Saudades das conexões aleatórias

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Saudades das conexões aleatórias

Especialmente quem trabalha com atividades criativas sentiu o impacto do isolamento social na rotina e a ausência dos diálogos periféricos, fundamentais aos processos de criação


8 de junho de 2021 - 14h00

(Crédito: Sorbetto/ iStock)

A pandemia suspendeu as amizades casuais. Essa é a conclusão de um artigo publicado no The Atlantic pela jornalista Amanda Mull. O texto investiga o impacto do distanciamento em uma esfera menos óbvia das nossas relações. As pessoas conhecidas, não íntimas, o nosso círculo social expandido – que é tão importante para a vida pessoal. Com os amigos mais próximos a gente deu um jeito de manter contato, deu uma nova chance pro grupo de whats da família, fez alguns brindes online. Agora pense nas pessoas que moram no seu prédio ou que vão sempre no seu horário na academia ou que atendem você todo dia na padaria. A pandemia apagou temporariamente essas interações do seu dia-dia.

 Na vida profissional, também nos ocupamos de preservar o indispensável. Mas e o que é dispensável em um primeiro momento e depois pode se tornar central?

 

Especialmente quem trabalha com alguma atividade criativa sentiu o impacto do isolamento social na rotina. Mesmo que as coisas estejam funcionando bem no home office, existe um elemento específico que está fazendo muita falta: as conexões aleatórias.

E aí que as histórias se encontram. Da mesma forma que você não envia um invite do Zoom para dar um oi ao vizinho, você não marca uma reunião para contar à sua colega de trabalho sobre o texto do The Atlantic que veio na edição de ontem da newsletter que vocês gostam. Esses diálogos periféricos, que são fundamentais para o processo criativo, se perdem.

Boas ideias surgem pela recombinação de elementos conhecidos, dispostos de maneira original. Mudanças no contexto, inovações tecnológicas e novos canais de comunicação são fatores que abrem possibilidades para criar combinações inéditas. Mas muitas vezes, esse resultado depende de interações acidentais entre as peças que agora estão sobre a mesa. É a tal da serendipidade: colisões aleatórias que ocorrem dentro do nosso cérebro e fora dele em encontros casuais.

Com o trabalho remoto e as vídeo-conferências conseguimos manter as conexões intencionais. Entramos em uma call e cumprimos o roteiro. Cada participante fala na sua vez (ou tenta) e assume seu papel. Tudo muito objetivo porque logo em seguida tem outra call. Não há tempo para small talks – que dá pra traduzir como conversa fiada. Porém, muitas vezes é aí que as ideias nascem. É o que Scott Belsky, fundador do Behance, em seu painel no SXSW 2021, chamou de “casual social layer of work”, ou camada social casual do trabalho. É o papo no café, o comentário despretensioso no corredor ou mesmo na sala de reuniões, enquanto as pessoas se acomodam. É ali que você faz o link entre a série que está bombando no Netflix e o projeto do seu cliente. Você conta o seu drama e o seu colega lembra de uma referência que recebeu no WhatsApp. Você acidentalmente esbarra na solução que estava procurando.

O texto do The Atlantic menciona um estudo do sociólogo Mark Granovetter que chega a uma conclusão contraintuitiva: as amizades casuais e os conhecidos podem ser tão importantes para o nosso bem estar quanto a família, os relacionamentos amorosos e os amigos próximos. Muitas vezes são essas pessoas que nos abrem portas, apresentam outras pessoas, trazem novas visões. Garantem a variedade que é o tempero da vida.

É justamente esse tempero que está fazendo falta para o processo criativo em tempos de isolamento. O que dá pra fazer por enquanto é tentar recriar dinâmicas que promovam a camada casual nos ambientes digitais. Alguns encontros sem pauta, uns minutinhos de aquecimento antes de começar a reunião ou ferramentas que facilitem a troca livre de conteúdos podem ajudar. E, claro, fazer a nossa parte para que possamos retomar o mais brevemente possível as nossas vidas das mãos desse vírus – que ironicamente evolui a partir de mutações aleatórias. 

*Crédito da foto no topo: Mubaz Basheer/Pexels

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