A justa medida das telas. Você tem?

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Opinião

A justa medida das telas. Você tem?

Concentrar-se em um único estímulo se tornou objeto tão importante de discussão que o hiperfoco está na lista das habilidades requeridas aos profissionais até 2025


14 de junho de 2022 - 16h00

Crédito: Shutterstock

Você está condicionado ao uso de telas e dispositivos móveis. Não negue, eu também estou. Todos nessa sociedade digital moderna estamos. Usamos para responder as nossas perguntas, para nossas conexões de trabalho, família e relacionamento afetivo e sexual, para o entretenimento, para informação, para transações comerciais e financeiras, para serviços de entrega, para lembrar de tomar água. Tudo passa pelas telas. Umas maiores para escrever, ler, organizar agendas e fluxogramas, e as menores para coisas mais simples.

Depois de ter sido tecnologizado, o mundo não será destecnologizado. É uma frase célebre de Walter Ong, que ainda contribuiu com outra afirmação para reflexão: “Não há retorno ao passado”. Para Ong, os indivíduos adotavam facilmente as novas tecnologias enquanto abandonavam os antigos conhecimentos, sobretudo os sensoriais, sobre o mundo. Equivaleria a pensarmos a troca das relações sociais presenciais por redes digitais. No entanto, apesar do elemento crítico, o problema não é a tecnologia.

Trabalhando e pesquisando as tecnologias de comunicação e seus dispositivos – estratégias digitais e games – e suas relações com os sentidos humanos, com frequência sou questionada sobre o impacto das telas sobre o indivíduo: que futuro as crianças terão, tendo passado horas na frente das telas jogando? Um futuro excelente. Vale lembrar: nada em excesso. Do mesmo modo que qualquer ação em demasia pode causar problemas a curto ou longo prazo, o uso excessivo de telas pode desconectar os indivíduos das experiências reais, mas eles não estarão desconectados do mundo.

As telas em que encontramos as redes, as narrativas, os jogos, comportam sistemas que proporcionam relacionamento, conhecimento, imersão em histórias fantásticas que alimentam nossas ilusões e nos retiram temporariamente da realidade. Essas experiências nos colocam diante de um cenário simultâneo, instantâneo, dinâmico, técnico e digital – resumindo – o futuro.

Este cenário contemporâneo tornou urgente o desenvolvimento de modelos mentais e sensoriais que acompanhem a velocidade das descobertas, o que significa que nossa atenção hoje é modelada de acordo com esses estímulos. Já sabemos que não é possível prestar atenção focada em duas atividades ao mesmo tempo, uma delas estará no automático, o que derruba o argumento do multitarefas. Ou seja, se você está fazendo muitas coisas ao mesmo tempo, não está prestando atenção em nada. Repare isso observando quem fala ao telefone enquanto dirige, a pessoa vai parar de falar e de ouvir quando encontrar uma blitz ou outra situação inesperada na rua.

Usar o telefone evocaria simultaneamente um conjunto de sentidos para olhar a tela, ouvir o interlocutor, tocar a interface do aparelho, digitar uma mensagem e raciocinar, demandando o tipo de atenção concentrada. Ao mesmo tempo, com a insistência em continuar executando outras tarefas, dirigir, trabalhar e assistir TV, enquanto se está ao telefone, teríamos a vigência do tipo de estar em alerta dirigido, percebendo o ambiente e seus elementos em níveis diferentes de atenção. Atenção concentrada é a capacidade de selecionar um estímulo relevante no ambiente e focar a este estímulo. Já a atenção dirigida permitiria a execução de várias tarefas simultâneas dedicando-se parcialmente a elas.

Matthew Crawford conduziu uma pesquisa sobre os problemas da atenção na contemporaneidade, como uma crise generalizada causada por uma existência altamente mediada pelas tecnologias de comunicação. Uma perspectiva um tanto quanto imprecisa e depreciativa, como se o indivíduo só fosse capaz de perceber os objetos e o ambiente caso recebesse muitos estímulos. Em suas palavras, o ambiente tecnológico em constante mudança geraria a necessidade de cada vez mais estimulação.

Obviamente, Crawford coloca o uso das telas como distratores, desvios de campo gravitacional de nossa atenção. Realmente, as telas possuem o maior número de lúmens (unidades de luz antes denominadas candelas), atraindo nosso olhar como as lâmpadas atraem mariposas. Observe como nosso olhar é automaticamente desviado para a tela de um telefone acesso. Por esse motivo existe a preocupação de como estaria roubando a atenção dos indivíduos, afinal, a atenção é o elemento de que dispomos para reter conhecimentos e determinar nossos focos de interesse na vida. Mas não podemos nos concentrar em todas as coisas, nossa atenção tem limites. Experimente parar de ler esse texto e preste atenção a todos os estímulos do seu ambiente como a paisagem, os sons, se você estava se dedicando a outra tarefa simultânea. Quais destes estímulos você estava concentrado?

O ato de se concentrar em um único estímulo se tornou um objeto tão importante de discussão que na lista das habilidades requeridas para os profissionais até 2025 está o hiperfoco. Um estado mental atingido quando uma tarefa, um projeto ou um objeto preenche totalmente seu espaço atencional e você não repara em mais nada ao seu redor. O estado das crianças jogando.

Nos dias atuais, a concentração focada é algo difícil de se alcançar, principalmente para atividades que prescindem dela, como a leitura. É admirável observar uma pessoa se esforçando para ler no metrô enquanto outra ao seu lado parece completamente absorvida, sem esforço algum, por um rolar de tela interminável.

As telas conseguem, por questões estéticas, técnicas e materiais, condicionar nossa atenção (ou seria distração?) a partir de sistemas integrados que oferecem condições de seguirmos nosso cotidiano ordinário. Isso não é necessariamente algo negativo, ao contrário. Se conseguirmos equilibrar nossas atividades reais no mundo de odores e cores que nos circunda, com as atividades virtuais no universo expandido sem limites, teremos encontrado “a justa medida” da filosofia “nada em excesso”.

Se existe um perigo das telas e do mundo tecnologizado é o próprio indivíduo que não usa a informação e a sabedoria a seu favor. Privar as crianças das telas não é inteligente, afinal vai ser pelas telas que a vida futura vai continuar acontecendo. Elas devem ser instruídas para a vida digital como são para a vida real: cientes dos perigos, artimanhas e delitos reconhecíveis nos dois ambientes. Elas precisam de orientação sobre o consumo de conteúdo digital e de exemplos. Se os adultos não são capazes de abaixar o telefone quando são interpelados por elas, como vamos cobrar delas o uso equilibrado?

O problema sou eu, você, todos os indivíduos docilmente condicionados. Não as telas ou tecnologias digitais. Não precisamos voltar no tempo “quando era melhor”. Não é necessário proibir seu uso pelas crianças. A dica é educar para a vida em telas. Esse sim, é o desafio.

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