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O que está acontecendo?

Contrariando a cúpula da aclamada Motown, Marvin Gaye ensinou que a arte joga com o imprevisível


31 de agosto de 2021 - 13h25

(Crédito: Marcos Medeiros, Sócio e chief creative officer da CP+B Brasil mmedeiros@cpbgroup.com)

Há um momento em que começo a me afastar da cidade de São Paulo. Quando as luzes diminuem, dando lugar aos faróis dos automóveis ávidos por chegarem a outro destino. Nesse momento, quando sinto que o silêncio começa a se fazer mais presente, dou lugar a uma voz que tem sido constante na rota entre a cidade de São Paulo e a praia de Camburi. São duas horas e vinte minutos na previsão do aplicativo, tempo suficiente para um episódio do podcast Discoteca Básica e para, em seguida, ouvir o disco que foi destrinchado com sabedoria pela voz do jornalista Ricardo Alexandre. Em uma dessas viagens dentro de uma viagem, uma passagem sobre um dos álbuns mais importantes da história, “What’s Going On” – do Marvin Gaye, ficou anotada na cabeça. Resolvi falar com o Ricardo Alexandre e ouvir um pouco mais sobre o assunto. Dessa aula, sai o texto a seguir.

Entre 1962 e 1971, a gravadora Motown, que se intitulava o som da América jovem, havia colocado nada mais, nada menos do que 240 hits no top 40 das rádios norte-americanas. Um número impressionante, fruto de uma visão revolucionária e fortemente empresarial na concepção de hits ao lado dos seus artistas, quase todos negros, aliada à construção de sonoridades particulares que influenciaram a música pop como conhecemos até hoje, de Beatles a Beyoncé, de Bob Marley a Frank Ocean. O trabalho da Motown era quase fabril, com a mentalidade de uma linha de produção, com padrão de qualidade, mas dependente de criar em grande escala. Fazia-se muito e aproveitava-se o que engajava mais em formato de baladas, canções românticas e músicas dançantes. E essa fórmula deu muito certo. Nomes? Diana Ross & The Supremes, Stevie Wonder (um dos deuses do meu Olimpo musical), The Four Tops, The Temptations, The Jackson Five, Martha Reeves and The Vandellas e, é claro, Marvin Gaye.

Marvin, o personagem principal do texto, a voz que parece uma divindade por si só, entra em conflito com esse jeito de criar da Motown e com a sua própria produção. Não obstante, ele tem que lidar com a dor do falecimento precoce da parceira musical Tammi Terrell (de Ain’t no Mountain High Enough), com os relatos do irmão que retornara da Guerra do Vietnã, com a violência policial, com o racismo. Nesse balaio todo, Renaldo “Obie” Benson, dos Four Tops, começa a escrever a canção “What’s Going On” depois de testemunhar a polícia atirar contra estudantes no Parque do Povo, em Berkeley, episódio que ficou conhecido como “Quinta-feira Sangrenta”. A frase, que viria depois a se tornar o título da música, é uma reação imediata aos fatos: o que está acontecendo? Al Cleveland entra no bolo e aumenta o espectro da letra; depois, Marvin Gaye chega para dar aquela temperada final no que viria a ser uma das melhores canções de todos os tempos. E aqui começa toda uma peleja com a Motown.

Nas palavras do Ricardo Alexandre, uma explicação para essa inquietação de Marvin: “A arte joga sempre com o imprevisível, com o suspeito, com o impensável. Ela tenta materializar o que foge das estatísticas.” Mas como provar isso dentro de um contexto em que tudo funcionava tão bem? Bom, quando Barry Gordy, o dono da Motown, ouviu a canção pronta, disse apenas: “É a pior coisa que eu já ouvi na vida”. No outro canto do embate, Marvin Gaye exclamava sobre a estranheza de cantar canções de amor com um mundo explodindo à volta. Próximo round.

O controle de qualidade da Motown reprova a música, Marvin pega o seu boné e diz que só voltaria se a canção fosse lançada. Não era bravata. Fato consumado, a gravadora fica sem canções do seu astro para o Natal daquele ano. Cabe ao produtor Harry Balk o papel de sensato e louco ao mesmo tempo. Ele vai contra Barry Gordy, manda prensar 100 mil cópias do single e lança na marra. Sucesso instantâneo nas paradas, “What’s Going On” começa ali a garantir o seu lugar na história, indo contra todas as boas e pretensamente infalíveis fórmulas da Motown.

Parênteses para um detalhe sobre a importância de respeitar o acaso: se você ouvir a música, vai perceber uma sobreposição de vozes do próprio Marvin Gaye. Parece uma ideia genial, pensada e trabalhada, mas foi um acaso. O cantor tinha o costume de registrar diversos takes de voz para escolher a melhor interpretação. Na hora de ouvir, o engenheiro de som colocou, sem querer, dois canais tocando simultaneamente. Marvin usou essa combinação para dar uma camada a mais de molho na canção. Sugiro que procurem no YouTube por registros do canto de Marvin sem os instrumentos. É uma experiência de outro universo.

Continuo com mais uma frase do Ricardo Alexandre: “Eu acredito na cultura de mercado, na arte de consumo… eu não acho que essa seja uma dimensão inimiga da criatividade…” Segue ele: “Por outro lado, se um departamento comercial de marketing que não respeita e não valoriza o artista rebelde, o artista de confronto, a arte fica dominada pela resposta previsível que se pode quantificar e mensurar pelas pesquisas. Isso leva a uma arte estagnada. Leva a uma indústria que só produz o que o público já disse que quer consumir.”

Para finalizar, pergunto sobre um certo otimismo dele em acreditar que a criatividade sempre rompe as barreiras. Ao que ele respondeu: “Em algum momento, os departamentos de marketing tiveram de admitir que talvez Madonna misturando religião com pistas de dança pudesse agradar, que a Legião Urbana com músicas quilométricas e letras sem refrão pudesse funcionar, que talvez Roberto Carlos romper com a fórmula da Jovem Guarda pudesse ser um sucesso. A história mostrou que a ousadia dá certo.”

Há um momento em que o carro começa a se afastar de Camburi. É quando penso: o que os bastidores de um disco nos reservam desta vez? Toca o próximo episódio. Longa vida à criatividade, aos artistas rebeldes e aos contadores dessas histórias musicais.

*Crédito da foto no topo: Reprodução

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