A impaciência nossa de cada dia

Buscar
Publicidade

Opinião

A impaciência nossa de cada dia

Supervalorizamos tudo o que pode ser compreendido como eficiência e desvalorizamos o tédio, e isso nos leva a nem sempre honrar o tempo como deveríamos


11 de dezembro de 2023 - 6h00

“Um dos orgulhos que ele tinha era a capacidade de ouvir podcasts na mais alta velocidade possível. Assim, ele criava uma falsa sensação de que poderia dar conta de estar em sintonia com centenas de podcasts por ano. Tarefa essa fadada ao fracasso completo, visto que só no Spotify existem mais de cinco milhões de títulos de podcast. Em contrapartida, ele passou a demonstrar impaciência nos diálogos da vida real. Quando alguém falava, tudo o que ele queria era uma função para avançar a velocidade da conversa. E diante da frustração de não ver o seu desejo realizado, ele logo entrava em um estado de ansiedade, que, para segurar o ímpeto de atropelar a fala do outro, balançava os pés e cravava levemente as unhas na lateral das coxas.”

“Ela começou a avançar os diálogos no WhatsApp, em uma busca por eficiência. Assim, ela acreditava poder realizar mais tarefas utilizando esse ganho de tempo. Como o motorista que força aquela ultrapassagem pelo acostamento e chega ao destino cinco minutos antes de você. Ela se sentia movida por pequenas recompensas, então cada áudio acelerado era um ponto a mais na sua capacidade de ser multitarefa.”

Os trechos acima são uma mescla de artigos e reportagens que li a respeito da tendência cotidiana de acelerar áudios e vídeos. Em inglês, existe até um trocadilho para nomear os praticantes ou viciados nessa prática, quando o assunto é podcast: podfasters. A aceleração de áudio é algo que evito desde o seu surgimento, porque já sou ansioso o suficiente, logo, não preciso de estímulos extras. E faço essa escolha mais por instinto de preservação do que propriamente por saber o que estava por trás daquele simples hábito. Àquela pulada da abertura da Netflix, eu cedi rapidamente, confesso. Para o restante, criei um alerta que, por não conseguir explicar o porquê, tive que ir atrás de informações e estudos sobre o que vem a reboque dessa nossa impaciência cotidiana para simples esperas.

“Acelerar tudo o que estiver ao alcance é um sintoma de uma sociedade que busca efetividade, produtividade e fazer tudo o mais rapidamente possível”. Isso é o que diz o Dr. Marcuetta Simms, psicólogo e fundador do The Worth, Wisdom and Wellness Center.

Até um eletrodoméstico, o processador multiuso, é incapaz de fazer todas as funções ao mesmo tempo. Só que nós, seres humanos egocentrados, batemos no peito e falamos: eu faço tudo simultaneamente. A gente comprou, corroborou e espalhou que ser multitarefa era uma grande qualidade, quando na imensa maioria dos casos, o que se tem é uma atenção fragmentada e extremamente prejudicada sobre diversos assuntos.

Um dado que muito me espanta é que essas aceleradas ingênuas atrapalham a nossa capacidade de identificar e sentir prazer. Porque essas pequenas gratificações que sentimos ao terminar tarefas de forma passiva, sem grande esforço, liberam dopamina. E como fazemos isso diversas vezes por dia, essa sensação de prazer e de motivação que vem com a dopamina começa a exigir estímulos mais intensos. Acontece que na vida real não é exatamente desse jeito que as coisas acontecem. Assim, um simples pôr do sol deixa de ser um lugar de deleite, dando lugar a “esse troço não desce mais rápido, não?”.

Supervalorizamos tudo o que pode ser compreendido como eficiência e desvalorizamos o tédio. Ficar parado sem fazer nada pode ser interpretado pelo nosso cérebro como uma ofensa a todo um sistema de recompensas: “Como assim você não quer aquela dopaminazinha?”.

Só que o tédio é um campo vasto para a criatividade. Foi no tédio que uma criança olhou para uma caixa vazia e fez dela uma espaçonave. Foi no tédio que alguém teve a ideia de procurar formas de bichos nas nuvens ou na sombra da vela. Foi no tédio que castelos imaginários foram criados, fossos com jacarés de plástico foram construídos. Foi no tédio que alguém pegou uma raquete, uma rede de vôlei e uma peteca e criou o badminton (ok, pode ter sido em um churrasco repleto de embriagados). Importante ressaltar que o ócio também vive muito bem sem a criatividade. Às vezes, a gente só precisa de um tempo quieto cortando a unha do dedão sem pensar em mais nada do que aquela tarefa banal. Quem já tirou um bife do dedo sabe que não tem como ser multitarefa na hora de cortar as unhas.

Nessa nossa impaciência cotidiana, estamos perdendo o tempo das coisas e nem nos damos conta disso. Do mesmo jeito que há uma vontade de acelerar os diálogos da vida real, parece haver uma vontade de pular etapas. Ou aproximar todas elas.

Hoje, é possível observar um desenho de carreira que uma pessoa sai da posição de assistente para um cargo de direção de criação em uma janela de cinco anos. Em um ano, já queremos uma promoção. Salta-se de júnior para sênior como quem acelera áudio no módulo voz de esquilo chapado de cocaína. Perdem-se partes importantes do processo. Um companheiro desses diálogos de observação é Felipe Silva. É dele que pego um resumo surgido dia desses: “Estão pulando etapas para acelerar, mas não estão acelerando o domínio da profissão”. Sim. Há uma corrida para o pote no fim do arco-íris que é feita sem perceber as cores no caminho. E ao chegar lá, descobre-se a necessidade de outro pote. E mais outro. E mais outro. Criamos para nós mesmos a falsa sensação de que seremos capazes de aprender tudo em altíssima velocidade. E alguém ainda falará sobre a capacidade elástica de um cérebro nascido nesses tempos, o que os neurocientistas também refutam porque há informação e estímulo em demasiado para todos nós. E queremos de tudo a mesma urgência que está à disposição nos nossos dedos — dos relacionamentos amorosos, da carreira, das amizades, da vida —, quando, na verdade, a felicidade e o prazer são construções que exigem a nossa doação.

No livro O Sentido da Vida, Contardo Calligaris ressalta, entre tantos saberes, que é preciso dedicar tempo para se atentar ao que nos cerca. “Uma cultura distraída nunca será uma cultura hedonista, porque, simplesmente, nunca será uma cultura disposta a fruir a vida com uma intensidade que valha a pena”.

E fruir a vida, aqui, significa lidar com os prazeres e as decepções com atenção. Porque por mais que a gente acredite estar no controle remoto do mundo, acelerar uma decepção não a fará doer menos lá na frente. Porque até para isso precisamos da velocidade baixa para assentar. Pois, então, que a gente saiba honrar o tempo com o cuidado que o tempo merece. É o que desejo para você e repito em mantra para mim.

Publicidade

Compartilhe

Veja também

  • O futuro do meio Rádio

    Breve análise dos insights apresentados no evento ABA 65 Anos, no pós-SXSW

  • Precisamos falar sobre Daniel Kahneman!

    Estudar o pensamento de Kahneman deveria ser matéria obrigatória em todo e qualquer curso universitário, pois nos ensina a apreciar a beleza da incerteza ao nosso redor