Discordar não é desunir

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Discordar não é desunir

Ao iluminarem caminhos de tolerância, empatia e humildade, a vacina e Joe Biden serão suficientes para vencer a desesperança e a desinformação, e reestabelecer o diálogo como via de entendimento e paz?


26 de janeiro de 2021 - 12h25

Capa da revista Time, dos Estados Unidos (Crédito: Reprodução)

Em meio ao sufoco da falta de oxigênio no Amazonas, aos desencontros que atrasam a chegada de insumos e vacinas contra a Covid-19 e à lentidão da recuperação econômica para diversos segmentos da indústria, comércio e serviços, as duas imagens mais midiáticas da semana passada, uma nacional, outra global, apontam a esperança de um novo tempo de superação do caos e do medo: o início da vacinação no Brasil e a posse do presidente Joe Biden nos Estados Unidos. Considerando que o combate à ascensão do extremismo é muito complexo, a dúvida é: mesmo iluminando o caminho da tolerância, da empatia e da humildade, Biden e a vacina serão suficientes para vencer a desesperança e a desinformação, e reestabelecer o diálogo como via de entendimento e paz?

O novo presidente dos EUA chegou pedindo união de forças, fim da gritaria, diminuição da temperatura e prometendo liderar não apenas pelo exemplo de poder, mas pelo poder de seu exemplo. “A política não precisa ser um fogo violento destruindo tudo em seu caminho. Cada desacordo não deve ser causa de guerra total e devemos rejeitar a cultura em que os próprios fatos são manipulados e até fabricados”, discursou.

Lideranças, imprensa e mercados ao redor do mundo se animaram com as primeiras palavras e atos de Biden na presidência, mesmo reconhecendo as enormes dificuldades políticas, econômicas e sociais de uma realidade ainda moldada pela luta contra a Covid-19. Fora isso, ainda há o passivo herdado e retratado pela ilustração de capa da Time desta semana, onde um Biden pensativo aparece imerso em um salão oval totalmente destruído. A revista frisa que o novo presidente lidera um país dividido entre americanos que acreditam nos fatos e americanos que desconfiam deles.

O discurso de unidade de Biden também contrasta com outro acontecimento doméstico da semana passada, que afeta o modelo comercial que sustenta as relações entre anunciantes, agências e veículos no País. A Associação Brasileira dos Anunciantes (ABA) está se retirando do Conselho Executivo de Normas-Padrão (Cenp), entidade da qual foi uma das fundadoras há 22 anos. Oficialmente, a ABA diz que o mercado mudou e o cenário atual exige “reflexão profunda e livre sobre as novas tendências de comunicação e mídia”. Entretanto, executivos envolvidos na decisão disseram à reportagem de Meio & Mensagem que os anunciantes não se sentem representados pelo Cenp, cuja atuação seria mais favorável às agências de publicidade e à manutenção do modelo vigente, com o qual nem todos concordam.

Essas divergências já eclodiram em outros momentos, como em 2015, quando a ABA reclamou ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) de “condutas anticompetitivas” praticadas pelo Cenp e acusou as normas-padrão de serem “instrumento fora de qualquer contexto político e econômico e sem função positiva para o setor”. Diversas lideranças do mercado, inclusive anunciantes, entraram em campo para apaziguar os ânimos, o Cenp retrocedeu em atitudes como as notificações de falta de compliance a anunciantes acusados de não seguirem as normas e atualizou diversas regras que guiam as relações comerciais da indústria. Em 2017, o Cade arquivou o processo, e, aparentemente, as lideranças de anunciantes e agências até viveram um período de lua-de-mel no âmbito do Cenp.

Agora, o inédito pedido de saída da ABA ocorre em um momento bastante tenso e contaminado pela polarização política, em que tramita no Cade outra investigação, dessa vez contra a bonificação de volume (BV) paga pela Globo às agências de publicidade. Neste momento, a maior empresa de mídia do País só continua fechando negócios com as agências amparada por liminar da Justiça.

Diante de atos com desdobramentos ainda imprevisíveis, ainda é cedo para saber se entidades, empresas e profissionais da indústria da comunicação conseguirão seguir o conselho de Joe Biden, de que discordância não deve levar à desunião.

*Crédito da foto no topo:  Cassi Josh/ Unsplash

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