A beleza como empoderamento e combate ao racismo estrutural

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Opinião

A beleza como empoderamento e combate ao racismo estrutural

Por oito meses, tive a oportunidade de aprender muito na L’Oréal Luxo com a Márcia Silveira, Head de DE&I da L’Oréal Brasil. Neste mês da Consciência Negra, esta coluna é dela


29 de novembro de 2022 - 8h19

Por oito meses, eu tive a oportunidade de aprender muito na L’Oréal Luxo com a Márcia Silveira, que atualmente é Head de DE&I da L’Oréal Brasil. Temos perfis muito diferentes. Eu tendo a ser mais pragmática, reservada e até mais introvertida. Ela é o extremo oposto: chega sorrindo, abraçando. A Márcia, para mim, representa o calor humano. Ela ajudou a moldar a gestora que sou hoje. Com ela, aprendi muito sobre empatia e também sobre letramento e conscientização racial, especialmente pela lente da Comunicação. Hoje, mais uma vez, quero ouvir a Márcia. Neste mês da Consciência Negra, esta coluna é dela.

Por Márcia Silveira

Márcia Silveira é especialista em comunicação e beleza há mais de 20 anos e Head de Diversidade, Equidade & Inclusão na L’Oréal Brasil (Crédito: Divulgação)

Dediquei muitas horas da minha vida alisando meu cabelo no início dos anos 2000, quando entrei na vida profissional. Cabelo liso, para mim, representava exatamente o que os alisadores capilares vendiam: possibilidade de ascensão social, oportunidade de trabalho e respeito. No início da minha carreira de jornalista, era com o cabelo escovado que eu ia de barco para o alto mar cobrir campeonatos de iatismo. Eu sabia que naquele ambiente úmido meu penteado não iria funcionar, mas o visual era uma forma de eu comprovar que poderia pertencer àquele ambiente que não era povoado por pessoas negras. Mais do que buscar elevar a autoestima, eu ia ao salão fazer escovas para ser reconhecida como pessoa, como profissional competente.

Naquela época eu ainda não tinha consciência de que buscava me tornar o mais próximo de uma mulher branca. A sociedade e a indústria da beleza por muito tempo tentaram embranquecer as pessoas pretas. Nos Estados Unidos, uma série de cosméticos dos séculos XIX e XX prometiam clarear a pele. Feitos à base de soda cáustica e concentrações excessivas de mercúrio, amônia e substâncias não reveladas causaram reações adversas e graves em inúmeras negras. No livro “História Social da Beleza Negra”, a historiadora Giovana Xavier fala sobre essa normatização da branquitude como padrão de progresso e de beleza universal.

Aceitar minha beleza preta não foi fácil não só pelo racismo estrutural, mas pela falta de produtos que atendessem às minhas necessidades de consumo. O mercado sempre foi muito desatento com essa população. Na minha adolescência, eu, minha mãe e minhas primas sempre cuidamos dos nossos cabelos por nós mesmas ou na informalidade de cabeleireiras que iam em casa. Quando se fala de maquiagem, então, é um lugar muito mais longínquo porque realmente não existiam bases para a nossa cor de pele, além de profissionais capacitados a aplicá-las sem que ficássemos acinzentadas. Sempre tivemos uma fortaleza de conhecimentos sobre a nossa estética, que vem da nossa ancestralidade, passado por gerações, e que se tornou, inclusive, oportunidade de trabalho.

Muitas mulheres negras viraram empreendedoras do mercado de beleza, abrindo salões, criando produtos. Não só por escolha própria, mas muitas vezes também por falta de espaço em outras áreas. O estudo “Afroempreendedorismo Brasil”, desenvolvido pela RD Station, Inventivos e o Movimento Black Money, divulgado no ano passado, mostrou que toda ideia de empreender vem de uma dor ligada à questão racial. A pesquisa ainda mostra que o afroempreendedorismo no Brasil é, em sua maioria, feminino, e em grande parte ligado à saúde e estética (14,3%).

