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Opinião

Curvar à ciência

Tradicionalmente distantes do glamour do mercado publicitário, agências de health ganham protagonismo com a valorização da saúde, bem-estar e qualidade de vida


11 de maio de 2020 - 13h46

(Crédito: iStock)

Os cuidados do público em melhor administrar a saúde e investir em ações de bem-estar e qualidade de vida eram tendências ascendentes em todo o mundo antes da Covid-19. Movimento natural da evolução da humanidade, nutrido pela maior disseminação de conhecimento e, especialmente, pelo avanço da ciência. A atual pandemia reforça essas preocupações: apesar de as ações governamentais e empresariais serem fundamentais neste momento, na ponta final do combate ao novo coronavírus estão, muitas vezes, decisões pessoais de se resguardar — evidentemente, há muitos que não têm essa opção.

A maior atenção à saúde pessoal e ao estilo de vida é uma das consequências observadas neste momento na população asiática por David Tang, CEO da DDB Asia, que está sediado em Singapura e na semana passada participou de webinar promovido pelo Grupo ABC com executivos do mercado brasileiro. Não só a publicidade, mas diversas outras atividades olham com atenção para a primeira região do mundo afetada pela Covid-19 buscando caminhos para o combate à doença e às consequências por ela impostas à sociedade e à economia.

Apesar disso, Tang fez questão de avisar que “a Ásia não está no futuro”. Para ele, a pandemia é um problema real a ser enfrentado por todos os países do globo. Especificamente para a indústria de comunicação, destacou a acelerada adesão aos serviços digitais e a visível vantagem competitiva das marcas menos egoístas, que souberem traduzir com autenticidade seus valores em ações voltadas para a sociedade no combate à disseminação do vírus e ao tratamento dos doentes. Entre os segmentos de potencial crescimento na retomada, listou os de saúde, higiene, alimentação, esportes e cuidados com o corpo. Empresas e marcas neles atuantes integram o setor de healthcare, que é um oásis nos balanços financeiros do primeiro trimestre dos grupos globais de publicidade.

As agências especializadas em health ganharam relevância e reconhecimento nos últimos anos, mas nunca estiveram tão próximas do centro de atenções da indústria como agora. Elas estão mais próximas das especificidades técnicas do que da subjetividade, da razão do que da intuição, das descobertas da ciência doque do glamour que maquia o mercado publicitário — e, mesmo nesse quesito, conquistaram espaços importantes, como nos festivais internacionais. Outra característica é o convívio com a adversidade na busca por criatividade, já que a atividade é cerceada por uma infinidade de regras e imposições legais.

Como as agências de health lidam com a maior procura por suas especialidades, com mudanças em questões regulatórias e com a infodemia das fake news são os temas aos quais se dedicou nas últimas semanas a repórter Isabella Lessa, que assina a reportagem que está nas páginas 14 e 15 e ganhou o destaque principal na capa da edição impressa desta semana, que você pode acessar pelo Acervo Meio & Mensagem. Guiada pela tríade responsabilidade, adaptabilidade e clareza, a comunicação healthcare inspira conceitos e mensagens publicitárias inclusive de anunciantes e marcas de fora do segmento — é a chamada “healthification”, já ascendente antes da Covid-19 e agora ainda mais intensa.

As habilidades de agências e profissionais especializados em health, como a capacidade de transformar linguagem científica em comunicação criativa e acessível, e o esforço em mudar o foco das abordagens do puramente funcional para os benefícios coletivos, tendem a ser mais valorizadas no mundo pós-pandemia, quando teremos de conviver com efeitos decorrentes das mudanças compulsórias no comportamento social. Alguns dos focos de atenção que já se anunciam são temas com os quais esse setor da indústria está mais bem familiarizado, como a obesidade causada pela diminuição nas atividades físicas, os efeitos na qualidade de vida provocados pela recessão econômica global e os traumas que abalam a saúde mental.

Entre as poucas certezas que temos estão a de que há muito trabalho pela frente e a de que a ciência, a empatia, a tecnologia e a comunicação nos ajudarão nesse caminhar cauteloso.

*Crédito da foto no topo: iStock

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