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Opinião

Maternar x trabalhar: uma equação complexa que deve ser resolvida por todos

A maternidade nunca foi nem nunca será algo fácil para mim. A escolha mais definitiva e acertada da minha vida também dói. Ela envolve culpa, medo e julgamentos


3 de maio de 2022 - 1h20

Esse artigo é em primeira pessoa porque não posso falar por outras mães executivas, mas posso compartilhar sentimentos que, talvez, sejam os mesmos de muitas mulheres que me leem.

A maternidade nunca foi nem nunca será algo fácil para mim. A escolha mais definitiva e acertada da minha vida também dói. Ela envolve culpa, medo e julgamentos (os meus e os de outras pessoas).

Quando comuniquei que estava grávida, descobri bem abruptamente que o mundo está longe de abraçar a maternidade como algo natural na vida de qualquer mulher que queira ter filhos e também queira ter uma carreira. Ouvi de amigos, familiares e profissionais que eu deveria começar a trabalhar menos, que meu crescimento poderia ser comprometido e que eu precisava ser “poupada” de jobs mais importantes, já que corria o risco de ter imprevistos pela frente. Que grávidas são muito sensíveis e até que o pensamento ficava mais lento pelo volume de água no cérebro. Não sei nem se isso existe, gente. O fato é que no momento em que eu disse “estou grávida”, senti que minha competência automática e instintivamente passou a ser questionada. Vocês também sentiram isso?

Quando o Theo nasceu, apesar da depressão pós-parto, que é assunto para outro artigo, eu me senti muito potente, madura e inspirada para voltar ao trabalho. Minha produtividade nunca havia sido tão alta porque eu nunca tive um motivo tão importante para chegar em casa – abraçar meu filho. Organizava meus dias, minha rotina, meus projetos e minha equipe para que tudo funcionasse da melhor forma possível dentro daquele novo jeito de viver. Eu estava preparada para ser mãe e continuar construindo a minha carreira, mas o mundo, não. E quando digo “o mundo”, não estou falando especificamente sobre esta ou aquela pessoa, estou me referindo à forma como a sociedade está estruturada para o trabalho.

Em tal estrutura tão despreparada para a maternidade, o que normalmente acontece é que se espera que mães deleguem esse papel para trabalhar, ou parem de trabalhar para serem mães. Segundo estudos da FGV, após 24 meses, quase metade das mulheres que tiram licença-maternidade está fora do mercado de trabalho. Padrão que se perpetua inclusive 47 meses após a licença. A maior parte das saídas se dá sem justa causa e por iniciativa do empregador”.

Deveria ser óbvio para todos que o entorno de uma família com filhos pequenos precisa se organizar para que o bem-estar da criança seja garantido. Isso significa que os poderes público e privado em todas as suas instâncias devem estar preparados para que a humanidade se perpetue.

 

Flávia Campos e seu filho, Theo (Crédito: Arquivo pessoal)

Há um provérbio africano muito conhecido e, na minha visão, extremante verdadeiro, que diz:

“É preciso uma vila inteira para criar uma criança”. Ele surgiu na Nigéria, mas há formas variadas em diversos países da África. Na Tanzânia, por exemplo, é “um só joelho não ampara uma criança”, enquanto em regiões da África Central e ao leste há o ditado “Uma só mão não nina uma criança”.

É vital não limitar a disponibilidade de mulheres que se conectam às crianças desse mundo como suas cuidadoras. Trocando em miúdos: bebês precisam dos pais, os pais precisam trabalhar para cuidar dos filhos, as empresas precisam da força de trabalho dos pais e o mundo precisa que crianças cresçam saudáveis e felizes para continuar existindo.

A pandemia, que foi horrível em todos os sentidos, nos lançou compulsoriamente num cotidiano caótico, dificílimo e exaustivo. Aqui, até a chegada da vacina, éramos um pai e uma mãe cuidando sozinhos do filho, do homeschooling (meu deus do céu, o homeschooling), das consequências do isolamento para uma criança de 6 anos, do cachorro, dos gatos, da casa, da comida, das roupas, do trabalho e de todo um contexto complemente desconhecido e assustador que se apresentava como um pesadelo diante dos nossos olhos.

Depois da tempestade, pude respirar e refletir sobre como novos formatos de trabalho podem ser mais acolhedores para mães e seus filhos. Após cerca de 26 meses trabalhando remotamente, me dei conta de que eu poderia ter estado mais com o Theo durante seus 6 primeiros anos de vida. Além disso, estando mais em casa eu consigo possibilitar que minha ajudante passe mais tempo com a filha dela. É um círculo virtuoso. Somos mutuamente a rede de apoio uma da outra.

O home office me trouxe a alegria de estar a poucos passos de abraçar meu filho e isso é algo do qual eu não quero mais me privar. Poder buscá-lo na escola, almoçar com ele, tirar dúvidas sobre a lição de casa no meio da tarde e ganhar um beijo inesperado durante uma reunião aumentou a minha qualidade de vida na mesma medida em que diminuiu minha culpa.

Atualmente, trabalho no modelo híbrido. É bom poder voltar a encontrar as pessoas presencialmente. Isso é importante para a socialização, para o desenvolvimento da confiança e para a concretização da cultura interna. Melhor ainda é encontrar o equilíbrio entre o tempo que passamos no trabalho e o tempo que podemos estar ao lado dos nossos filhos.

Que saibamos, como sociedade, aprender a viver melhor.

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