relógio com foto da esposa), buscarmos parceiros e amigos para nos apoiar (Wilson) e termos um propósito para nos guiar (pacote FedEx).

Mais importante ainda é nunca perder as esperanças, mesmo que em alguns momentos pareça não haver saída. Nessas horas, o melhor a fazer é manter-se respirando e aguardar. Quando menos esperarmos, pode aparecer um pedaço de plástico na nossa praia, que sirva como uma vela para nos impulsionar para fora dessa “maré de azar”, rumo a um “Oceano Azul”.

Minha última reflexão fica para o momento do tão esperado retorno. Ficamos todos sonhando em voltar ao normal. Muito se fala em “novo normal”, mas viver em pandemias ou em ilhas desertas não tem nada de normal.

O que iremos encontrar depois disso tudo é que se tornará nossa nova rotina, nossa nova zona de conforto. Mas, assim como no filme, as coisas terão mudado durante nosso período de isolamento. Nós teremos mudado.

Por isso, é importante alimentarmos menos expectativas sobre o que vem depois e focarmos nossa energia no que podemos fazer agora. Afinal, o amanhã será resultado de tudo o que estamos fazendo hoje.

Enquanto isso, vamos celebrar as pequenas vitórias (fogo), resolver aqueles problemas antigos (dente) e adotar a atitude de protagonistas. Quem sabe, fazendo assim, nossa atuação seja digna de Oscar.

*Crédito da foto no topo: iStock

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