Sustentabilidade na boca do povo

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Opinião

Sustentabilidade na boca do povo

Novela Pantanal leva tema ambiental para a casa das famílias brasileiras


10 de agosto de 2022 - 6h00

Crédito: Shutterstock

O velho caminhando à beira do rio indaga em tom desesperado de onde vem a fumaça: “Eu não posso acreditar no que estou vendo, o fogo não vem na seca, só vem quando cai raio e raio só cai quando tem chuva. De onde é que tá vindo isso?” As cenas do fogo invadem a tela, labaredas que ardem sobre as matas, o trabalho de bombeiros e voluntários tentando dominá-lo. Bichos correndo em fuga e entre a fumaça remanescente do fogo recém apagado, animais em sofrimento, muitos incinerados…a cena final: um veado morto em meio às cinzas é visto em um plano aéreo que se abre para a imensa devastação.”

Corta.

O jovem entusiasmado, vegetariano por opção, ao assumir os negócios do pai agropecuarista, busca estudar formas alternativas de regeneração do solo, bem como modelos de policultura, agrofloresta. Quer certificar a cadeia, prover tratamento digno aos animais e respeitar os ciclos de cultivo. O CEO da empresa debocha – “coisa de menino mimado!”

Em meio aos desastres que temos vivenciado, das estatísticas alarmantes e da avalanche de campanhas publicitárias de marcas que “querem salvar o planeta”, arrisco dizer que nada conseguiu chegar mais perto de sensibilizar o cidadão comum do que a maneira como a pauta tem sido abordada na novela Pantanal. Fatos reais escancarados na ficção: Pantanal, a região que dá nome ao folhetim global de maior audiência atualmente, teve alta de 35% de incêndios em junho de 2022, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). As cenas mostradas eram imagens reais, referentes às queimadas do ano passado.

No final de 2016, ainda sob o êxtase da abertura apoteótica dos Jogos Olímpicos no Brasil, tive a honra de dividir uma mesa com o cineasta Fernando Meirelles sobre comunicação de causas ambientais. Ainda lembro do impacto causado pela forma sensível e artística com que a sustentabilidade tinha sido abordada na concepção e direção do evento, e como mostramos para o mundo uma visão contemporânea do tema, com ginga e criatividade brasileira.

Naquele debate falávamos do desafio de comunicar “causas” de maneira simples e engajadora, inserindo a narrativa no dia a dia das pessoas, com seriedade, mas também com arte e sensibilidade. Notávamos, ao mesmo tempo, que a racionalidade do discurso afugentava o cidadão comum da discussão. Naquele momento, sonhávamos com o dia em que o tema da sustentabilidade chegasse às mesas de bares, às conversas familiares na hora do jantar e que saísse das bolhas dos militantes ou dos “iniciados”.

Ao assistir a nova versão de Pantanal, imagino que muitos torçam o nariz cada vez que assunto invade a trama nas bocas de cada personagem, desde José Leôncio, o agropecuarista intuitivamente consciente, passando pelo jovem culto e engajado Jove, que quer desafiar o sistema; até Davi, o cético e desdenhoso executivo da empresa que busca apenas lucro e produtividade. Estereótipos à parte, finalmente a sustentabilidade é comunicada de forma simples e didática para uma audiência que começa a entender o que é causa e consequência. E passa a sentir na pele os efeitos das mudanças climáticas ou os impactos desastrosos gerados pelo “bicho homem”, como falam por aquelas bandas.

Pantanal pode até não ter a profundidade de uma tese acadêmica; nem a contundência de uma ação do Greenpeace ou da World Wildlife Fund (WWF), fundamentais para que a agenda socioambiental avance. Contudo, uma vez que o tema entra nas casas de milhões de brasileiras e brasileiros, provocando a reflexão sobre os impactos causados e também mostrando possíveis caminhos de solução, está sendo plantada uma semente fértil de conscientização capaz de romper as barreiras de classe, escolaridade, raça ou gênero.

A dramaturgia das novelas brasileiras dá uma enorme contribuição à sociedade quando serve de instrumento para sensibilizar e estimular conversas que nos convocam a questionar (ou até mudar) comportamentos individuais e coletivos. Aguardo as cenas dos próximos capítulos torcendo para que estimulem todos a lutar por um futuro mais sustentável, também fora das telas.

Pois como diria o Velho do Rio: “Somos natureza, princípio e fim de tudo e de todos”.

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