Olimpíadas ou Direitos Humanos?

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Opinião

Olimpíadas ou Direitos Humanos?

Jogos de Inverno, em Pequim, serão desafio especial aos patrocinadores


10 de janeiro de 2022 - 18h15

Vista aérea da Vila Olímpica, em Pequim; política e esporte andarão de mãos dadas no noticiário de cobertura dos Jogos de Inverno, este ano (Crédito: Wang Zirui / Costfoto/Future Publishing via Getty Images)

2022 será um ano no qual o esporte e os direitos humanos farão parte das mesmas pautas em programas políticos e mesas redondas. Uma das principais razões dessa confluência serão os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Inverno em Pequim, entre os dias 4 e 20 de fevereiro e 4 e 13 de março, respectivamente.

O assunto que ainda desperta pouco interesse no Brasil, graças à limitada popularidade das Olimpíadas de Inverno, é tema de discussões e cobertura diária na Europa e na América do Norte. Mas com a proximidade do evento, isso deve mudar por aqui também.

De acordo com as organizações internacionais dedicadas ao monitoramento dos direitos humanos e suas violações, como a Human Rights Watch, a China é um país com uma infinidade de problemas e isso não é algo recente.

Quando o país sediou as Olimpíadas de Verão em 2008, as disputas entre Pequim e o Tibete já eram um problema de proporções globais. Naquela época, a China ocupava a 126ª posição no “Human Freedom Index” do Instituto Cato (ao todo são 150 países). De lá para cá, as coisas só pioraram graças a outras medidas do governo como a recente intervenção em Hong Kong ou a contínua redução das liberdades de seus cidadãos. No mais recente ranking (dados de 2019), a China caiu para a 150ª posição.

Entretanto, o problema mais visível e discutido nos últimos anos é o tratamento dado aos uigures, um grupo étnico turco nativo de Xinjiang (no noroeste da China). Os uigures são uma etnia predominantemente muçulmana, e isso é algo que desagrada o governo em Pequim.

Sob a bandeira de “guerra contra o terrorismo”, os uigures foram aprisionados em campos de concentração para serem “reeducados”, mulheres foram esterilizadas, motivadas a terem menos filhos ou a se casar com chineses de outras etnias, seu idioma e religião proibidos, seus líderes acadêmicos e religiosos perseguidos e presos e muito mais. A situação é tão crítica que o governo americano declarou a crise dos uigures como um genocídio.

É nesta mesma China que acontecerão os próximos Jogos Olímpicos.

Em 2015, quando o Comitê Olímpico Internacional escolheu a sede dos Jogos Olímpicos de 2022, Pequim não era a sua primeira opção. Potenciais candidaturas mais fortes – Munique, Helsinque, Vancouver, Barcelona e algumas cidades americanas – foram desistindo ao longo do processo. Quando as propostas finalmente foram entregues, só duas cidades seguiram o processo formal além de Pequim: Almati no Cazaquistão e Oslo, na Noruega. Antes da votação, Oslo decidiu não mais participar. O COI então ficou refém de dois países com péssimos históricos em direitos humanos. No final, ganhou (por uma pequena margem), o que oferecia menor risco operacional.

Apesar de não ter sido essa a intenção, a decisão do COI em 2015 teve implicações significativas na forma com que os departamentos de marketing das empresas patrocinadoras – Airbnb, Allianz, Atos, Bridgestone, Coca-Cola, Intel, Omega, Panasonic, P&G, Samsung, Toyota e Visa – poderão promover seus patrocínios em 2022.

Patrocínios representam somente 18% das receitas do COI (a principal fonte são os direitos de transmissão que representam 79% de tudo o que arrecada o Comitê Olímpico Internacional). Mas os patrocinadores – e não as empresas de mídia – são os mais pressionados pela imprensa e pelas Organizações Não Governamentais para fazerem um boicote comercial aos Jogos.

A situação é muito delicada para estas empresas e os riscos estão por toda parte, independentemente do que elas decidam fazer.

Se atenderem às demandas das ONGs e governos, não só perderão milhões de dólares investidos nos contratos de patrocínios, mas principalmente correrão o risco de enfurecer o governo chinês e serem retaliadas no futuro. Quase todas estas grandes marcas têm operações gigantes na China e não podem correr tal risco. Fracassar na China pode levar a um fracasso de escala global para a maioria das empresas patrocinadoras.

Por outro lado, se elas ignorarem as demandas da sociedade e seguirem com suas propagandas e promoções, podem ter sua reputação comprometida e serem retaliadas por analistas de mercado e consumidores conscientes das violações chinesas.

Nos próximos três meses veremos como cada patrocinador vai andar nessa corda bamba. Alguns cometerão deslizes e sofrerão as consequências. Os melhores passarão ilesos por mais esse evento global e serão capazes de crescer seus negócios apesar de todos os riscos. A diferença entre os dois grupos será a qualidade de suas equipes de marketing esportivo e relações públicas.

Boa sorte para meus amigos patrocinadores.

*Crédito da foto no topo: Reprodução/ Band 

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