O papel das empresas (e das marcas) na era da pós-verdade

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O papel das empresas (e das marcas) na era da pós-verdade

Enquanto a crise das referências agrava a situação, as narrativas oferecem um abrigo, aparentemente seguro, diante da avalanche de informação a que somos submetidos todos os dias


6 de agosto de 2019 - 15h02

(Crédito: MicroStockHub/iStock)

A essa altura é impossível negar que a era da informação se transformou na festa da desinformação. A liberdade de expressão e o amplo acesso aos meios para manifestá-la tornaram a esfera pública muito mais inclusiva e plural, o que continua sendo altamente desejável. Essa democratização da opinião, no entanto, acontece ao mesmo tempo em que suas referências estão em baixa e sob ataque. Por múltiplas razões, a maioria delas inconfessável, políticos, artistas, pseudointelectuais, celebridades, influenciadores e exércitos de robôs digitais ganham notoriedade ao questionar a política, a democracia, as universidades e a ciência, além da própria mídia profissional.

Mesmo com todas as suas imperfeições e contradições, foram justamente essas instituições que nos trouxeram até o estágio atual de civilização. Entre inúmeras outras coisas, foram elas que tornaram possível, vejam só, o surgimento da internet e das redes sociais que agora as ameaçam e desafiam. Mas fiquemos apenas no exemplo da mídia tradicional: para a direita, ela é comunista, para a esquerda, fascista (ou golpista), para ambos, mente e distorce. Aos olhos de seus detratores, de qualquer ideologia, a imprensa “fake news” atua com objetivos políticos escusos, sempre a favor do adversário de quem ataca. No meio disso tudo, as pessoas estão perdidas.

Ora, se a mídia profissional é fake, eu posso escolher no que acreditar. E atualmente há um cardápio de vieses mais extenso que o catálogo da Netflix. O nobre cidadão pode escolher a própria realidade, aquela que mais lhe convém, de acordo com suas crenças e valores. Para o ex-senador americano Daniel Patrick Moynihan (1927-2003), todo mundo tem direito à sua própria opinião, mas não aos seus próprios fatos. Os dias que correm estão tentando contradizê-lo. Entre o fato e a narrativa, as pessoas estão escolhendo a narrativa!

Por que isso ocorre? Por que alguns chegam a defender que a terra é plana e que vacinas são perigosas? Porque as narrativas oferecem um abrigo, aparentemente seguro, diante da avalanche de informação a que somos submetidos todos os dias. A crise das referências — principalmente universidade, ciência, democracia e imprensa — agrava a situação. Sem ter mais em quem confiar, o indivíduo corre, instintivamente, para onde se sente protegido, acolhido e cercado por outros que pensam da mesma forma. Narrativas bem construídas são capazes de capturar sentimentos e canalizar desejos, daí o seu poder de atração e retenção de seguidores.

E as empresas? Com raríssimas exceções, parecem fingir, ou até mesmo acreditar, que o problema não é delas. É um comportamento intrigante, para não dizer contraditório, por parte de quem vive de imagem e reputação e toma suas decisões com base em fatos e dados. Com seu enorme poder de amplificação e sua comprovada expertise nas ferramentas da comunicação, marcas e empresas deveriam fazer mais para iluminar o debate. Deixar que o ambiente tóxico da pós-verdade prospere é alimentar a fera que pode vir a devorá-las. Basta uma ação orquestrada de um desafeto nas redes sociais para gerar uma crise de imagem com impacto direto nos negócios. De acordo com a pesquisa “Fake News: Desafios das Organizações”, realizada pela Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje), 35% das empresas e 46% dos setores ouvidos já foram alvo de fake news. Houve impactos financeiros em 37% dos casos para as organizações e em 57% das ocorrências setoriais. Ou seja: já aconteceu e vai continuar acontecendo.

Sem a mídia profissional, onde as corporações irão se defender? No Instagram? Vão contratar um exército de robôs virtuais para espalhar hashtags favoráveis? E, por que continuar pagando milhões por um intervalo comercial numa emissora de TV que “só veicula fake news”? Precisamos urgentemente de um neo-iluminismo e são as empresas que devem patrociná-lo. Muito se falam de causas e propósitos, mas que bandeira pode ser mais importante que a valorização dos fatos e das evidências em contraposição às mistificações ideológicas e distorções politicamente motivadas?

Os profissionais da comunicação têm o dever de enfrentar essa situação. Já há diversas iniciativas de checagem de dados às quais devem se unir agências e anunciantes. Mas é preciso ir além e resgatar o valor da informação apurada, checada e confirmada. É preciso um compromisso multidisciplinar em favor dos fatos e dados e contra a desinformação e desqualificação da esfera pública. Mais do que preparar as organizações para enfrentar o cenário, é preciso formar uma coalizão mais ampla, que reúna profissionais, empresas, entidades de classe, veículos de comunicação, agências, e seja capaz de combater as fake news e alertar a sociedade para as ameaças que a pós-verdade impõe não só aos negócios, mas à própria democracia.

*Crédito da foto no topo: RawPixel/Pexels

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