Carne dura

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Carne dura

Pretos representam somente 0,74% dos cargos de direção nas agências de propaganda


6 de julho de 2020 - 10h46

(Crédito: Hyejin Kang/ iStock)

Hoje, quem escreve aqui não é o Igor Puga. Após um texto publicado por ele, onde abordou o racismo por uma ótica pessoal, conversamos sobre várias coisas, entre elas a importância de pessoas pretas terem palco para falar sobre os problemas da sua vivência. Acabou que esse diálogo serviu de ponte para a proposta generosa de que eu assumisse esta coluna. Com o convite aceito, busco construir outras pontes.

Meu nome é Heitor Caetano, sou redator em uma empresa criativa de São Paulo e, para além da minha profissão, também sou uma pessoa negra e LGBTQIA+.

Venho de uma família sitiante. Cresci no interior com minha mãe falando sobre como foi difícil para ela acessar a educação. Também lembro do meu pai acordando na madrugada e o seu retorno ao pôr do sol. Ela, mulher branca, terminou os estudos e trabalhava em casa como costureira. Ele, homem preto, foi mecânico e, após insistência da minha mãe, completou sua educação no supletivo aos quase 40 anos, pouco antes de passar em um concurso público.

Para os meus pais, educação e trabalho sempre fizeram parte de uma equação ideal para o sucesso. Esse pensamento não é exclusivo da minha família e sei que muitos de vocês, pessoas brancas, talvez tenham escutado o mesmo. Apesar disso, minha casa foi exemplo de como alguns acessos são negados a pessoas negras. A história de nenhum dos dois é de privilégios, mas foi através do meu pai que eu enxerguei o quanto as oportunidades de conhecimento são transformadoras.

Ingressei na faculdade por meio de uma bolsa e garanti uma vaga de estágio antes do ano letivo começar. Apesar desses espaços parecerem de conquista plena, foi onde esbarrei com uma questão importante: mesmo sendo uma pessoa negra de pele clara, eu era uma das únicas, tanto na sala de aula quanto nas empresas em que trabalhei. Foi aí que entendi, na pele, como as ferramentas do racismo se manifestam no nosso mercado.

Dados do Censo da Educação Superior informam que as áreas de comunicação (4%) e propaganda e marketing (12%) sãos as que têm menos pretos nos melhores cursos. Além disso, a ausência de negros também se manifesta dentro das empresas. Pesquisas do instituto Etnus mostram que pretos representam somente 0,74% dos cargos de direção nas agências de propaganda, sendo que, a cada mil funcionários, apenas 35 são negros.

Na minha transição do interior para a capital, sentia que, em vez de disputar vagas, eu disputava territórios. Principalmente quando olhava para as pessoas que são consideradas referência no mercado, estampando as capas de revista, e me deparava com uma imagem esmagadoramente branca. O que, naturalmente, já me fez pensar: será que esse lugar é para mim?

Escrever este texto é mais uma forma de ocupação. Por várias vezes, foi ao ler colunas como esta que construí minhas ambições. Mas ascender tendo que ser seu próprio herói é muito solitário. Assim, vejo nesse diálogo a chance de mostrar para pessoas como eu que este, e qualquer outro lugar no mercado, também nos pertence.

Para isso, é necessário que as lideranças brancas assumam responsabilidade sobre o que foi negado ao povo preto desde a falsa abolição da escravatura. Afirmo que não existe nada mais transformador para pessoas como eu do que uma oportunidade. Temos um fogo no olhar que só adquire quem teve que se provar durante toda a vida. E isso não se ensina em nenhuma faculdade de grife ou escola de criativos famosa.

Meu apelo é que vocês contratem, ensinem e promovam pessoas pretas, principalmente mulheres pretas.

Os caracteres permitidos por essa coluna jamais serão suficientes para que a gente discuta todas as problemáticas do nosso mercado. Quer continuar o debate? A partir de 6 de julho, também assumo o perfil do Igor Puga no LinkedIn, com vários conteúdos colaborativos para que possamos articular mudanças significativas. Nos vemos lá.

*Crédito da foto no topo: Tookapic/Pexels

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