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Opinião

A revolução cultural que vem do Nordeste

A regionalização das marcas torna-se algo estratégico; elas precisam estar preocupadas em entender e falar a língua do consumidor local


27 de junho de 2022 - 16h00

Diante de um mundo globalizado e conectado, a identidade local tem ganhado força. As pessoas passaram a produzir mais cultura e demandar acessos, exigindo ser protagonistas de suas histórias. Dessa forma, não aceitam mais que as marcas possam decidir por elas, ou mesmo reforçar estereótipos sobre elas. E diante de um processo de afirmação, mesmo em um contexto de crise, o imaginário sobre o Nordeste, muito representado pela pobreza, atraso e escassez vai ficando para trás, dando lugar para um reconhecimento de novos imaginários.

Para entender esse movimento de REDESCOBERTA do Nordeste, desde vez pelas lentes de quem vive no território, precisamos falar sobre o imaginário. Qual Nordeste vem à sua cabeça? São inúmeras possibilidades, afinal, estamos falando de uma realidade multíplice. Muitas dessas imagens, quase sempre estereotipadas, fazem parte da visão que muitos têm sobre a região e muitas vezes carregam o espírito colonizador: festas de ano novo povoadas por ricos e famosos, ativação de marcas, reclamações sobre o atraso, o serviço.

O que propomos aqui é ajustar o olhar para entender outros Nordestes. A evidência da importância dessa região fica mais forte quando as pautas identitárias jogaram luz sobre assuntos antes ignorados e, com essas conversas, movimentos culturais e sociais ganham protagonismo nas conversas. Movimentos que também fizeram pressão para que as marcas respondessem conforme as demandas do nosso tempo e as necessidades das pessoas.

Segundo o IBGE, a região possui mais de 49 milhões de habitantes – isso representa 30% da população brasileira, e é a segunda mais populosa do país. Esse número reflete diretamente na crescente do orgulho de ser nordestino, afinal, esses números representam corpos criativos que pulsam inventividade. A exaltação dos costumes vem como uma resposta de um Brasil que, por muito tempo, foi regido pelo eixo Rio – São Paulo. Logo, é preciso ir além: consumidores, marcas e o Brasil como um todo precisam reconhecer a força nordestina na construção e preservação de sua identidade nacional, e principalmente o crescimento e desenvolvimento econômico.

Entretenimento, moda, gastronomia, tecnologia, economia criativa. Todos os setores da indústria e sociedade precisam olhar e entender os Nordestes como uma referência em inovação, além de polo cultural. Mas uma estrutura econômica desigual como a que vivemos coloca o Nordeste como um espaço de exploração e não valorização – vide as festas de réveillon com visão estereotipada, fazendo com que outras regiões se apropriem e desvalorizem essa cultura regional. Reconheçamos: quando se trata de cultura, consumo e produção cultural (entre outros pontos), o Sudeste é pautado como o centro do Brasil.

Essa bolha precisa ser furada – mas como reconhecer essa potência de cultura, criatividade e inovação? Colocando o Nordeste como centro desse tipo de produção, porque, no fim das contas, ele é. Vejamos alguns exemplos. Um é a aceleradora Vale do Dendê, organização social que tem o objetivo de fomentar ecossistemas de empreendedorismo e impacto social com foco na diversidade, especialmente no Nordeste. Sua sede é em Salvador. Atualmente, 140 empresas integram o sistema da aceleradora e 120 empresas do Nordeste já receberam investimento. O centro de inovação e tecnologia CESAR, localizado em Recife (berço cultural de movimentos artísticos e tecnológicos), atua como aceleradora de startups, também com foco no Nordeste.

Outro exemplo que busca a valorização da cultura afro brasileira olhando para essa região, é o festival AfroPunk, que colocou Salvador, segunda cidade com maior população preta depois da África, como sua sede aqui no Brasil. A bolha do Sudeste vem sendo estourada, ainda que em passos curtos. Para conhecer melhor as pessoas, é preciso conhecer, observar e estudar os territórios que elas vivem.

Dessa forma, a regionalização das marcas acaba se tornando algo estratégico: elas precisam estar preocupadas em entender e falar a língua do consumidor local. Como por exemplo o estilista Isaac Silva, que foi a primeira parceria da Vista Magalu, em uma coleção que exalta a cultura baiana e a diáspora, também a minissérie documental “Pagodão: a cena por elas”, que tem como objetivo ampliar as vozes das mulheres vocalistas de pagode baiano, a realização foi feita pela Pagode Por Elas, plataforma em parceria com a DIVER.SSA e Skol Pagodão.

Assim, essas marcas não perdem espaço para as locais que possuem justamente esse elemento de conexão: tem a mesma origem que seus clientes e sabem a sua linguagem. As marcas precisam olhar para isso.

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