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Women to Watch

Rafaela Gonçalves, a primeira mulher negra do Maranhão a dirigir um longa de ficção 

A roteirista e diretora do filme "De Repente Drag", em cartaz nos cinemas, conta sua trajetória como cineasta  

Michelle Borborema
4 de agosto de 2022 - 12h06

A maranhense Rafaela Gonçalvez é roteirista e diretora do filme “De Repente Drag”, em cartaz nos cinemas do Brasil (Crédito: Divulgação)

Aos 31 anos, Rafaela Gonçalves acumula a experiência de poucas cineastas mulheres do Maranhão. Desde 2011, começou a trabalhar como operadora de câmeras e logo passou a fazer filmagens de jogos de futebol nos estádios de São Luís para o canal TNT Sports (antigo Esporte Interativo), ofício que a fez enfrentar alguns desafios como mulher, dentro e fora do campo. “As partidas começavam às 16h. Os outros cinegrafistas chegavam às 15h30, mas eu precisava estar lá às 15h, porque sabia que, se chegasse tarde, não teria espaço para meu tripé. Depois, tinha ainda a torcida, que em geral era muito machista”. Mas a cineasta conta que buscou sobreviver naquele ambiente hostil, conseguiu ganhar confiança entre os cinegrafistas e hoje tem muitos amigos na área. 

Pouco mais de dez anos depois, Rafaela está à frente do roteiro e da direção do filme “De Repente Drag”, com estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas, como a primeira mulher negra do Maranhão a dirigir um longa-metragem de ficção e a segunda mulher a dirigir um filme de pelo menos 70 minutos na região. A produção, uma mistura de comédia e suspense, traz o protagonismo LGBTQIAP+ e a cultura drag queen brasileira ao acompanhar Julião (Ruan do Vale), um repórter que, após descobrir um caso de tráfico de pessoas envolvendo o maior concurso de drags do Nordeste, percebe uma oportunidade de mudança de cargo. Mas, para isso, ele vai precisar se despir de preconceitos e mergulhar no universo drag como parte de sua investigação. 

Para a cineasta, a obra, que começou a escrever em 2014, tem influência de suas referências no audiovisual e de sua própria biografia. Em casa, sua mãe, Iolete, era fã de cinema, e apresentou a ela muitos filmes desde pequena. Aos 8 anos, assistiu “Para Wong Foo, obrigada por tudo!”, de Beeban Kidron, e “Quanto mais quente melhor”, de Billy Wilder, longas que a introduziram ao universo da transformação drag. Ela também conta que narrativas de dupla personalidade sempre a inspiraram. “Quando íamos para a locadora, sempre alugava a mesma fita, ‘O Máskara’, e isso também passa por essa narrativa.” 

Além disso, o tráfico de pessoas, que também é abordado no filme, é um dos problemas no Maranhão e parte de uma história da família de Rafaela e de ocorrências entre a comunidade LGBTQIAP+. Quando sua tia trabalhava como modelo, ainda jovem, foi chamada para trabalhar fora do estado, mas a mãe não permitiu. Depois, descobriram que o grupo de meninas com quem ela iria eram vítimas do crime. “Na comunidade LGBTQIAP+, há muitos concursos de beleza, então isso acontece bastante. Há muitas mulheres que são expulsas de casa, por exemplo, e caem nessas roubadas de serem chamadas para um projeto pensando que vai dar certo e encontram algo completamente diferente depois. Falta segurança.” 

EM BUSCA DE REPRESENTATIVIDADE 

Rafaela diz que, quando conseguiu o recurso para fazer o roteiro de “De Repente Drag”, não queria dirigir o filme, mas a realidade do Maranhão e a falta de representatividade de mulheres negras e LGBTQIAP+ a fizeram seguir em frente. “Primeiro, pensei em chamar alguém que já tivesse experiência com direção. Mas eu estava em meio a muitas discussões sobre representatividade e percebi que precisava dar meu ângulo ao que escrevi. Tive que chamar essa responsabilidade para mim e sabia que não seria fácil, pois isso te traz um holofote que pode ser complicado. Muitas pessoas falam que nosso filme é ruim sem nunca ter assistido. Não é simples, mas extremamente necessário, porque meu desconforto pode ser o conforto para alguém lá na frente.” 

No Maranhão, há atividades cinematográficas contínuas desde 1970, mas o primeiro longa de ficção dirigido por uma mulher foi feito apenas em 2019 (“Terminal Praia Grande”, de Mavi Simão). Em geral, as maranhenses costumam dirigir mais documentários, possivelmente por ser o gênero com menos custos do audiovisual. Elas também são pouco chamadas para as produções da área, e ainda têm receio de se arriscar na direção e nos roteiros. “Isso mostra muito o abismo em que estamos. As pessoas precisam se impactar com isso. Precisamos de financiamento para fazer uma ficção”, diz. 

