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Notícias depressivas

A realidade se tornou tão distópica que está adoecendo as pessoas e a tentativa de se alienar um pouco desse mundo cada vez mais Years and Years acabou sendo um mecanismo de sobrevivência

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12 de julho de 2022 - 15h00

Crédito: Shutterstock

Há algumas semanas, quando veio à tona o caso da juíza do Tribunal de Justiça de Santa Catarina que induziu uma menina de 11 anos vítima de estupro a desistir de fazer um aborto legal, minha primeira reação foi tentar evitar o contato com essa notícia. A dupla violência contra uma criança, para mim que sou mãe de uma menina de quase essa idade, me causou repulsa. Claro que fracassei na minha missão. Os grupos de WhatsApp do qual participo, muitos formados só por mulheres, e a grande repercussão que o caso teve não só jogaram a notícia na minha cara como me causaram muito mal.

Quatro dias antes de o fato sórdido ter vindo à tona, o Reuters Institute for the Study of Journalism (RISJ), da Universidade de Oxford, publicou seu relatório anual sobre o consumo de notícias no mundo, o Digital News Report 2022. A pesquisa com mais de 93 mil leitores em 46 países é considerada a mais abrangente no tema. No geral, o resultado corroborou o que a imprensa já sente no lombo há tempos: dificuldade de manter leitores, falta de confiança da audiência, procura incessante pela fórmula mágica que faça as pessoas pagarem pelas notícias, ascensão das plataformas digitais em detrimento de jornais e revistas.

A pesquisa quantitativa, realizada pelo YouGov em janeiro e fevereiro, é complementada por uma pesquisa qualitativa em três países: EUA, Reino Unido e Brasil.

A principal conclusão foi que a média das pessoas que evitam notícias “depressivas”, como Covid-19, inflação ou guerra, passou de 29% para 38% nos últimos cinco anos. No Brasil, foi de 27% em 2017 para 54% em 2022. Ou seja, nesse período, dobrou o número de brasileiros que evitam essas notícias.

O relatório cita declarações de jovens brasileiros: “Dependendo do meu humor, se eu vir uma notícia que sei que é ruim, vai me chatear, às vezes eu deixo e leio depois” ou “Eu gosto de notícias sobre esportes, alimentação, bem-estar e saúde. Não gosto de ver notícias sobre violência”.

Outra conclusão: os níveis de confiança na imprensa continuam baixos. Apenas 42% disseram acreditar na maioria das notícias na maior parte do tempo. No último lugar no ranking, nos EUA são 26%. No Brasil, 48% acreditam no que leem. Uma proporção significativa dos jovens evita notícias porque são “difíceis de acompanhar”. Outro dado sobre a realidade brasileira é que 60% dos ouvidos acham que os jornalistas devem manifestar opiniões pessoais nas redes sociais e continuar a fazer reportagens — o que vai contra o senso comum da imparcialidade e neutralidade do profissional de imprensa.

Quando li o relatório, duas coisas imediatamente se passaram pela minha cabeça: 1º) a realidade se tornou tão distópica que está adoecendo as pessoas e a tentativa de se alienar um pouco desse mundo cada vez mais Years and Years (veja a série da HBO) acabou sendo um mecanismo de sobrevivência; e 2º) como jornalista, não pude deixar de pensar sobre quão desafiadores esses dados são para o setor, uma vez que assuntos que jornalistas consideram mais importantes, como crises políticas, conflitos internacionais, pandemias globais e catástrofes climáticas estão afastando as pessoas do seu ganha-pão: as notícias.

A jornalista Daniela Pinheiro, em sua coluna no UOL Tab, entrevistou Rasmus Kleis Nielsen, diretor do RISJ, que foi categórico: “Quem tem que ficar preocupado com esse número são os jornalistas e as empresas de mídia, porque isso mostra uma perda da conexão com os leitores e uma indiferença ao relevante trabalho da imprensa”.

A pesquisa também mostra que as pessoas estão mais dispostas a pagar por serviços de streaming, tipo Netflix, do que por jornalismo. “É extremamente importante, especialmente para aqueles que acreditam que o jornalismo precisa servir a todo o público, pensar em como eles podem criar uma oferta mais convincente para um público mais amplo e olhar além dos modelos baseados em assinaturas, que servem principalmente aos mais privilegiados”, afirmou Nielsen.

Ele completa dizendo que nos últimos 20 anos, houve uma mudança dramática na área com o aumento da oferta de fontes de informação graças ao digital. As pessoas têm mais opções, têm mais lugares onde buscar informação. Então, é mais importante do que nunca que se ofereçam produtos confiáveis e de qualidade. “Os efeitos disso já estão aí. É como as mudanças climáticas, o estrago já foi feito. Como podemos esperar que as pessoas prestem atenção, paguem ou acreditem nas notícias se o que se oferece é o que elas não querem ouvir ou o que duvidam ser verdade? É absolutamente necessária essa reconexão com o público”.

Por fim, como reflexão para reverter esse quadro desalentador, o pesquisador traça indicativos e dá algumas pistas: “Alguns padrões ficaram muito claros. Por exemplo, quem mais evita as notícias são mulheres e grupos com menores índices de educação formal e renda. Ou seja, não é todo mundo que abandonou o noticiário. E a pergunta é: quem abandonou, abandonou por quê? Temos dados de outras pesquisas mostrando que a maioria dos chefes do jornalismo brasileiro são homens brancos — a maioria da população não o é. E apenas 7% dos chefes de redação são mulheres, comparado com 50% nos Estados Unidos. Isso quer dizer alguma coisa? Outro dado é que os mais novos evitam as notícias porque acham ‘muito difícil’ acompanhá-las. Eles acham que o jornalismo é dispensável e por isso vão para as plataformas, como YouTube e TikTok. O fato é que o jornalismo virou as costas para as pessoas mais novas. E foi uma escolha. E foi dramática. É preciso reconhecer isso e tentar acertar esses descompassos”.

A equação é absolutamente hercúlea e complexa, mas fica evidente que questões de formação da nossa sociedade se refletem também nas estruturas de poder das empresas jornalísticas e que são reproduzidas no seu produto.

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