Fátima Bernardes, uma mulher como a gente 

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Fátima Bernardes, uma mulher como a gente 

À frente do "Assim como a gente", seu novo programa no GNT, a apresentadora reflete sobre sua relação com a TV, o público e o sucesso 


9 de novembro de 2023 - 13h46

Fátima Bernardes no estúdio do “Assim como a gente”, seu novo programa de entrevistas no GNT (Crédito: Bella Pinheiro/Divulgação)

Fátima Bernardes e Ivete Sangalo. Duas personalidades que o público talvez não imagine terem uma conexão tão forte. Trocas sinceras e reveladoras entre elas. Experiências marcantes, que vão além do trabalho, mas passam por ele. Erros, acertos e recomeços compartilhados. Histórias em comum. A conversa com a cantora baiana fechará a primeira temporada de “Assim Como a Gente”, programa de estreia de Fátima no GNT, jornalista e apresentadora que ajudou a redefinir o papel das mulheres na televisão nas últimas décadas. 

“A Ivete tem um relacionamento com uma pessoa mais jovem, assim como eu. Ela tem três filhos, sendo duas gêmeas. Eu tenho filhos gemelares. Minha carreira de apresentadora surge como uma segunda opção. A dela, como cantora, também. Foi muito legal esse exercício, nós duas nos emocionamos. Acho que vai ser um fechamento bonito do programa”, promete Fátima. 

Gravado, o programa é o segundo de Fátima nesse formato — o primeiro foi “The Voice”, cuja última temporada estreia no final de novembro. Especialista na dinâmica desafiadora de apresentar ao vivo, ela diz que essas novas experiências trazem aprendizados e dão “sapos no estômago”, algo que ela gosta de sentir. Desde a primeira mudança radical de carreira, ao trocar o balé pelo jornalismo, passando pelo encanto com a função de repórter na TV e, mais tarde, ao desbravar o mundo do entretenimento após anos de sucesso na bancada do “Jornal Nacional”. 

“Lembro da sensação da primeira matéria que fiz no curso da Globo, por onde entrei na emissora. Cheguei da reportagem e a matéria já podia entrar no jornal. Foi incrível. Esse imediatismo me fascinou. Ali eu percebi que gostava dessa adrenalina.” 

Em todas as transformações de seus 36 anos de carreira, planejadas ou não, Fátima impactou milhões de brasileiros e brasileiras. Seja por sede de informação, amor pelo esporte, curiosidade, admiração por sua carreira e vida pessoal, ou apenas para se divertir em um dia qualquer na frente da TV.  

Movida pela mudança 

Fátima começou a fazer balé aos 7 anos de idade e passou a encarar a atividade como profissão, mas migrou para o jornalismo cedo, ainda na faculdade. Ali, uma coisa já parecia certa para ela: ficar sem projetos não é uma opção. Por isso, sua carreira é marcada por mudanças, geralmente planejadas e desejadas. 

“Sair da dança foi algo muito objetivo. Fiz um corte radical para me dedicar integralmente ao jornalismo. Depois, isso continuou dentro de mim.” 

Outro corte radical foi a mudança do “Jornal Nacional” para o “Encontro”. O programa, que ficou no ar por 10 anos na Globo, consolidou sua transição do jornalismo para o entretenimento, mostrando uma versão mais leve, extrovertida e bem-humorada da apresentadora para o público.  

“Não percebi na época, mas, agora, penso que cheguei cedo demais no ‘Jornal Nacional’. Estava na TV desde 1987, mas eu tinha 35 anos e já estava no lugar mais cobiçado. Ao completar 10 anos ali, comecei a querer fazer outras coisas”, diz Fátima. “No dia a dia, eu entrevistava vítimas de muitas tragédias. Acho que esgotei o meu lado emocional com todas as mães que perderam filhos, com todos os filhos que perderam mães, com todas as mulheres que perderam maridos e maridos que as perderam. Teve uma hora em que falei ‘meu deus, não quero mais isso para toda a minha vida’.” 

Mesmo com o sucesso do “Encontro”, a apresentadora, inquieta, logo começou a pensar no que viria depois. Não queria fazer o programa para sempre. “Cada vez que entramos num projeto novo, a chance de oferecer ao público nosso melhor é muito grande. Para mim, é fundamental pensar sempre em outras coisas, para me sentir motivada. Gosto da sensação de risco, do difícil, do ‘será que vai dar certo?’.” 

Mas a sede por transformações não significou transições sempre fáceis. Sair do “Jornal Nacional” para o “Encontro”, diz, foi sua mudança mais profunda, pois já estava acostumada a uma rotina de 25 anos no mesmo ambiente de trabalho. “Não contabilizei todo esse impacto. Só percebi que a mudança de trabalho levaria a uma transformação ainda maior, no meu dia a dia, quando já estava lá. Ali eu tive um choque de realidade.” 

Talento, sucesso e privilégio 

Ao refletir sobre a unanimidade que é no Brasil, entre os colegas dos bastidores da Globo e diferentes públicos, Fátima acredita que é fundamental não se deixar deslumbrar pelo reconhecimento e pelo aplauso, e ter a percepção de que a TV é colaborativa e não se faz sozinha.  

“Sempre me coloquei como mais uma da equipe. Não acreditar no próprio sucesso é importante, porque tudo é muito volúvel e rápido. Nada está completamente estável, então sei o tempo todo da importância das pessoas que trabalham comigo. A TV é um veículo coletivo, e me vejo como uma peça dessa engrenagem.” 

Para ilustrar sua postura, Fátima lembra do evento ECO-92, como ficou conhecida a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, evento realizado no Rio de Janeiro há 31 anos que reuniu chefes de Estados e representantes de 179 países, além de organismos internacionais e ONGs. Um marco, também, na carreira da jornalista, que estava há 5 anos na Globo e percebeu o aumento do reconhecimento do público, ao mesmo tempo em que resistiu ao deslumbramento. 

