A voz do lixo não quer ser ouvida

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Opinião

A voz do lixo não quer ser ouvida

Cannes é um festival que não ressoa dentro dos valores que defendemos hoje como prioritários e inegociáveis para um pacto-civilizatório


13 de junho de 2022 - 9h52

“Foi então que uns brancos muito legais convidaram a gente pra uma festa deles, dizendo que era pra gente também. Negócio de livro sobre a gente. A gente foi muito bem recebido e tratado com toda consideração. Chamaram até pra sentar na mesa onde eles tavam sentados, fazendo discurso bonito, dizendo que a gente era oprimido, discriminado, explorado. Eram todos gente fina, educada, viajada por esse mundo de Deus. Sabiam das coisas. E a gente foi se sentar lá na mesa. Só que tava tão cheia que não deu pra gente sentar junto com eles. Mas a gente se arrumou muito bem, procurando umas cadeiras e sentando bem atrás deles. Eles tavam tão ocupados, ensinando um monte de coisa pro crioléu da plateia, que nem repararam que se apertasse um pouco até que dava pra abrir um espaçozinho e todo mundo sentar junto na mesa. Mas a festa foram eles que fizeram, e a gente não podia bagunçar com essa de chega pra cá, chega pra lá. A gente tinha que ser educado. E era discurso e mais discurso, tudo com muito aplauso.”

O trecho acima, retirado do livro de Lélia Gonzalez, “Por Um Feminismo Afro-Latino-Americano” vai tomar uma boa parte da coluna, mas ele se faz muito necessário nesta ocasião. Ele cabe muito bem a este momento que acontece todos os anos: Cannes cagando para as pessoas pretas.

Cannes é um festival que não ressoa dentro dos valores que defendemos hoje como prioritários e inegociáveis para um pacto-civilizatório: valores que priorizem possibilidades coletivas sobre as individuais. Cannes é sobre premiar grandezas dimensionais e qualitativas. É fundado e mantido sob o framework euro-logo-falocentrista que sustenta o discurso falido e perverso de meritocracia individual.

Sua diretoria, que há poucos anos não conseguiu explicar por que removeu a única pessoa negra responsável pelas iniciativas de diversidade. A estrutura brasileira, também formada exclusivamente por pessoas brancas, não soube providenciar uma justificativa adequada sobre o fato de que, dos 25 jurados escolhidos para 2022, apenas 1 era uma pessoa preta e 10 mulheres.

Diante de uma iniciativa organizada por brasileiros que militam pela pauta da diversidade, o festival encontrou uma solução duvidosa: um prêmio de consolação, onde várias pessoas pretas foram convidadas para participar do “júri do shortlist”, um prêmio de consolação para separar joio do trigo (para que o júri se debruce sobre o filé), que periga ter também uma maioria branca se não fosse pelos protestos.

Para os meus brilhantes colegas pretos escolhidos essa é uma grande oportunidade: ganharão ainda mais destaque em suas lindas carreiras, terão seus trabalhos visibilizados e seus passes valorizados. Mas questiono sobre o quanto esse desejo de adentrar festas criadas e mantidas por brancos e para brancos – seja Cannes ou o carnaval da Vogue – significa muito mais um desejo individual de pertencimento e reconhecimento do que uma estratégia coletiva para que mais pretos progridam em grande escala. E tá tudo certo em sê-lo. A nossa jornada individual rumo à libertação passa por diversas concessões e dores. A estrutura que existe e na qual operamos não é a nossa.

Mas não deixo de pensar e provocar sobre a necessidade de criarmos novos espaços, que não sejam exclusivos (tô fora de um Black Cannes), mas fundados sobre uma nova lógica de inclusão e coletividade, na qual os resultados sejam de fato benéficos para a sociedade e nossos grupos minorizados, que não tenha como objetivo final um peso de papel metálico em forma de leão ou uma foto no Instagram dizendo que “a vitória de um é uma vitória de todos”. O risco que corremos coletivamente é o que aponta a Lélia Gonzalez, que uso também no final.

“Ora, na medida em que nós negros estamos na lata de lixo da sociedade brasileira, pois assim determina a lógica da dominação, caberia uma indagação via psicanálise. […] por que o negro é isso que a lógica da dominação tenta (e consegue muitas vezes, nós sabemos) domesticar? O risco que assumimos aqui é o do ato de falar com todas as implicações. Exatamente porque temos sido falados, infantilizados (infans é aquele que não tem fala própria, é a criança que se fala na terceira pessoa, porque falada pelos adultos), que neste trabalho assumimos nossa própria fala. Ou seja, o lixo vai falar, e numa boa.”

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