As chegadas e partidas de Astrid Fontenelle

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As chegadas e partidas de Astrid Fontenelle

Da MTV Brasil à Globo, a jornalista fala do orgulho de ser uma mulher madura na televisão e anuncia novos projetos dentro e fora das telas 


6 de dezembro de 2023 - 11h26

A jornalista e apresentadora Astrid Fontenelle em gravação do “Chegadas e Partidas”, que estreou em novembro como quadro no “Fantástico” (Crédito: Globo/ Lucas Seixas)

Nos projetos em que se envolve, Astrid Fontenelle chega, chegando. Seja na MTV Brasil, onde teve a experiência única de construir um canal do zero, ou no Saia Justa, programa do GNT que comandou por 11 anos. A idade, ninguém pergunta, mas ela faz questão de dizer, orgulhosa do próprio amadurecimento, ao falar sobre mais uma nova chegada: a TV aberta. 

“Eu, 62 anos, prateada, chegar na TV aberta com um programa que existe há 10 temporadas no GNT é uma vitória muito grande para a minha carreira”, celebra a apresentadora. 

Astrid se refere ao “Chegadas e Partidas”, programa que fez e faz sucesso no canal pago da Globo e estreou em novembro como um quadro no “Fantástico”, em versão reduzida. Pela primeira vez, além dos aeroportos, a jornalista vai em busca de histórias emocionantes de quem circula também pelos terminais rodoviários. No caso, de pessoas que estão no saguão do Tietê, em São Paulo, aguardando alguém ou se despedindo. 

Quando a gente está falando de amor, pouco importa onde a gente esteja, se é na rodoviária, no terminal marítimo ou no trem. Porque estamos falando de uma sensação às vezes muito curta. De um sentimento que transborda, que transparece num momento muito rápido, que é a hora da despedida e o instante da chegada. Esse programa é sobre esse instante”, conta. 

Para ela, que fez a primeira temporada do programa com 50 e poucos anos, “Chegadas e Partidas” mudou sua vida em dois aspectos complementares: o exercício da empatia e a abertura para a escuta. E isso, segundo a jornalista, só foi possível com a maturidade. 

“É um programa que me traz longevidade na televisão. A Astrid mais nova, de 40 anos, não o faria tão bem, porque tinha necessidade de falar, de querer mostrar conhecimento. E ali não é sobre isso, é sobre o exercício de ouvir. Mas, uma coisa sempre tive: sou uma pessoa que não carrega preconceito, até porque minha história não permitiu.” 

Das dificuldades na infância à força da mãe 

Astrid coleciona histórias desde muito pequena. Dela e de muitas pessoas que por ela passaram. Essas vivências, a maioria entre Rio de Janeiro e São Paulo, a fizeram enfrentar os desafios da carreira e da vida de um jeito muito próprio. Mas nem todas as experiências foram fáceis. 

Quando era nova, sua família não tinha dinheiro para regalias. Coca-Cola, só no Natal e no aniversário. A mãe se separou do pai quando a apresentadora tinha apenas seis meses de idade. Depois, se formou em Educação com ela ainda no colo. A dificuldade na carreira aliada à falta de apoio paterno fez com que Astrid, aos dois anos, se mudasse para a casa da bisavó, onde também morava um tio “bem moralista”. Ao lado dele, ela lembra ter vivido, na prática, o peso da falsa moral e dos bons costumes. 

Depois, já aos 12 anos, Astrid volta a morar com a mãe, que havia deixado de ser professora para entrar no mercado securitário, em uma empresa de seguros, onde teve uma longa carreira. Quando olha para trás, a apresentadora vê nela uma grande inspiração de liderança.  

“Queria muito que ela estivesse viva, para ter as conversas que hoje temos sobre empoderamento feminino e dificuldades no mercado de trabalho. Ela deve ter sido uma pioneira na parada, porque não se masculinizou para comandar. Tinha sempre o cabelo pintado, brinco bem colocado, usava vestido e saia. Era daquelas executivas que hoje em dia admiramos, e comandava uma equipe de vendas de muitas mulheres.” 

Astrid: “Eu, 62 anos, prateada, chegar na TV aberta com um programa que existe há 10 temporadas no GNT é uma vitória muito grande para a minha carreira” (Crédito: Divulgação)

Mas a relação de Astrid com a mãe foi complexa. Inspirava, pois a genitora era forte no trabalho, tinha consciência social e um grupo de amigos nos anos 1970 bem diverso, onde a apresentadora tinha contato com gays, pessoas negras, pais com filhos adotivos e trans. Porém, também era confusa: ora morava com a mãe, ora se mudava para a casa de outro familiar. Em uma dessas mudanças, Astrid ficou com um parceiro da mãe que tentou abusá-la sexualmente.  

“Falo disso publicamente porque ela morreu. Não tive coragem de falar para ela. Se ela estivesse viva, não falaria. Depois daquele episódio, passei a ter horror dele e a fugir o tempo todo. Ficava trancada em casa, ia para a praia de carona. Mas depois ela terminou o casamento, que já não estava muito bom, porque o cara aprontava muito com a cabeça dela.” 

Entre idas e vindas, mudanças e emoções, essas dificuldades do início da vida e as referências de uma mãe muito presente em suas ausências e encontros fizeram dela quem é. “Morei com minha mãe num prédio grande com muitos apartamentos no Méier, na zona norte do Rio de Janeiro. Um dia, no térreo, ela olhou para o edifício e disse: ‘você está vendo esse prédio grande? Mora bastante gente aqui. Mas eu vou te falar uma coisa: tu fica esperta, porque se acontecer alguma coisa, a culpa sempre será da bicha do primeiro andar, do preto do segundo, ou da desquitada do sexto, que sou eu’.”  

