Uma CoronaVac e um pastel

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Uma CoronaVac e um pastel

Deixar de se vacinar porque no seu dia não tinha a marca desejada é cruel com todos os que não tiveram sequer essa chance. Precisamos parar de exaltar a ignorância convicta como um ato libertário


27 de julho de 2021 - 11h37

(Crédito: Tmalucceli/ Shutterstock)

A fila às sete da manhã parecia quieta demais. O frio tornava cada movimento um pequeno ato calculado e poderia ser considerado o único responsável pelo silêncio. Havia, porém, uma sensação que era possível captar só de olhar em volta: ansiedade. O bater dos pés no chão, o eterno ajuste do elástico da máscara, sentar e levantar da cadeira repetidamente. Um caminhão do exército ajuda a configurar a tensão. Ele chega sob os olhares de todos na fila. Apreensão. Minutos depois, o caminhão vai embora. Surge uma nuvem intensa da mesma pergunta em diferentes vozes: “Qual é a marca da vacina?”. A pessoa responsável pelo posto de saúde responde: “Hoje tem AstraZeneca para a segunda dose, CoronaVac para a primeira.” Metade das pessoas vai embora rumo ao que imagino ser uma busca por outras vacinas. Eu fico em terceiro na fila. A enfermeira vestia uma camisa da Mulher-Maravilha por baixo do jaleco. Penso que não haveria metáfora melhor que aquela para ser vacinado. Eu saio do posto aliviado, emocionado. Enquanto isso, pessoas percorrem outros postos na caça por uma grife que elas desejam.

Por uma coincidência, encontro uma feira na saída do posto. Reconheço a barraca de frutas que está na ponta. É do Luiz, o cara que tem as melhores frutas, as mais diferentes na feira ao lado de casa. Ele pergunta o que estou fazendo ali. Eu digo que me vacinei. Ele pergunta qual vacina. Eu falo que foi a CoronaVac. Ele faz uma cara de muxoxo. Eu resolvo fazer essa prosa caminhar sobre a importância de estarmos todos vacinados o quanto antes. Que a marca não importava. Chegamos a um consenso juntos. Ele me indica uma barraca de pastel. Comemoro a vacina com um pastel de carne.

Dias depois, eu vi uma charge em que uma pessoa está a despencar do céu sem paraquedas e uma outra está a lhe oferecer um reserva. A que está sem o paraquedas pergunta: “Qual é a marca?”. Li também um texto que trata dessa pergunta tão estranha.

“Entregou os seus documentos, sentou-se, levantou a manga da camisa quando ela se aproximou. Antes que ela pudesse encostar a agulha em seu braço, ele logo perguntou:

— Moça, qual é a marca da vacina?

— Marca? O senhor quer dizer o laboratório?

— Isso, isso, a marca do laboratório.

Com a resposta da enfermeira, ele foi taxativo:

— Não tomo desta marca, moça!

— Por quê?

— Porque fiz o curso no último fim de semana. Grátis, na internet. Sommelier de vacina! Sei as diferenças entre as marcas, a eficácia, os efeitos colaterais, tudo para me proteger de fraudes.*

A pergunta “qual é a marca?” não é uma novidade para quem trabalha com comunicação. Marcas podem cumprir papéis racionais para o consumidor. Ele pode gostar mais de um detergente pelo preço, pela qualidade, pela quantidade de espuma, que seja. Algumas marcas transcendem o aspecto racional e podem exercer códigos de identificação, de diferenciação, de status. Outras conseguem atingir aquilo que se denominou ser uma love brand. Que o digam as camisetas da Harley-Davidson vestidas por pessoas que nunca pilotaram uma moto. No caso da vacina, a pergunta parece inapropriada.

Se você tem filhos, deve ter visto dezenas de vacinas sendo aplicadas na pessoa que você mais ama na vida. Em algum momento você perguntou: “Por obséquio, esta vacina que está sendo aplicada na coxa da minha filha é de qual marca mesmo?”. Não, né? Ou você tem algum conhecido que recusou uma vacina BCG por não estar de acordo com as normas de grife internacional? Aliás, dá para imaginar alguém dizendo: “Olha, essa vacina pentavalente que previne tétano, hepatite B, coqueluche, difteria e meningite eu vou dispensar o meu filho de tomar, ok? Vou esperar sair uma do laboratório que me recomendaram e, além do mais, vai que essa tem insumos chineses.”

Em um texto de 1980, do escritor Isaac Asimov, ele ressalta: “A tensão do anti-intelectualismo vem sendo um fio que se desenrola através da vida política e cultural, fomentado pela falsa ideia de que democracia quer dizer que ‘a minha ignorância é tão válida quanto seu o conhecimento'” Parece ser uma definição que pode ser aplicada em tempos de pandemia. Falamos tanto que vivemos na Era da Informação que nos esquecemos de como ela tem sido pródiga em ser A Era da Desinformação. Nunca foi tão fácil propagar uma inverdade como se fosse uma informação crível. Desde o começo, choveram teorias estapafúrdias sobre a “vachina”. Microchips implantados com o intuito de domínio, tecido de fetos que teriam sido usados na produção de insumos, entre outros. Nos anos 1990, a gente discutia clonagem como se fosse o futuro. Hoje, vemos uma descrença em relação à ciência e fazemos do tio do WhatsApp uma autoridade. O resultado é que deixamos de fazer as questões necessárias, como “será que isso é verdade?” ou “quais teses sustentam essa teoria?”. E passamos a fazer, na hora da vacinação, a questão desnecessária: “Qual é a marca?”.

Um amigo relatou que no posto de vacinação que ele foi houve um movimento de recusa à Pfizer (ou Pifaizer), porque desejava-se a Janssen, que é de dose única. Eu achava que as recusas da CoronaVac tinham em si um aspecto vira-lata, também. Nada que o Brasil faz é bom, logo vou tomar essa gringa aqui. Ou até uma questão de status: eu uso marca gringa, ele usa Butantan. No meu dia de vacinar, quase todo mundo que recusou a CoronaVac dizia que precisava viajar para a Europa. Câmbio favorável deve ter dessas coisas (contém ironia).

Deixar de se vacinar porque no seu dia não tinha a marca desejada é cruel com todos os que não tiveram sequer essa chance. Precisamos parar de exaltar a ignorância convicta como um ato libertário. Escrevo este texto há dias de tomar a segunda dose da CoronaVac. Adoraria encontrar um cientista do Instituto Butantan na saída para dar um toque de cotovelos de agradecimento. Acho improvável. Com sorte, encontro uma barraca de pastel e celebro mais uma vez.

*O autor do texto, o jornalista Marcus Vinicius Batista, de 46 anos, faleceu de Covid-19. Ele estava internado devido a uma infecção causada pela diabetes. Ele testou positivo durante a hospitalização. Meus sentimentos à família. 

**Crédito da foto no topo: Mubaz Basheer/Pexels

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