Não tenho tempo para o Sauditão

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Opinião

Não tenho tempo para o Sauditão

Para a estratégia da Arábia Saudita para sua liga de futebol funcionar, comprar o sucesso nas plataformas online não será suficiente

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9 de outubro de 2023 - 14h00

O Fundo de Investimento Público (PIF) da Arábia Saudita – um órgão do governo – anunciou, em junho, que assumiria o controle das quatro maiores equipes de futebol da Saudi Pro League (apelidada nas redes sociais de Sauditão). O surpreendente movimento tornava o governo Saudita dono de 75% do Al-Ittihad, Al-Ahli, Al-Nassr e Al-Hilal (os 25% restantes são controlados por uma organização sem fins lucrativos). Segundo o PIF, a transferência dos quatro clubes criaria oportunidades comerciais, incluindo investimentos, parcerias e patrocínios.

É como se o Governo Federal do Brasil estatizasse Flamengo, Corinthians, São Paulo e Palmeiras, e passasse a administrá-los como bens públicos.

Uma vez que os clubes pertencem ao governo, nada mais natural que o fundo abrir as suas torneiras de petrodólares para contratar alguns dos melhores jogadores do mundo. Primeiro veio o quase aposentado Cristiano Ronaldo; depois seguiram os já não tão jovens, mas ainda craques Neymar, Karim Benzema, Roberto Firmino, Sadio Mane, e muitos outros que aceitaram trocar a Liga dos Campões pelo Sauditão.

Para atrair nomes como estes, a conta saiu muito cara. No final da janela de transferências (o período em que os clubes podem comprar e vender jogadores), os clubes da Saudi Pro League gastaram colossais R$ 4,75 bilhões em compras de jogadores (de acordo com dados do Transfermarkt).

Apenas como referência, este é aproximadamente o valor que os fundos de investimento estão oferecendo pela compra de 20% dos direitos de todos os times da primeira divisão do Campeonato Brasileiro por 50 anos.

Depois de controlar os principais clubes e contratar dezenas de bons jogadores, o PIF passou a focar na distribuição e promoção do seu “produto”. Por um lado, passaram a oferecer os direitos de transmissão a preço de banana mundo afora. Por outro, começaram a investir pesado nas mídias sociais e em influenciadores. Do dia para noite, o Sauditão estava por toda parte.

Celebridades do Instagram, TikTok e X começaram a declarar seu interesse pela Arábia Saudita e seu futebol; os comerciais promovendo os jogos inundaram nossas telas; e a imprensa esportiva começou a cobrir o assunto como se ele tivesse alguma relevância. Obviamente, tudo muito bem pago através de patrocínios, compra de mídia etc.

Como as mídias sociais respondem rapidamente ao investimento (uma forma de garantir a continuidade das verbas publicitárias), já podemos ver o impacto positivo da estratégia. Segundo a Horizm (empresa de tecnologia e patrocínios digitais), os três maiores clubes da liga dobraram o número de seguidores e multiplicaram por dez seu alcance e engajamento.

Mas para esse projeto dar certo, não precisa dar lucro. O Fundo de Investimento Público Saudita – com seus recursos quase infinitos – não quer saber das finanças. O único indicador de sucesso que realmente interessa é o impacto positivo na imagem do país.

Apesar de o país ser apaixonado pelo futebol e já ter alcançado bons resultados internacionais em eliminatórias e até em algumas Copas do Mundo, ele ainda é mais conhecido pelas violações dos direitos humanos, preconceitos com as minorias, tratamento das mulheres como cidadãs inferiores, e algumas outras atrocidades típicas das ditaduras. Achar que o futebol mudará a sua imagem no curto prazo não é realista.

Para sua estratégia funcionar, comprar o sucesso nas plataformas online não será suficiente. O Sauditão precisará de torcedores que se interessem e assistam seus jogos (no Brasil, transmitidos pela BandSports). E aí está o problema.

Isso significa convencer torcedores em outros países a dedicar algumas horas por mês para ver jogos de um campeonato sem importância, com times desconhecidos, jogando em estádios sem tradição. O Sauditão precisará ser mais interessante que o TikTok, o Spotify, o Netflix, o Palmeiras, o Flamengo, a Premier League, a LaLiga etc. Essa é uma batalha que nem Cristiano e Ney conseguirão vencer.

Se quiser me impressionar, a Arábia Saudita terá que fazer mais do que simplesmente relançar seu campeonato de futebol. Esse marketing não funciona comigo.

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