Não à toa, quando pensa na maior partida que viveu na vida, a resposta é rápida e carregada de emoção: “A da minha mãe, sem dúvida nenhuma. Foi a partida mais dolorosa. Foi muito rápido. Ela estava no Rio de Janeiro, escondendo de mim uma doença. Entre detectar a enfermidade dela e a morte, foram 51 dias. Quando soube, a trouxe para São Paulo, fui buscá-la no aeroporto. Olha que doido. Fazem muitos anos, mas ainda me toca, ainda dói.” 

A certeza do telejornalismo: da MTV à Globo 

A televisão sempre foi algo fascinante para Astrid. Ela conta que assistia às novelas e ficava entusiasmada. Lembra nitidamente da notícia da chegada do homem à Lua transmitida pela televisão em preto e branco, e da avó, desconfiada, dizendo que aquilo tudo era uma invenção “da caixa maluca”. Mas, foi ao ver Glória Maria, ainda aos 12 anos, que ela teve certeza: queria ser repórter de televisão. 

“Eu era uma garota muito engraçada, mas não queria ser atriz. Queria fazer jornalismo”, conta a apresentadora, que estudou para chegar lá e foi logo para o programa TV Mix, da TV Gazeta, um grande sucesso dirigido por Fernando Meirelles, premiado diretor do filme “Cidade de Deus” e sócio da produtora O2 Filmes.  

Ao lado de Pedro Bial, Astrid cobriu o festival de música Hollywood Rock, idealizado pela Souza Cruz. A cobertura foi uma das primeiras direções de Boninho na Globo, ainda nos anos 1980. Logo o Grupo Abril a chamou para um projeto embrionário, mas que viraria um recorde de audiência para um canal em UHF: a versão brasileira da MTV, que ela até então desconhecia. 

“Sempre fui muito da música brasileira. Não era muito da gringa. Disse para eles que não poderia começar o projeto antes de estar no ar, porque vivia daquilo.” Astrid passaria ainda pela TV Manchete, onde apresentou brevemente o programa vespertino feminino “Mulher 90”, até aterrissar na construção da MTV Brasil, que em pouco tempo virou um grande hype para os jovens. Ela foi a primeira apresentadora do canal.  

“Foi a grande oportunidade que eu tive, porque eles não estavam prontos ainda, então fiquei lá dentro vendo um canal ser montado. Participei da compra dos equipamentos à decisão do nome da cara do jornalismo, o Zeca Camargo. E, claro, aos testes de VJ. Quando anunciei minha saída da Manchete, falei para o Nilton Travesso [diretor e produtor da emissora na época]: ‘Você não botou uma televisão no ar? Eu também quero’. E aí foi isso, fiz uma televisão do zero.” 

Ela ficou na emissora até 1999, quando assinou contrato com a Band e lá permaneceu por alguns anos. Depois, foi para o GNT, onde por pouco tempo comandou o programa “Happy Hour”. Foi quando decidiu se afastar da televisão. Voltou apenas após a separação do seu primeiro casamento e a adoção do seu filho, Gabriel, agora adolescente. Em março de 2012, ela recebeu da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) o prêmio de Melhor Programa por “Chegadas e Partidas”, ocasião em que falou abertamente sobre o lúpus, doença autoimune com a qual foi diagnosticada no mesmo ano. 

Pouco tempo depois, Astrid desponta e estreia como a principal apresentadora do Saia Justa no GNT, substituindo Mônica Waldvogel. Passa, então, a apresentar o programa ao vivo, algo inédito na história da atração. No total, foram 528 programas, de acordo com o cálculo da própria. 

Como mulher, pessoa física, aprendi demais. Foi ali que a gente aprendeu juntas a palavra ‘sororidade’. E ali a gente exercitou a sororidade da melhor forma possível, que, às vezes, era não concordar com a outra. A verdadeira sororidade é essa. Agora, o que eu levo para a minha carreira é conhecimento. Quanta coisa eu aprendi. É muita referência, muita pesquisa”, reflete. 

Como toda chegada supõe uma partida, o adeus ao Saia veio neste ano. E qual o sentimento de se despedir de um programa tão marcante em sua carreira? “Óbvio que fiquei impactada, que sinto muito, mas acho que a hora era essa. Desde o ano passado, estou pensando num novo formato de comunicação para mim, até fora da tela, mas vão ter que esperar um pouquinho”, avisa.  

Aprendizados e futuro 

Em meio a tantas boas-vindas, despedidas, e aprendizados, Astrid deseja seguir com seus novos projetos, incluindo uma proposta de programa autoral feita pelo GNT. Mas também, diz, quer se deixar ser levada um pouco pela vida.  

“Sou uma pessoa muito orgânica, porque a vida me traz coisas muito legais. Espero, sinceramente, que o ‘Chegadas e Partidas’ tenha uma ótima performance nesses cinco episódios que vamos exibir este ano. Se a audiência continuar positiva no ‘Fantástico’, vou seguir. A Globo também me apresentou um projeto de um novo programa no GNT, que já até dei uns pitacos, mas só vamos pensar nisso no ano que vem. Em janeiro começamos a formatar”, conta. 

Na vida pessoal, a jornalista quer retomar um projeto antigo, que mantém firme sua dinâmica existencial de chegar e partir: viajar pelo mundo. “Quero que meu filho seja um cidadão do mundo. Vamos viajar. A última viagem internacional que fizemos foi para o Egito, em 2019, antes da pandemia, quando nosso mundo nos foi tirado. Mas agora está na hora de voltar”, diz, empolgada com o novo desembarque. 

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