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Como funciona a engrenagem dos crimes digitais?

Especialistas revelam como o medo encobre denúncias e ajuda a impulsionar a indústria global de fraudes

Marcella Calfi

Gerente de marketing da Zoop 18 de março de 2026 - 18h32

Um slide exibido durante o 6º dia de SXSW resumiu um dos principais desafios das fraudes digitais: “Societal shame ensures silence and protects the attacker.” Esta frase não descreve apenas um efeito colateral, ela revela um dos propulsores desse tipo de crime.

No painel “Inside the International Scam Syndicate: How We Fight Back”, especialistas destacaram que fraudes não são apenas ataques tecnológicos. São, sobretudo, ataques psicológicos e sociais em escala.

Embora as perdas nos Estados Unidos tenham se aproximado de US$ 200 bilhões em 2024, o dado mais preocupante é outro: estimativas indicam que 93% dos golpes mundiais não são reportados. E a razão não é técnica, mas humana.

Após o choque financeiro, surge uma segunda camada de impacto: o medo de julgamento. A pergunta recorrente, “como alguém caiu nisso?”, desloca o foco do criminoso para a vítima. O resultado é o silêncio, que se torna parte do problema. 

Sem denúncia, não há investigação. Sem investigação, os golpes continuam (e escalam).

Enquanto isso, a fraude evolui como indústria. Investigações já identificaram complexos no Sudeste Asiático que operam como verdadeiros call centers do crime, com equipes dedicadas a atrair, envolver emocionalmente e explorar vítimas.

Esse modelo sustenta golpes como o pig butchering, em que a confiança é construída ao longo de semanas antes da extração financeira. Nesse processo, entram em jogo vieses como a aversão à perda e a dificuldade de abandonar investimentos já feitos, criando um ciclo difícil de interromper.

Diante desse cenário, a conclusão do painel foi de que a tecnologia é essencial, mas insuficiente.

Reduzir o estigma e tornar as vítimas mais confortáveis para falar é parte fundamental do combate às fraudes. Porque, enquanto vergonha e silêncio continuam protegendo os criminosos, essa indústria seguirá crescendo, longe dos holofotes.