Um dos marcos na busca pela valorização da beleza negra é o movimento rastafári, que surgiu nos anos 1930 e se respaldou na estética, como as roupas coloridas e os cabelos com dreadlocks. Nos anos 1960, ganhou força nos EUA o “Black is Beautiful” (em português, Negro é Lindo), que deu ao cabelo “Black Power” o papel central na estética dos negros americanos. Assim como o movimento de consumo “Se não me vejo, não compro”, que também ajudou a empoderar pessoas negras no mercado de beleza.

Mais recentemente, a partir dos anos 2010, ganhou força no Brasil o processo de transição capilar, em que os cabelos alisados são cortados e tratados para voltarem a ser naturalmente crespos ou cacheados. Nas redes sociais há inúmeros perfis que dão dicas para o processo. O trancismo também vem se popularizando cada vez mais. Em muitas culturas africanas, as tranças eram uma forma de identificação de cada grupo e os padrões de trançado indicavam aspectos como idade, estado civil etc. Apesar de a maioria das trancistas estarem na periferia, hoje já encontramos profissionais famosas em bairros nobres de São Paulo e do Rio de Janeiro, como Virgínia (@styllusvev, no Instagram) e Maia Boitrago (@maiaboitrago). O mercado de matéria-prima também segue em expansão. Já há, inclusive, fabricante nacional da fibra sintética usada na extensão das tranças.

Atenta a esses movimentos, a indústria começou a deixar de tratar como nicho pretos e pardos e passa a dar atenção a esses consumidores que, no Brasil, representam 56% da população. No mundo corporativo da beleza, nas grandes indústrias, a mulher negra ainda está atrelada à ponta do negócio, ao relacionamento com as clientes e não cuidando da inovação, pensando estrategicamente e administrando orçamento. Sei que na L’Oréal Brasil somos exceção. Ainda temos muito a avançar, mas hoje temos 17% de negras entre as mulheres da liderança na empresa. E não estamos sozinhos na luta pela inclusão. Fazemos parte do Mover, movimento pela equidade racial que é uma associação formada por 47 empresas engajadas, por meio de ações internas e externas, na promoção da equidade racial no mundo corporativo.

Esse movimento é muito importante porque inspira outras mulheres negras a saberem que existe uma possibilidade de ascensão de carreira, de posicionamento dentro do mundo corporativo. Eu tive que superar o glass-ceiling (telhado de vidro) e a síndrome da impostora, por achar que não devia ascender a certos cargos. Precisei fazer um trabalho forte de aceitação, de conscientização. Foi muito importante para mim ter sido Head de comunicação da divisão de luxo e liderar marcas icônicas ao lado da Sabrina Zanker, que hoje me cede este espaço. Então, sim, eu posso, e muitas outras pretas também podem ocupar cargos de liderança e ter autonomia sobre suas carreiras. Mas para isso, temos que amar o nosso reflexo no espelho todos os dias.

Eu encontrei meu lugar na agenda de transformação do mundo corporativo e hoje me sinto à vontade para usar o meu cabelo de diversas formas: trançado, cacheado, liso, com mega hair, laces, inclusive no ambiente profissional. Utilizo ao máximo a criatividade para estar sempre bonita (no sentido amplo da palavra) e de bem com a vida. Do jeito que eu gosto e me sinto bem. Sem apagamento de quem eu sou. Neste mês da Consciência Negra, tão importante para nós, convoco as empresas a tornarem seus ambientes mais diversos, acolhedores e a estimularem a permanência e ascensão de mulheres e homens pretos por meio de iniciativas inclusivas. Também convido as mulheres negras a se empoderarem através da beleza única que carregam consigo. A valorização da estética negra é um ato político. Ao negarmos a imposição do embranquecimento e exibirmos com orgulho nossos cabelos crespos e cacheados, tranças, black powers ou rastafáris, reforçamos nossa identidade e resistimos, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa.

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