Fuga (ou reconhecimento?) de talentos

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Fuga (ou reconhecimento?) de talentos

Em vez de ficarem se queixando da migração de talentos para o exterior, os grandes publicitários brasileiros deveriam, eles mesmos, se candidatar à experiência de trabalhar nas matrizes de seus grupos multinacionais


20 de julho de 2017 - 9h00

Outro dia li no Advertising Age um artigo sobre a fuga de talentos do Brasil para os Estados Unidos. O título da matéria vinha em forma de pergunta: “Será o Brasil uma nova Suécia para os profissionais de recrutamento e seleção das agências norte-americanas?”. A referência à Suécia, para quem está familiarizado com o mercado americano, não foi gratuita. Nas últimas décadas, milhares de publicitários suecos, todos com visão de mundo bastante cosmopolita e mais do que acostumados a trabalhar para grandes marcas globais, migraram em massa para os EUA.

A façanha dos dois Gran Prix conquistados numa mesma edição do festival de Cannes por uma agência de Miami — a David, recheada de grandes talentos brasileiros liderados pelo brilhante Anselmo Ramos — parece ter arrancado definitivamente a interrogação do título da matéria. Mas, antes da consagração da David, o trabalho desenvolvido pelo não menos brilhante PJ Pereira e sua Pereira & O’Dell — que tem nada menos do que um par de Emmys e o prêmio Ad Age A-list Standouts Agency of the Year na prateleira de seu escritório em São Francisco — já havia provado que, do Pacífico ao Atlântico, o mercado dos EUA está mesmo apaixonado pelos talentos brasileiros.

Muito já se escreveu sobre a “fuga de talentos” do Brasil para mercados maiores ou mais avançados. Entretanto, antes de escrever sequer mais uma linha sobre o assunto, queria condenar a expressão. Por que fuga de talentos? Do que estavam fugindo Anselmo Ramos e PJ Pereira quando deixaram o Brasil? Do enorme sucesso que fizeram?

É claro que não. Ninguém foge do sucesso — gente talentosa está sempre em busca de mais sucesso. Esses profissionais deixaram o País em busca de conquistas em mercados mais expressivos. Ou alguém acha que, quando Fernando Meirelles e José Padilha foram dirigir filmes para grandes estúdios de Hollywood, o motivo foi a falta de mercado no seu país? Ora, esses diretores poderiam escolher qualquer projeto para realizar no Brasil, mas aceitaram desafios de projetos internacionais porque foram convidados por líderes de mercado que queriam contar com seu talento. De forma que não existe fuga de talentos. O que existe é reconhecimento de talentos.

A mesma visão estreita acomete outra expressão, que é uma espécie de prima da anterior: “fuga de cérebros”. Desde quando um cérebro que vai se desenvolver em outro país deixa de ser brasileiro? Já acho relativamente brega esse papo de apego à nacionalidade, de forma que o próprio conceito de cérebros brasileiros me cheira mal. O nacionalismo, nos Estados Unidos e no Brasil, é o veneno por trás de muitos dos males da humanidade. Se as pessoas se sentissem mais à vontade como cidadãos do mundo, certamente haveria menos ódio e debates inúteis.

Mas, ainda se admitíssemos que cérebros são coisas que vêm com certificado de nacionalidade, com uma espécie de selinho da Zona Franca de Manaus, quem disse que uns passeios por outros lugares e culturas farão mal ao raciocínio? Brasileiros que vivem e trabalham no exterior — posso garantir — jamais deixam de pensar em seu país. A melhor coisa que pode acontecer para o Brasil é termos mais gente aprendendo coisas que não são vivenciadas em nossa amada terra. Querem um exemplo simples e contundente? Sistemas políticos. Não há nada mais falido no mundo do que o jeito brasileiro de se fazer política. Historicamente, nada fracassou mais pateticamente do que a política e os políticos do nosso País, o que me faz acreditar que se uns cérebros brasileiros fossem aprender um pouco sobre o assunto em nações com melhores modelos, isso só nos faria bem. Por questão de espaço, juro que nem vou falar do sistema judiciário.

Talento que parte é talento que se desenvolve, que sai da zona de conforto. Cérebro que vai é ideia que um dia vem. Lembro com saudade dos tempos em que comandava a área de RH e marketing do Unibanco. Todos os anos, o acionista e presidente do banco, Pedro Moreira Salles, viajava para entrevistar MBAs brasileiros em Nova York. Para ele, esse assunto era absolutamente indelegável e tinha total prioridade na agenda. Estava em jogo o futuro do banco, a escolha daqueles que moldariam a empresa para as próximas gerações — e nenhum assunto deveria interessar mais a um acionista ou a um presidente do que esse.

Se os grandes líderes publicitários do País passassem uns anos aprendendo e ensinando no exterior, seus grupos multinacionais lucrariam muito. Mas nada comparado com o que o Brasil teria a ganhar com executivos mais globalizados e dispostos a sair da provinciana zona de conforto

Eu ia junto nessas viagens e tinha a missão de fazer uma entrevista preliminar com todos os candidatos, apenas para eliminar aqueles que não tinham o que chamávamos de “jeito Unibanco”: um conjunto de atitudes que considerávamos essencial para fazer da empresa um lugar espetacular para se trabalhar. “Eu passo grande parte do meu dia trabalhando no banco”, dizia Pedro, “se não for num lugar bacana, prefiro sair do negócio”. Nos dias seguintes a essa primeira entrevista, Pedro e eu conversávamos com os candidatos e, em seguida, nos reuníamos para selecionar os melhores entre os melhores e fazer a eles uma excelente proposta de emprego.

Pedro adorava cérebros que haviam “fugido” do Brasil porque acreditava que nada seria capaz de  testá-los de forma tão categórica quanto um mercado mais desenvolvido, mais competitivo e sem nenhum tipo de favorecimento em função de um sobrenome ou posição social. E ele estava certíssimo. Tanto que muitos dos talentos que repatriamos naquela época ocupam hoje posições de liderança no Itaú Unibanco.

A verdade é que as melhores empresas brasileiras não são as que reclamam da tal fuga de talentos, mas as que promovem uma boa e saudável exportação de talentos. O grupo AB Inbev, por exemplo, não está nem um pouco preocupado com essa conversa fiada de fuga de talentos. A Ambev, braço brasileiro do gigante internacional, exportou nada menos do que seu CEO, Carlos Brito, para a matriz nos EUA. Brito é o CEO global do grupo — e duvido que alguém acredite que seu cérebro se perdeu pelo caminho. A “fuga” desse grande executivo tornou o Brasil mais forte, não mais fraco. E ele é apenas um dos milhares de executivos transferidos internacionalmente pela companhia.

É por isso que em vez de ficarem se queixando da migração de talentos para o exterior, os grandes publicitários brasileiros (especialmente os sócios das agências locais) deveriam, eles mesmos, se candidatar à experiência de trabalhar nas matrizes de seus grupos multinacionais. Como quase todas as agências do Brasil são Publicis, WPP,  Omnicom, Interpublic ou Dentsu, enxergo uma enorme oportunidade: se esses líderes publicitários passassem uns anos aprendendo e ensinando no exterior, seus grupos multinacionais lucrariam muito, sem dúvida. Mas nada comparado com o que o Brasil teria a ganhar com executivos mais globalizados e dispostos a sair da provinciana zona de conforto.

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