“Acredito que existe muito protecionismo e machismo. Os homens acreditam que sabem fazer melhor. No primeiro longa em que trabalhei, de guerrilha, entrei como operadora de câmeras e muitos não acreditavam que eu conseguiria ir até o final. Depois, os dois outros operadores desistiram e eu terminei o filme com as três câmeras na mão. Acho que, como os homens dominam o mercado, eles se fecham e se indicam. Nós raramente conseguimos furar essa bolha.”  

A cineasta se refere a um de seus trabalhos mais conhecidos, a franquia de filmes “Muleque Té Doido” (2014-2016), onde foi operadora de câmera, assistente de direção e produtora executiva. A produção foi recorde de bilheteria no Maranhão e ganhou prêmios como “Melhor Longa-Metragem” e “Melhor Direção” no Festival Maranhão na Tela, em 2016, entre outros.  

Além da preparação para o roteiro de “De Repente Drag”, Rafaela também estudou intensamente as leis de incentivo para viabilizar o filme. “Estou aqui porque sou teimosa, mas também tive muitas facilidades. Minha relação com as câmeras e com o cinema aconteceram desde cedo, e minha mãe me encorajou muito em todo o processo. Pensei em fazer Psicologia, mas ela me estimulou a fazer Rádio e Televisão porque enxergou como uma oportunidade.” 

‘DE REPENTE DRAG’ NOS CINEMAS 

Com o novo filme e sua produtora, a Matraca Filmes, a cineasta pretende contribuir para mudar essa realidade. Preocupada com a economia local e com a representatividade do longa também por trás das câmeras, ela escolheu profissionais maranhenses e da comunidade LGBTQIAP+ para legitimar o roteiro. “Eu queria provar algumas coisas com o filme. Primeiro, que a gente conseguiria atrair o financiamento para cá e potencializar nossa economia. Quando conquistamos isso, o dinheiro entra primeiro para o audiovisual, mas se espalha para toda a nossa cadeia, que envolve empresas e autônomos do Maranhão. E queria muito uma equipe LGBTQIAP+, pois isso confere poder. As pessoas ganham dinheiro e, assim, conseguem gastar a grana se capacitando.” 

 

“De Repente Drag”, que estreia nesta quinta-feira (4) nos cinemas, traz o protagonismo LGBTQIAP+ e a cultura drag queen às telonas (Crédito: Divulgação)

Os desafios passam também por ser uma mulher negra. “Vim de um filme de guerrilha de um cara branco, e ele conseguiu mobilizar rapidamente muita gente em torno da produção dele. Quando uma mulher preta diz que tem um roteiro, ela passa por descrédito. Temos apenas 3 empresas de audiovisual de pessoas negras em São Luís, porque manter uma empresa é muito difícil. E aí você é automaticamente esmagado diante de tantas outras. Fora que nem sempre se tem o projeto, porque falta acesso. Então precisamos atuar em três frentes: capacitação, entendimento dos editais e num banco de roteiros para entender como está a produção local e mudar essa realidade. A verdade é que ainda não conseguimos nos manter no cinema. Estamos muito atrás, mas estamos tentando mudar isso para termos narrativas mais diversas. Para o Brasil ter cara de Brasil.” 

Rafaela conta ainda que falta apoio e confiança entre as mulheres no audiovisual para que mais diretoras e roteiristas apareçam na indústria, embora saiba que a realidade do estado passa por outras questões, como ausência de políticas públicas. “Precisamos nos fortalecer, porque nos sabotamos muito. Ao mesmo tempo, há muita carga de trabalho, responsabilidades e falta de acesso para as mulheres. Elas precisam trabalhar, estudar e cuidar dos filhos. E aqui no Maranhão não temos essa cabeça voltada para o cinema industrial, não fazemos filme para ir para sala de cinema, focamos nos festivais. Nossas narrativas ainda são muito fechadas e regionais, então temos que pensar em histórias mais universais, para que o Brasil consiga nos ver. O problema é que, enquanto estamos pensando em promover consultorias de roteiro, os maranhenses estão indo para fora do nosso estado fazer um grande curso. Então precisamos de políticas públicas também. Ajudo no que posso, mas não consigo abarcar todo mundo. E isso é muito angustiante.” 

PELO RESPEITO À DIVERSIDADE 

O filme “De Repente Drag” tem um propósito fundamental para Rafaela: ajudar as pessoas a perceberem que se identificar como LGBTQIAP+ não é sinônimo de sofrimento. “Depois que exibimos o filme no festival do Rio, um menino de 16 anos me disse ‘nossa, o filme ensina, mas diverte. Acho que ficaria confortável em assisti-lo com a minha família’. Então pensei em quando tinha 16 anos e em como seria bom se houvesse narrativas que suavizassem o sofrimento que foi me descobrir lésbica e amenizar minhas brigar internas. Quero que a gente possa conviver em harmonia e se respeitar”, conta. 

Com estreia hoje nos cinemas de São Luís, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, o longa, selecionado para Rio LGBTQIAP+ Festival de Cinema deste ano, faz parte do selo ELAS, iniciativa da Elo Company que visa fomentar o cinema feito por mulheres para impulsionar a equidade de gênero no audiovisual. 

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