Tem razão quem não investe?

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Tem razão quem não investe?

Nunca competiremos em igualdade com a Europa, mas podemos ser muito melhores do que somos


15 de junho de 2020 - 10h05

Jogo do Campeonato Brasileiro, de 2018 (Crédito: Reprodução)

A principal diferença entre uma partida da English Premier League, da alemã Bundesliga ou da espanhola La Liga com o Campeonato Brasileiro da Série A não é o futebol, mas sim as empresas envolvidas com ele.

Se dentro dos gramados não deixamos nada a dever aos melhores do mundo, a mesma coisa não podemos dizer quando o assunto é a atração de investimentos internacionais.

O nosso campeonato é povoado quase que exclusivamente por marcas nacionais que investem o que podem e quando podem. A ausência dos investidores globais no futebol brasileiro causa estranhamento e inconformismo na maioria dos torcedores.

Como pode um mercado consumidor tão grande como o Brasil e que tem uma paixão quase universal pelo futebol não ser capaz de atrair o patrocínio de empresas estrangeiras em clubes, ligas ou na transmissão das partidas?

A razões são muitas e nem sempre têm a ver com o futebol. Para começar, o futebol brasileiro ainda é um negócio de alto risco.

A evolução e profissionalização da administração da CBF não foi acompanhada pela maioria dos clubes brasileiros. Com raras exceções, eles ainda têm padrões de governança incompatíveis com os dos patrocinadores. As constantes crises que abalam a reputação dos clubes, afetam também a de todas as marcas a eles associadas. Um verdadeiro pesadelo para qualquer investidor.

Na dúvida, muitos preferem manter distância. Além disso, o Campeonato Brasileiro é invisível fora do Brasil. Diferentemente das ligas europeias, o Campeonato Brasileiro não é um produto internacional. O fato de só nós, brasileiros, assistirmos o nosso futebol desmotiva marcas que precisam da exposição internacional.

Quando uma empresa patrocina equipes das ligas da Europa, ela sabe que sua marca terá uma exposição global. O retorno sobre esse investimento é mais seguro graças ao alcance das transmissões. Como no Brasil isso não acontece, a conta não fecha e os investimentos não aparecem.

Outro fator importante é o baixo retorno sobre o investimento no futebol.

O valor absoluto de um patrocínio no Brasil não é alto, mas quando ponderamos o valor entregue, eles acabam não sendo tão atrativos. Patrocinadores querem criar experiências de marketing, ter conteúdo exclusivo e acesso privilegiado, mas nossos clubes insistem em oferecer somente a exposição das marcas em placas de campo e uniformes.

O futebol brasileiro ainda tem a desvantagem de não poder contar plenamente com setores da economia que investem muito em outros países, mas que aqui ainda não existem formalmente, como a indústria de apostas.

Enquanto ela é responsável pelo patrocínio máster da metade das equipes na English Premier League, por aqui seus investimentos ainda são tímidos quando comparados ao seu potencial.

A culpa é da falta de legislação que regulamente o setor, mas quem sofre é o futebol. Finalmente, o Brasil perde investimentos por não ter um papel relevante no cenário político global.

Um dos fatores menos discutidos nos patrocínios esportivos é a “soft power”. Essa expressão se refere aos investimentos feitos no esporte com o objetivo de aumentar a influência política de um país sobre outro.

A China tem participação em dezenas de clubes em diversos países da Europa. A russa Gazprom patrocina a Liga dos Campeões da Europa e alguns importantes clubes. Fundos de investimento do Catar e dos Emirados Árabes Unidos são os proprietários do Paris Saint-Germain e do Manchester City, só para citar alguns exemplos.

Nem todos esses investimentos são motivados pelo esporte. Eles acontecem porque a Europa tem uma importância política que o Brasil nunca terá. Por isso, estes renminbis chineses, rublos russos, rials do Catar e os dirhams dos Emirados Árabes Unidos estão disponíveis nas ligas europeias, mas não na brasileira.

Tornar o futebol brasileiro mais atrativo não é impossível. Alguns dos problemas, como uma melhor administração dos clubes, melhor distribuição das partidas nas televisões internacionais e melhor marketing podem ser resolvidos. Nunca competiremos em igualdade com a Europa, mas podemos ser muito melhores do que somos hoje. Só depende de nós.

*Crédito da foto no topo: Ale Frata/ Código 19/ Folhapress

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