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Meu corpo, minha rede

Nem conseguimos decifrar tudo o que cabe na Internet das Coisas (IoT) e já estamos ouvindo – e aprendendo – que a próxima onda será a de You of Things (YoT)


12 de abril de 2021 - 14h19

(Crédito: Designer491/ iStock)

Tem se falado muito sobre tendências reveladas no último ano e que certamente serão incorporadas à vida de todos nós. De outro lado, temos aquelas que estão ganhando um forte impulso, devem se consolidar rapidamente, mas que olhamos ainda com certa preocupação. E essa preocupação é muito legítima, seja pelo pouco conhecimento em relação ao tema ou porque nos envolve por completo, literalmente. Nós nem conseguimos decifrar tudo o que cabe no que chamam de Internet das Coisas (IoT – Internet of Things) e já estamos ouvindo – e aprendendo – que a próxima onda será a de You of Things (YoT), como destacou Amy Webb, fundadora do Future Today Institute, no SXSW 2021, que aconteceu mês passado.

Parece ficção, mas é bem real e está batendo em nossa porta. Pode-se considerar que esse novo conceito ressignifica de forma importante a Internet das Coisas, colocando as “Pessoas” no centro de tudo, no que pode ser chamado de Human of Things, como diz Amy Webb. A coleta de dados é feita nos seres humanos – sim, isso mesmo! – e as informações, processadas externamente. É o corpo humano cada vez mais integrado à tecnologia tornando-se também uma base de dados para produtos, serviços, empresas e interagindo com tudo isso. Já conhecemos bem uma série de artefatos e dispositivos digitais que monitoram nossa atividade física e alguns dados de saúde. O próximo passo será enviar as informações em tempo real para tomada de decisões ou mesmo para compreender emoções sintonizadas com o nosso estado físico.

O Fjord Trends 2020 , produzido pela Accenture Interactive, constata que nossos rostos já podem ser lidos como códigos de barras. Dá para imaginar essa nova onda com dispositivos internos enviando informações do corpo humano a um servidor e, assim, possibilitando, por exemplo, alertas sobre problemas no batimento cardíaco ou oscilações em outros órgãos e até controlar essas “intercorrências” remotamente, por meio de profissionais da saúde.

No SXSW 2021, Amy Webb falou sobre os destaques do Tech Trends Report 2021, elaborado anualmente por seu instituto, e um dos principais achados apresentado no relatório é que a saúde será o próximo campo de batalha para as grandes empresas de tecnologia. Pensando que essa já é uma frente madura para inovações disruptivas, a consequência deveria ser positiva para melhorar (e facilitar) a vida de todo mundo.

Resumidamente, o capítulo sobre saúde do estudo de Amy Webb constata que a Covid-19 acelerou a telemedicina e estimulou um novo esforço de transformação digital na área. Destaca que mais testes diagnósticos estão sendo feitos em casa, por meio de dispositivos e inteligência artificial. Outro ponto é que a pandemia impulsionou as vendas de equipamentos de ginástica inteligentes, que incluem espelhos, bicicletas e esteiras. No campo dos videogames, já estão sendo desenvolvidos produtos para ajudar no tratamento de algumas condições especiais e doenças. E o sono, esse que pode ser o grande vilão da vida moderna, tornou-se um supernegócio: estima-se que, em 2026, o tamanho do mercado pode bater a casa dos US$ 30 bilhões. Já tem robô que promete um sono melhor através do envio de impulsos elétricos para o nosso cérebro!

Nosso laboratório de pesquisas in house, o C.Lab da Nestlé, tem nos mostrado que as pessoas estão muito mais atentas à saúde – comportamento natural, pois estamos todos sob o impacto de uma pandemia. O que os dados indicam é que essa atenção não deverá retroceder. Na segunda onda do Tracking Covid-19 que realizamos há algumas semanas, 65% dos pesquisados informaram que estão mais preocupados com o fortalecimento do sistema imunológico. E o You of Things pode ter um papel fundamental, e no curto prazo, nessa jornada de autocuidado. Com o corpo conectado, será possível melhorar nossa performance e produzir bem-estar físico e mental. A reflexão que, acredito, será fundamental para avançarmos nesse universo de possibilidades é como garantir a privacidade e a segurança com tantas conexões e devices disponíveis. Um desafio e tanto!

Coincidentemente, acabei de ganhar e já comecei a ler ‘Decodificada – A busca por humanizar a tecnologia antes que ela nos desumanize’, da autora Rana el Kaliouby, uma cientista do Cairo que estuda a inteligência emocional artificial. Ela diz que sua missão é essa mesma: humanizar a tecnologia. Também presente no SXSW 2021, ela alertou que vamos precisar encontrar respostas para questões éticas, como a privacidade de dados. E, assim, pensar como a inteligência artificial pode impactar as relações de humanos para humanos. Mais uma vez, estamos falando de pessoas.

*Crédito da foto no topo: Ajwad Creative/iStock

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