Do discurso à prática antirracista

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Do discurso à prática antirracista

A resistência de parte da sociedade — que, embora não seja maioria, é bastante barulhenta — não pode impedir que avanços civilizatórios e necessários ocorram


29 de setembro de 2020 - 10h44

(Crédito: iStock)

Grandes redes de varejo, em especial, hipermercados e shoppings, há algum tempo, ganham destaque na mídia ou por seu desempenho financeiro ou por violência contra a população negra. Boa parte desses atos são cometidos por seguranças dessas lojas, que agridem e, em alguns casos, chegam a matar, sobretudo, jovens ao confundi-los com assaltantes simplesmente por conta da cor de sua pele. Quase como praxe, essas empresas acabam divulgando comunicados pouco transparentes com burocráticos pedidos de desculpas para tais atos. De tão corriqueiras que situações assim se tornaram, foram normalizadas sem causar reação ou aversão por parte da sociedade. Assim como a violência policial e, mais recentemente, as mortes decorrentes da Covid-19.

Há poucos dias, o Magazine Luiza ocupou o trend topics do Twitter. E a hashtag que alcançou esse destaque era #MagazineLuizaRacista. Para alguém desavisado, era fácil deduzir que se tratava de mais um ato de racismo cometido por uma cadeia de varejo. Porém, em mais uma marca deste distópico Brasil de 2020, a celeuma foi causada como reação ao anúncio do lançamento do processo de seleção para o programa de trainee da empresa, que este ano irá recrutar apenas profissionais negros e negras. Internautas, alguns políticos e umas poucas autoridades se posicionaram contra a iniciativa acusando-a de “racismo reverso”.

Essa reação é a ponta de um imenso iceberg chamado racismo estrutural que começa agora a ser combatido de maneira cabal por empresas como o Magalu. Do discurso antirracista à prática, a iniciativa é exemplar e disruptiva. Exatamente por isso, incomoda e enfrenta resistência. Em artigo publicado no Brazil Journal, o CEO do Magazine Luiza, Fred Trajano, foi cirúrgico. “Ao longo dos últimos anos, o Magalu formou cerca de 250 trainees. Desses, apenas dez eram negros. Nossos programas simplesmente não conseguiram atrair esses talentos, que, a princípio, nada têm de diferente dos demais senão a cor da pele. O número de inscrições de negros sempre foi baixíssimo. Talvez porque, para muitos deles, passar num programa seletivo de uma grande empresa parecesse inatingível. Talvez porque nossa seleção exigisse certas competências — fluência em inglês, por exemplo — quase impossíveis de serem desenvolvidas por pessoas que, frequentemente, estão entre as mais pobres de nossa população”.

Trajano faz ainda uma brilhante reflexão a respeito do tão mitificado conceito de meritocracia. “É como se nossos processos de seleção anteriores fossem como pistas de corrida em que o ponto de chegada era comum, mas certos candidatos já saíam com vantagem de alguns metros de distância sobre os demais. Alguns podem chamar isso de meritocracia. Eu e a comunidade do Magalu não concordamos. Meritocracia de verdade é legitimar a vitória daquele que, tendo as mesmas oportunidades que os demais, consegue chegar na frente — por talento e esforço pessoais”.

O programa do Magalu foi desenvolvido em parceria com as consultorias Indique Uma Preta e Goldenberg, Instituto Identidades do Brasil, Faculdade Zumbi dos Palmares e o Comitê de Igualdade Racial do Mulheres do Brasil. É parte de um movimento que começou já há alguns meses com a preparação interna para a empresa receber esses jovens e também para a possível “crise” que a inovação da atitude, de fato, causou.

A boa notícia é que não se trata de uma iniciativa isolada. No dia do anúncio da rede varejista, a empresa química e farmacêutica alemã Bayer lançou seu programa de trainee no mesmo formato: 100% focado em jovens negros e negras. Ao todo, serão 19 vagas voltadas para a valorização étnico-racial e ao desenvolvimento de carreira para posições de liderança.

Poucos dias antes, a Accenture anunciou a abertura de 24 vagas de estágio para estudantes universitários negros e negras de qualquer região do Brasil trabalharem remotamente em desafio de inovação num programa chamado AddVentures2Go. Na mesma semana, o Google também tornou pública a criação de um fundo de investimentos dedicado a investir em negócios brasileiros geridos por empreendedores negros. São R$ 5 milhões para apoiar 30 empreendimentos nos próximos 18 meses, em um programa batizado de “Black Founders Fund”. O objetivo é promover a diversidade no ecossistema de startups.

Em novembro do ano passado, em pleno mês da Consciência Negra, ganhou destaque uma foto divulgada pelo Itaú com os aprovados no seu processo seletivo para trainee. No total, 72 mil pessoas se inscreveram no processo e, desses, 125 foram aprovados. A imagem rendeu uma série de críticas de internautas ao banco devido à baixa presença de pessoas negras entre as selecionadas.

Alguns meses depois — que mais parecem anos por conta da pandemia —, as ações afirmativas deste histórico mês de setembro, encabeçadas pelo programa do Magalu, podem, de forma inédita, começar a mudar o ponteiro da diversidade dentro das grandes empresas e, em especial, nas posições de liderança. Para aqueles que são contra a política de cotas e acreditam na falácia do “racismo reverso”, uma má notícia: a iniciativa privada começa a perceber que ser protagonista também exige responsabilidade e atitudes efetivas para uma agenda de transformação que gere, de fato, impacto social.

Esse é o tipo de contaminação positiva que precisa começar a ser normalizada para que novos padrões e referências sejam construídos em torno de indivíduos que representam 56,4% da população brasileira, mas que são invisibilizados em posições de destaque, sobretudo no mundo corporativo. Uma reparação histórica que começa a ganhar corpo com atitudes como essas. A resistência de parte da sociedade — que, embora não seja maioria, é bastante barulhenta — não pode impedir que avanços civilizatórios e necessários ocorram.

*Crédito da foto no topo: Ajwad Creative/iStock

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