“Quando acabava meu flash ao vivo, as pessoas faziam fila para pegar meus autógrafos. Meu colega do lado, da TV Manchete, deu apenas um, ou dois. Ali, tive uma clareza: se trocássemos de lugar, ele daria mais autógrafos que eu. Isso foi importante para eu saber que tenho um valor único, que levarei para qualquer lugar, mas que é amplificado pelo veículo onde trabalho. Se eu tivesse o mesmo talento em outro lugar, minha visibilidade e o interesse que eu despertaria seriam muito menores.” 

Copa do Mundo: muito mais que uma “pé quente” 

Quando ouve que foi uma das primeiras mulheres a cobrir uma Copa do Mundo, em 1994, Fátima nega, ao reconhecer o talento das que vieram antes e fazem, inclusive, parte de sua vida. Ela logo menciona Isabela Scalabrini, sua comadre na vida pessoal, que cobriu o Mundial de 1986 na Globo.

“A Isabela entrevistou o Maradona e conseguiu muitos furos. Ela conta que se sentia um ET, porque eram só homens e ela tinha dificuldade nos vestiários, além de receber olhares desrespeitosos por acharem que ela não entendia nada. Eu cheguei para a cobertura depois, e junto comigo já estavam outras mulheres repórteres.” 

Apesar da humildade, o fato é que Fátima foi uma das primeiras mulheres a ir além de pautas de comportamento em uma Copa, com foco no público feminino, para cobrir os passos da seleção brasileira como uma autêntica jornalista esportiva. Ela fez, ainda, entrevistas com Galvão Bueno e participou das mesas redondas com o narrador depois dos jogos.  

A virada de chave, segundo ela, começou com a mística de que Fátima era “pé quente”. Em 1992, ela havia ido para as Olimpíadas, onde estava nos eventos em que o Brasil ganhou suas únicas 3 medalhas (uma de prata, na natação, e duas de ouro, no judô e no vôlei masculino). A fama foi o motivo para sua convocação para a Copa de 1994, nos Estados Unidos. 

Ela ficou inicialmente em Dallas, onde era o centro de imprensa, e não cobriu a seleção. Quando a equipe brasileira desembarcou na cidade para o jogo com a Holanda, ela lembra que fez matérias esportivas e sentiu uma mudança no olhar da equipe. Logo, foi chamada pelo diretor para seguir com o time nas cidades dos outros jogos. “Encontrei a seleção para a semifinal, depois, fiz a final, e o Brasil foi campeão.” 

A superstição parece fazer sentido. Em 1998, Fátima não foi para o Mundial, pois seus filhos ainda eram bebês e ela havia acabado de chegar ao “Jornal Nacional”. Ela retornou à cobertura esportiva em 2002, quando o Brasil foi novamente campeão. 

Maternidade, maturidade e carreira 

Fátima sempre quis ser mãe. Fez um tratamento para engravidar porque ela e o jornalista William Bonner, com quem foi casada, queriam muito ter filhos. Em 1997, teve trigêmeos. Os bebês ficaram na UTI por alguns dias, acontecimento que causou grande impacto na vida da jornalista. 

“Tive certeza de que nunca mais seria feliz dependendo apenas do que estava acontecendo comigo. Você passa a ter um compromisso, e eu sentia uma grande responsabilidade de criar três pessoas bacanas, que fossem pelo caminho certo. Tive muitas dúvidas, mas acho que funcionou. Você fica com ansiedade, na expectativa, porque está o tempo todo vivendo a sua vida e também em função da deles.” 

Depois, vieram as mudanças na carreira, a separação e o amadurecimento constante, que não é uma questão para ela. “Nunca pensei que algum projeto pode não me servir por ser uma mulher madura. Sempre disse minha idade, porque nunca achei que ela me define, como acho que não define ninguém. Felizmente, estamos num país que está envelhecendo, e vai precisar se ver na televisão.” 

Ser uma mulher madura, diz Fátima, é valioso para a profissão, mas, ainda assim, ela garante não deixar de estudar. “É bom você começar a ver o quanto acumulou de repertório ao longo da vida, como você tem de onde buscar saídas e soluções. Mas continuo me aplicando, estudando pra fazer as entrevistas. É como se nada fosse diferente do que era há 15 anos. 

Ao pensar na relação que tem com o público, ela afirma ser uma troca constante. “Estou sempre com o olhar muito voltado pra realmente impactar quem está em casa. Então, que a gente continue nessa troca, que me faz muito feliz. Espero que o público continue me acompanhando.” 

Gente como a gente 

Apesar da fama e da carreira inspiradora, Fátima diz que tenta levar sua vida da maneira mais normal possível. Gosta de sair, se divertir, estar com seus filhos e viajar, apesar do medo de avião. “Não sou celebridade. Tenho prazer nas coisas simples, e estou sempre pensando em algo novo, querendo dar um passo a mais, olhar e dizer: ‘nossa, avancei mais um degrauzinho’.” 

Talvez aí esteja a charada da unanimidade de Fátima: assim como com Ivete Sangalo, ela tem muito em comum com os brasileiros. Como o nome do seu novo programa diz, ela é “assim como a gente”. 

 

“Assim Como a Gente” tem direção artística de Fellipe Ayala, sob o comando de Raoni Carneiro e com o auxílio de Luciana Biazzi. A produção é de Taluana Grieco e Leilanie Silva, e o roteiro, de Fabrício Marta. O programa, idealizado por Carlos Jardim, diretor e roteirista final, vai ao ar no GNT e no Globoplay, às sextas-feiras, às 21h30.

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