Cleromancia, por favor

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Cleromancia, por favor

Durante muito tempo, a tecnologia nos trouxe muita coisa sem pedir nada em troca; ninguém ficava pensando como é que micro-ondas funcionava, como é que o telefone falava ou como a TV transmitia


6 de janeiro de 2020 - 10h49

(Crédito: Tiero/ iStock)

Quando ligavam para o telefone da gente, a regra era clara: tinha que perguntar com quem queria falar e não dizer nosso nome nem endereço. Era assim. Agora, quando ligam, te dizem quem você é, onde você mora e o seu CPF. Para completar, a pessoa que liga é de uma operadora diferente da sua, de uma loja em que você não faz compras ou está vendendo um apartamento que você não quer comprar.

E a gente vai se acostumando a ter nossos dados na boca dos sapos. Por quê? Porque a gente já acha ruim quando o Waze não diz para onde a gente vai pela manhã. Acha péssimo quando tem que preencher os dados novamente num site que não te reconhece. Cancela o Uber se ele demora mais que dez minutos. E não finaliza a compra que demora mais de três dias para entregar.

É difícil não se acostumar e ficar indiferente à rapidez e à conveniência que a tecnologia traz. Então, a gente faz vista grossa e não pensa muito no que está por trás dela. Também, durante muito tempo, a tecnologia nos trouxe muita coisa sem pedir nada em troca. A gente andava de avião e não ficava pensando como é que ele voava. Ninguém ficava pensando como é que micro-ondas funcionava, como é que o telefone falava ou como a TV transmitia.

Outro dia, numa palestra sobre tecnologia, me lembraram do Disque-amizade. Eram as primeiras salas de chat via telefone. Ali, ninguém sabia o nome real de ninguém e nada ficava registrado. Era numa época em que ainda não se falava que todos teriam seus 15 minutos de fama. Muito menos em horas de fama, com todos virando influenciadores.

Aí veio a internet, uma ideia genial que ninguém queria entender, mas todo mundo queria usar. Logo cresceu, vieram as mídias sociais, saiu de casa e foi para o celular. E, assim, a conveniência, velocidade e experiência viraram, meio de soslaio, moeda.

Quanto mais você falar sobre você, mais desejos atendidos você terá. E mais rapidamente. Filmes que você gosta, as roupas que quer, restaurantes, viagens, namorados. Com o tempo, mesmo quem entendia o escambo, passou a aceitar de bom grado, enfeitiçado pelo novo modo de vida. Ninguém queria voltar a perder horas nas filas de banco ou ficar perdido nas ruas das cidades sem GPS. Todo mundo esqueceu rápido como era ter que fazer pesquisas de preço de loja em loja ou ter que assistir aos programas de TV com hora marcada.

Tudo e todos passaram a concorrer pelo nosso tempo e atenção. E ninguém mais quis só ouvir depois que descobriram canais em que podiam falar, responder, trocar, reclamar. Nunca tivemos tanta informação sobre tudo e nunca tiveram tanta informação sobre nós.

Mas que informação mesmo? Essa é a questão que cada vez mais gente faz. Não por acaso, como os dados armazenados pelas empresas são protegidos é o assunto do momento nas empresas. E o esforço se justifica.

A partir de 16 de agosto de 2020, passa a valer a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Quem não garantir a segurança dos dados dos clientes vai pagar multas que podem chegar a R$ 50 milhões. Os desafios são gigantes e, por isso, além do departamento jurídico, companhias têm criado núcleos interdisciplinares para quebrar a cabeça em vez de quebrar a empresa. E, mesmo as companhias que já nasceram na era da cibersegurança ou as que já estavam se adequando à GDPR (lei europeia), sabem que atender a nova legislação será um desafio. Para se ter uma pequena ideia da encrenca, disponibilizar os dados pedidos pelo consumidor é considerada tarefa fácil. Difícil é garantir que quem pediu os dados sobre você foi você mesmo.

2020 promete.

*Crédito da foto no topo: Reprodução 

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