O que o Brasil perde quando mulheres mães saem do mercado de trabalho

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Opinião

O que o Brasil perde quando mulheres mães saem do mercado de trabalho

Estudo inédito do MADE-USP revela os custos para os diferentes perfis de mulheres brasileiras

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14 de junho de 2024 - 6h00

Que a maternidade se apresenta como um dos maiores obstáculos para o acesso ao trabalho e renda das mulheres na atualidade não é novidade. Claudia Goldin, ganhadora do Nobel de Economia de 2023 comprovou a #PenalidadePeloMaternidade, ou seja, o impacto negativo enorme que a decisão de ter filhos tem na carreira das mulheres (e o estudo em 134 países também comprovou o impacto quase nulo na carreira dos homens após terem filhos). Demissões após licença, desigualdade salarial e enormes dificuldades na conciliação entre cuidado e trabalho produtivo já são temas antigos e vivido por mulheres nos quatro cantos do país. No entanto, os prejuízos dessa dinâmica desigual se revelavam apenas no âmbito individual de cada mulher. Uma nova abordagem metodológica do MADE (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made – FEA-USP) propõe um olhar para os prejuízos econômicos que essa dinâmica gera.

A partir de estudos prévios e uma abordagem inovadora dos dados da PNADc – 2022, o instituto observou as seguintes configurações:
– domicílios com crianças de até 2 anos, com crianças de 2 a 5 anos
– domicílios com crianças entre 5 e 12 anos
– domicílios sem crianças menores de 12 anos.
– Também foram consideradas famílias monoparentais e biparentais.
Sem dados representativos dos casais homoafetivos na PNADc, o estudo não pôde considerar famílias de casais homoafetivos, focando então na dinâmica da desigualdade entre homens e mulheres.

O que dizem os achados:

Temos quase 7 milhões de mulheres negras e 4,3 milhões de mulheres brancas fora do mercado de trabalho. Nessa conta toda, os homens representam apenas 5% entre os que saem de postos formais para cuidar dos filhos, da família ou dos afazeres domésticos, conforme o gráfico abaixo.

Sem grande esforço, é possível identificar quais são as mulheres mais afetadas pelo problema: as negras e pobres. As estruturas econômicas do Brasil – notadamente machistas e racistas – limitam oportunidades e jogam essas mulheres para o mercado informal, sem acesso a direitos básicos como licença maternidade ou paternidade. Os números mostram que, hoje, cerca de 40% dos trabalhadores estão em postos informais, enquanto entre as mulheres pretas e pardas, o índice chega a 46,8%.

Outra desigualdade persistente é que, mesmo estudando mais (mulheres são a maioria dos alunos nas universidades e pós-graduações) e se dedicando ao trabalho de cuidado, mulheres ganham cerca de 20% a menos que os homens, segundo relatório do Governo Federal que reuniu informações de quase 50 mil empresas. Já a renda das mães solo fica em torno de 39% abaixo quando comparada a dos homens casados e com filhos (FGV).

Outro achado importante: a economia cresce, as mulheres assumem a dianteira nas estatísticas de provedoras financeiras dos lares, mas a carga de trabalho não remunerado é invariável. Entre 2016 e 2022, mulheres (especialmente as negras) realizam mais que o dobro de horas de trabalho de cuidado, sem ter nenhum tipo de reconhecimento ou remuneração. Trata-se de um problema que acentua as desigualdades de gênero em nosso país em virtude da pobreza material e de tempo, que aprisiona mulheres e meninas em ciclos de pobreza e exploração. Um verdadeiro interdito ao acesso ao crescimento econômico e o direito à prosperidade.

O custo não é das mulheres. É de toda a sociedade.

Na mesma semana em que vemos o preço que as mulheres pagam com suas carreiras e autonomia financeira quando se tornam mães, vemos os economistas celebrando o aumento de 0,8% do PIB neste primeiro trimestre (impulsionado pelo setor de serviços — onde a maioria também são mulheres).

Esse mesmo Brasil que, por um lado, celebra seu crescimento e por outro exclui mulheres da força de trabalho, está envelhecendo. O IBGE estima que até 2030 (amanhã!), seremos o quinto país com mais idosos do mundo. Quem irá cuidar de todas essas pessoas? Qual será o impacto na economia com ainda mais mulheres deixando a força de trabalho para cuidar de familiares? Quanto o PIB brasileiro cresceria (e a produtividade do país, que é ainda mais importante), se todas essas mulheres pudessem ter acesso a trabalho e autonomia financeira fora do ambiente doméstico, enquanto têm seu direito a cuidarem e serem cuidadas respeitado?

Viver em um país onde o trabalho reprodutivo não é dividido igualmente entre todos os atores da sociedade é viver em retrocesso constante. Mulheres são individualmente forçadas a deixar a força de trabalho. Mas o prejuízo é de toda a sociedade.

É por isso que, nos últimos anos, temos repetido incansavelmente: só existirá um Brasil justo, produtivo e sustentável quando existir reconhecimento, redistribuição e valorização ao trabalho de cuidado. E isso só acontecerá colocando-o no centro das decisões corporativas e das políticas públicas.

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