Catar: um país de poucas mulheres em espaços públicos

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Opinião

Catar: um país de poucas mulheres em espaços públicos

Depois de tantos dias por aqui, os turistas estão mais relaxados e as roupas ocidentais deixaram de ser pontos de atenção. Contudo, o que não muda é o fato de vermos pouquíssimas mulheres e o lugar que elas ocupam


7 de dezembro de 2022 - 8h17

Já se foram 23 dias vivendo no Catar e realmente é um país muito diferente para nós brasileiros. Aqui escurece por volta das 17 horas e, com o fuso, fica fácil se perder no tempo e espaço, já que os últimos jogos tiveram início às 22 horas (16 horas no Brasil). E, apesar de tudo acontecer em um só país e ter metrô e ônibus que saem de vários pontos para os estádios, as distâncias percorridas são grandes, e, os deslocamentos, demorados.

Tentando voltar à vida normal de fazer atividades físicas pela manhã, fui correr na orla da Corniche. Um lugar lindo, com um visual deslumbrante e, ainda assim, em pouco mais de 2 horas de exercícios, não passei por nenhuma mulher em meu caminho. Entretanto, entre as polêmicas e as boas notícias deste Mundial no Catar, o espaço que vem sendo conquistado por algumas mulheres, em um contexto historicamente masculino, está em pauta. Um exemplo disso aconteceu no jogo de 1º de dezembro, entre Alemanha e Costa Rica, no qual dentro de campo, pela primeira vez em um jogo de torneios como esse, houve um trio feminino de arbitragem. Na escalação estavam a francesa Stéphanie Frappart, a mexicana Karen Diaz Medina e a brasileira Neuza Back, que levou o Brasil para mais um marco no esporte.

Pescador na Corniche, calçadão que se estende por 7 quilômetros pela baía de Doha, no Catar. Em pouco mais de 2 horas de exercícios, não passei por nenhuma mulher em meu caminho (Crédito: Arquivo pessoal)

Porém, quem está no Catar pode perceber que, dentro das arquibancadas, somos poucas. Em jogos do Irã, por exemplo, na fase de grupos, as mulheres iranianas, torcedoras que estão frequentando os estádios pela primeira vez, estavam sempre acompanhadas por homens e, quando tentávamos nos aproximar para conversar ou pegávamos o celular, percebíamos os homens se aproximando e pedindo para que não as fotografasse, não falássemos com elas, entre outros pedidos. Algumas reportagens foram feitas contando sobre esses episódios tristes, que nós mulheres brasileiras tentamos entender, porém, sem sucesso. 

Ontem fomos visitar uma mesquita, na qual os frequentadores realizam o Salat, que é a oração no Islã com partes do Alcorão. Lá, percebi que as mulheres têm uma entrada bem pequena (por trás de um biombo), e os homens têm outra bem maior. As moças estranharam o fato de estarmos desacompanhadas (eu fui com outras três colegas de trabalho), porque normalmente as mulheres vão com seus maridos e, depois de entrar por espaços diferentes, se encontram no interior do local.

Mesquita Azul, ou Mesquita Katara, localizada na Aldeia Cultural Katara, na parte ocidental do Catar (Crédito: Arquivo pessoal)

Nessa mesquita, conversamos com um guia, que nos explicou sobre a limpeza das mãos e dos pés, além da retirada dos sapatos. Ele nos ajudou a entender que tirar os calçados é um hábito que todos devem cumprir para que o local esteja sempre limpo, já que os homens precisam encostar a testa no chão e, tanto eles quanto as mulheres fazem as orações também no chão – porém, elas devem ficar sempre ao fundo do espaço, bem atrás dos homens para que não precisem agachar na frente deles. 

Entrada dos homens na Mesquita Azul. Percebi que as mulheres têm uma entrada bem pequena (por trás de um biombo), enquanto eles têm outra bem maior (Crédito: Arquivo pessoal)

Ele também nos explicou sobre as quantidades de orações, que são um total de seis durante o dia. Começam antes do sol nascer e vão até depois do pôr do sol. Claro que os horários variam de acordo com as épocas do ano e as orações sempre devem ser feitas olhando para Meca. Nas mesquitas, há uma faixa no chão para que todos fiquem lado a lado ao fazer a oração, como um sinal de igualdade. Ninguém tem privilégios. Ali, são todos iguais.

Muçulmano reza na Mesquita Azul: nas mesquitas, há uma faixa no chão para que todos fiquem lado a lado ao fazer a oração, como um sinal de igualdade (Crédito: Arquivo pessoal)

Perguntamos ao guia o que a pessoa deve fazer se estiver em um local e não souber exatamente a direção para Meca. Ele disse que, neste caso, ela está liberada para orar em qualquer direção. O que eu, particularmente, achei interessante, é a paciência e a vontade que eles têm de falar sobre a religião e de receber as pessoas com café e doces, sempre com muita educação e devoção. Depois disso, fomos passear por um lugar chamado Katara, onde tem praia, um museu e muitos restaurantes. Uma área bem turística, muito bonita e grandiosa. Passeando por lá, vi pessoas de vários lugares do mundo, que observavam as feirinhas à beira mar e os barcos de madeira feitos ali mesmo. Alguns arriscaram mergulhos no mar. 

Em seguida fomos caminhando em direção a um complexo de lojas, que tem uma galeria francesa famosa. Lá dentro existem restaurantes mundialmente conhecidos, além de lojas e cafés. Nesse ponto, havia muitos moradores locais. Alguns com familiares, outros mais jovens em encontros com amigos sentados em restaurantes e, de novo, apesar de ser um lugar com muitas lojas femininas, poucas mulheres. Até presenciamos algumas delas com amigas, mas é raro. 

Depois de tantos dias por aqui, percebo que os turistas estão mais relaxados, já realizam mais festas (sempre em hotéis e lugares específicos). As roupas ocidentais, na maioria das vezes, deixaram de ser pontos de atenção. Contudo, o que não muda é o fato de vermos pouquíssimas mulheres e o lugar que elas ocupam nesse regime. Nós, que moramos em um país mais livre, em que tentamos usar a roupa que queremos e nos sentimos bem, aqui, a todo momento ficamos vigilantes quando estamos fora de nossa hospedagem. Nos resta saber e acompanhar os desdobramentos e as conquistas das mulheres daqui após o final deste grande campeonato que vem jogando luz aos costumes do país.

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