Esse escândalo não me pertence

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Esse escândalo não me pertence

Uma das coisas mais importantes ao se enfrentar uma crise é entender que o interesse vai diminuir, outras polêmicas surgirão


24 de fevereiro de 2021 - 14h00

(Crédito: MicroStockHub/iStock)

Apesar de um escândalo não ser um lugar em que desejemos estar, algumas vezes é onde nos colocam, e lidar com isso de modo transparente e organizado é o que você pode fazer de melhor por sua reputação e sua marca.

É um processo doloroso, desgastante e em que o seu nível de controle é muito pequeno. Como muito bem dito pelo professor Clóvis de Barros Filho, a reputação é um eu fora do seu alcance. Logo, em grande parte da crise, você acompanha, mas não pode interferir.

Mas, como é que você se porta quando se vê no meio de um tsunami desses?

Vamos de exemplo, porque se você me lê sempre aqui no Meio e Mensagem, sabe que gosto de simplificar as coisas.

Durante 2019, fui vice-presidente de uma organização não governamental e, em determinado momento, descobrimos uma fraude de proporções razoáveis, envolvendo órgão público federal. Passada a fase investigativa e dos acordos para conclusão, optei pela minha renúncia, por discordar da evolução do processo interno. Mas cadê o exemplo, Tania? Calma aí, que você precisava desse contexto.

Eis que janeiro de 2021 me surpreende com uma carta aberta do ex-presidente do órgão fraudado, em que ele detalha, de modo muito direto, os acontecimentos de dois anos atrás. E meu nome está lá, em destaque, citado como uma das poucas pessoas que à época exigia ações mais severas.

A primeira semana de janeiro, que historicamente é tranquila nos meus negócios, virou um caos! Jornalistas pedindo posicionamento e explicações, pressionando por documentos, que até ali não estavam públicos, fogo amigo e fogo inimigo, tudo junto e misturado.

E esse, queridos leitores, é o momento mais comum para cometermos grandes erros de posicionamento. A pressão externa, o medo da reputação ser atingida, a raiva contida. Tudo isso é a tempestade perfeita.

Então, fiz uma listinha com as decisões mais importantes que tivemos (eu e minha equipe de gestão de crises) e que me permitiram lidar com a situação da maneira mais eficiente e menos danosa possível:

1. Fale menos: Nós optamos por falar com um jornalista especializado no mercado. Uma conversa curta, objetiva, falando dos fatos.

2. Fale dos fatos e evite opiniões sobre pessoas: O senso ético é individual. O que para você é inaceitável, num processo legal pode ser considerado um erro menor. Você não é juiz. Não esperam que você emita juízo de valor sobre pessoas, mas que você tenha um posicionamento claro sobre a situação.

3. Indique os canais oficiais: A própria associação envolvida é que precisaria providenciar material que demonstrasse algo diferente do que foi publicado pela parte que expôs a situação. Reforce isso em todas as suas falas.

4. Mantenha-se neutro: se você não é parte afetada (acusada ou acusador), não é saudável tomar uma posição. De novo: são pessoas em lados opostos. Haverá fogo amigo e fogo inimigo, e se você estiver no meio da batalha será atingido!

5. Peça apoio: Organize um grupo de apoio confiável, que possa te atualizar das conversas de bastidores. Reputação, eu fora da sala… Lembra? Ninguém vai te criticar nos grupos em que você está presente, é importante você saber o que estão falando pelas costas.

6. Respire: Faça exercícios, vá meditar ou maratonar uma série. Mas desconecte-se, mesmo que por períodos curtos. Não se encara uma crise de reputação desequilibrado emocionalmente. A chance de erro só aumenta com o cansaço e a frustração.

7. Acione, ouça e respeite a opinião da sua assessoria de imprensa: O componente emocional é muito forte numa situação dessas. Você não deve confiar apenas na sua experiência ou opinião. Uma avaliação técnica de quem é profissional no assunto é fundamental. Por experiência própria, também é uma das coisas mais difíceis de serem feitas.

8. Não se omita e nem se esconda: O que de pior pode existir quando seu nome é envolvido em alguma situação polêmica é imaginar que é possível se esconder atrás de um perfil privado ou um sumiço generalizado. Não é necessário ser festivo em suas redes sociais, mas há de se manter a coerência com seu comportamento habitual.

9. Isso também passa: Uma das coisas mais importantes ao se enfrentar uma crise é entender que o interesse vai diminuir, outras polêmicas surgirão. O que não passa é o posicionamento que você escolheu. Sempre que uma pesquisa sobre qualquer um dos envolvidos for feita, seu nome vai aparecer. Se sua postura foi consistente, a sua reputação está a salvo!

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