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Opinião

Os desafios constantes por igualdade racial e de gênero

Em celebração ao Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, um papo com Helen Pedroso, nova diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da L’Oréal Brasil, sobre mulheres negras nos altos cargos corporativos


25 de julho de 2022 - 0h01

Sabrina Zanker, Diretora Geral da L’Oréal Luxo no Brasil, e Helen Pedroso, nova diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da L’Oréal Brasil (Crédito: Divulgação)

Neste espaço, tenho abordado mensalmente em meus textos tópicos que demonstram a desigualdade de gênero presente em diversas situações do cotidiano. Em nossa sociedade, existem vários sistemas de opressão. Considero importante pensar na interseccionalidade de minorias, que são ainda mais afetadas pela desigualdade e o preconceito. Em celebração ao Dia da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha, neste 25 de julho, convido a Helen Pedroso, nova diretora de Responsabilidade Corporativa e Direitos Humanos da L’Oréal Brasil, para um papo sobre a trajetória de mulheres negras nos altos cargos corporativos.

Helen vem da Rede Brasil do Pacto Global da ONU, onde era Diretora de Relações Institucionais. É psicóloga pela PUC-SP, tem MBA em Gestão de Saúde pela FGV-Rio e MBA em Gestão de Negócios Sustentáveis pela UFF, especialização em Liderança Executiva para o Terceiro Setor pela Kellogg University em Chicago/USA. Helen é também certificada pela Board Source sobre engajamento de Conselhos.

 

SZ: Por que essas datas de conscientização, como o Dia da Mulher Negra Latina e Caribenha, ainda são importantes?

HP: Esta é uma data fundamental para resgatar a história da mulher negra, que foi sempre acometida pela disparidade de gênero e raça, e para conscientizar a população acerca das especificidades dos problemas enfrentados por nós. Esse é um chamamento para a sociedade, juntamente das empresas, refletirem sobre os indicadores sociais, econômicos e políticos que podem ser alterados com o compromisso aos princípios dos Direitos Humanos e ações concretas de inclusão.

SZ: Qual a diferença entre o feminismo para a mulher negra e a branca?

HP: Por muito tempo o movimento feminista foi idealizado e liderado por mulheres brancas da classe média. A partir da década de 70, mulheres negras iniciaram um debate sobre representatividade na luta pela equidade de gênero, que acabou universalizando a categoria mulher.

A questão é que há diferentes realidades entre nós mulheres. Somos muitas e somos plurais: mulher negra, mulher branca, a mulher indígena, mulher lésbica, mulher trans, a mulher em situação de pobreza, violência doméstica. Esse diálogo se faz necessário para que as mulheres brancas feministas, que têm algum privilégio, não reproduzam opressões e se abram para o debate garantindo a não exclusão de um grande grupo de mulheres que estão sofrendo e vivendo em posição ainda mais vulnerável.

SZ: No ambiente de trabalho, quais são os maiores desafios enfrentados pelas mulheres negras? Teria exemplos para compartilhar?

HP: No Brasil, segundo o IBGE, 57% da população é negra, parda e preta, mas quando falamos em posições de liderança não chegamos a 5%. Logo, apesar de representarmos a maior força de trabalho no país, a população negra segue sub-representada no mundo corporativo. Podemos reparar que mesmo nas empresas que adotam ações afirmativas de inclusão racial, a questão hierárquica ainda é, em sua maioria, branca.

O estudo “Potências (in)visíveis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho” (BOX1824 e Indique uma Preta) indica que os maiores desafios enfrentados pelas mulheres negras é a falta de oportunidades de crescimento.

Por exemplo, mesmo a minha trajetória de carreira sendo construída em organizações sociais do terceiro setor, que é um ambiente, tradicionalmente, ocupado majoritariamente por mulheres, na maior parte das organizações onde trabalhei, quando olhávamos para cargos de Diretoria Executiva e Conselho víamos uma maioria masculina e branca.

SZ: Como trabalhar ativamente a inclusão de mulheres negras no ambiente de trabalho e acelerar a jornada destas profissionais de modo que elas cheguem ao topo, como C-level, por exemplo?

HP: Um primeiro passo é seguirmos com programas e medidas afirmativas para estimular a entrada de mulheres negras em posições de liderança. Ao selecionar e contratar, deve-se pensar na diversificação de perfis e nas oportunidades futuras de promoção e reconhecimento.

Além disso, sempre devemos associar as ações afirmativas à projetos que visem sensibilizar e engajar a alta liderança para quebrar barreiras inconscientes e criar espaços confortáveis para as mulheres negras avançarem e um dia chegarem às mais altas posições de liderança, como C-Level.

SZ: Como você, que está chegando do Pacto Global da ONU, avalia os pontos prioritários para endereçar a inclusão da mulher negra mundialmente? Existem especificidades na América Latina?

HP: Para o secretário Geral da ONU, António Guterres, devemos levantar nossas vozes contra todas as expressões de racismo e instâncias de comportamento racista. Precisamos urgentemente combater o racismo estrutural, reformar as nossas instituições e a comunidade empresarial global pode e deve atender ao chamado e defender os direitos humanos. 

Logo, com base nos princípios dos direitos humanos do Pacto Global da ONU (princípios 1 e 2), que são derivados da Declaração Universal dos Direitos Humanos, as empresas podem fazer movimentos positivos como, por exemplo, criar locais de trabalho diversos e inclusivos, investir em comunidades e envolver funcionários e comunidades para promover ações coletivas. Embora estes tipos de ações para apoiar os direitos humanos sejam incentivados, eles não substituem nem compensam o respeito pelos direitos humanos.

SZ: O que você espera desse seu novo momento na L’Oréal?

HP: As empresas têm um papel protagonista na transformação da nossa sociedade e proteção do nosso planeta. Há grandes empresas globais que sua receita e seu valor na Bolsa superam o PIB de dezenas de países.

Eu sinto que a minha chegada à L’Oréal Brasil, empresa líder global do mercado da beleza, é como uma convocação para a qual a minha trajetória por diferentes setores e uma carreira focada em impacto social me prepararam.

Estrategicamente, acredito que esta será uma importante jornada, que traz a força de uma mulher, parda, brasileira, em uma posição de C-Level na aceleração da agenda de compromissos do “L’Oréal Para o Futuro” no país. Com o propósito de “Criar a Beleza que Move o Mundo”, na L’Oréal acreditamos que a beleza deve ser mais inclusiva e representar toda a diversidade que encontramos dentro dos nossos escritórios e no nosso público.

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