Carreira

O que continua nos emocionando?

Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, a diferença passa a estar na qualidade das ideias.

Ana Luísa Périssé

Managing Director da DRUM no Brasil 19 de junho de 2026 - 16h25

Para mim, a grande pergunta de 2026 em Cannes é: quando os dados e a tecnologia de execução são democratizados, como os cases serão julgados?

Pela primeira vez, chegamos ao festival em um contexto em que a inteligência artificial deixou de ser um debate teórico. Ela já é uma ferramenta concreta, acessível e amplamente difundida. Hoje, todos conseguem processar dados em velocidade exponencial, e todos têm à disposição uma capacidade de produção impecável.

Estamos vivendo um momento em que os modelos tradicionais de agência, a forma como organizamos talentos e a maneira como entregamos o trabalho estão sendo profundamente revisitados. Não é coincidência que isso aconteça justamente quando a tecnologia nivela capacidades que antes eram diferenciais competitivos. E isso, ironicamente, torna o festival mais honesto do que nunca.

Esse cenário é perfeito para o surgimento de novos players desafiadores, que já podem estrear com um ótimo desempenho na premiação. Significa também que os trabalhos que subirão ao palco não terão vencido apenas pela qualidade da execução técnica, mas por algo muito mais raro: sua capacidade de nos emocionar.

O que diferencia um trabalho bom de um extraordinário em 2026 é a qualidade do input humano dado à máquina. É a capacidade de um estrategista ou de um criativo de identificar um comportamento que ainda não virou algoritmo. De perceber uma nuance cultural que passou despercebida pela maioria. De formular perguntas que a inteligência artificial dificilmente faria.

Usar a IA de forma transformadora não significa apenas acelerar processos. Significa partir de uma grande ideia e de uma visão estratégica clara. Significa compreender o contexto cultural, o comportamento humano e as nuances de mercado. E, mais do que isso, significa ativar o outcome de forma inteligente, sempre a serviço do objetivo de negócio da campanha.

Meu palpite é que veremos uma mudança importante nos júris: menos valorização da estética pura e mais reconhecimento ao pensamento verdadeiramente original. Os grandes vencedores talvez não sejam os de maior rigor técnico e visual, mas, sim, aqueles sustentados por uma verdade poderosa, por uma leitura mais profunda do consumidor e por uma interpretação mais sofisticada da cultura.

Foi exatamente dessa forma que nasceram os cases que estamos levando para o festival este ano. E é por isso que estamos confiantes com a maneira como eles serão avaliados.