Economia do cuidado: visibilidade e apoio às mulheres que empreendem

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Opinião

Economia do cuidado: visibilidade e apoio às mulheres que empreendem

Brasil ocupa a 7ª posição com o maior número de empreendedoras no mundo, mas ainda está distante de solucionar estruturas socioeconômicas e culturais


21 de novembro de 2023 - 11h37

(Crédito: Mary Long/Shutterstock)

Voltemos ao passado para lembrar do provérbio proferido pelo imperador Júlio César à sua segunda esposa, Pompéia: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”.  Cerca de 2.083 anos depois, infelizmente a frase hoje seria: “Não basta a mulher ser empreendedora, ela deve parecer uma empreendedora”. Isso para falar do mínimo exigido por uma estrutura sociocultural que ainda rebaixa a figura da empresária e ressalta a do empresário.

Em agosto deste ano, 10,3 milhões de mulheres estavam ocupando a posição de donas dos seus próprios negócios, a maioria advinda das classes C, D e E, segundo mostrou pesquisa feita pelo Sebrae, com base nos dados do IBGE. Porém, um dado que não é mensurado nas pesquisas é o quanto a economia do cuidado por impactar e, até barrar, o sonho de empreender.  A mulher cuida da casa, dos filhos, dos pais idosos e, ao mesmo tempo, cuida da empresa. Esse é um entre tantos desafios que as mulheres assumem na liderança de uma empresa.

Na América Latina, a dupla jornada é sentida e comprovada no número de horas que as mulheres empreendedoras dedicam aos afazeres do lar, sendo três vezes mais em comparação aos homens. No Brasil, por exemplo, na soma de horas com atividades remuneradas e não remuneradas, as mulheres trabalham cerca de 53,3 horas por semana, enquanto os homens trabalham aproximadamente 49,7 horas semanais, de acordo com o Boletim de Mercado: Empreendedorismo Feminino, lançado pelo Sebrae em março deste ano.

Curiosamente e providencialmente, o tema da redação do ENEM deste ano foi sobre os “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. A mulher, além de tocar a gestão da empresa, cuida da organização da casa, dos filhos, do parceiro, dos pais doentes e idosos para, depois, cuidar dela e do negócio. Em 2022, mulheres dedicaram 9,6 horas por semana a mais do que os homens aos afazeres domésticos ou ao cuidado de pessoas, de acordo com o PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.  A verdade é que a mulher está cansada, e parece que ninguém vê isso.

Muitas vezes, está passando por um burnout, mas não é porque é multitarefas, multidisciplinar. Ela precisa sim de apoio. Já o homem faz tudo por etapa, por caixinha. Nós não, fazemos tudo ao mesmo tempo, e isso sobrecarrega muito. Sempre digo nas mentorias que precisamos aprender a gerir o tempo e dividir em: urgente, importante e circunstancial. Devemos nos fazer essa pergunta todo dia: “Dá para fazer? Ótimo! Não dá, ok também!”. Saber dizer NÃO é libertador.

A empreendedora, que também é mãe, não precisa e não deve carregar o mundo nas costas. Sabemos que, sem uma rede de apoio por perto, isso tende a corroer a mulher com o tempo, levando-a ao adoecimento muito rápido. Somos 30 milhões de empreendedoras no país. Porém, sempre digo que o parceiro é fundamental nesse processo, um bom ou mau parceiro influencia diretamente no sucesso da mulher. Muitos parceiros desencorajam as mulheres de empreender e dizem “mas para que você vai arrumar sarna para se coçar? Fique e cuide dos seus filhos, da casa e eu trabalho”.

Porém, há muitas mulheres que querem servir o mundo pelo seu ofício, então, é importante ter parceiros que fiquem com os filhos, ajudem e sejam suporte. Já entrevistei mais de 500 mulheres para participar dos meus livros e notei que, quando a profissional tem um parceiro bom, que seja um conselheiro, que a ajude a cuidar da economia do trabalho, ela explode, voa e tem sucesso. As maiores empresárias de sucesso têm parceiros incríveis, isso é real.

Campanhas de comunicação

Uma boa notícia parece dar luz ao ressaltar a importância do empreendedorismo feminino na sociedade. O Governo Federal sancionou, em setembro, a Lei 14.667, que institui a Semana Nacional do Empreendedorismo Feminino. Precisa sim ser celebrada, porém empreendedoras continuam a enfrentar os desafios estruturais e históricos de desigualdade de gênero, raça e renda. O clamor é único e uníssono: é preciso dar visibilidade e garantir mais investimento às empresas fundadas por mulheres. Empreender permite liberdade geográfica, econômica, cognitiva, filosófica e de atitude, mas, para isso, precisa sair do papel e ir além da data comemorativa. No calendário brasileiro, o Governo Federal está promovendo diversas campanhas que dão força à lei recém-promulgada.

No âmbito federal, um exemplo é o projeto de lei do Programa Crédito da Mulher, que foi aprovado em março deste ano pela Câmara dos Deputados. O projeto estabelece um percentual mínimo de recursos financeiros, dentro dos programas oficiais de crédito, às empresas comandadas por mulheres. No início de agosto, o projeto, que também determina ainda taxas reduzidas de juros para empreendedoras, foi aprovado pela Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado. Agora, o texto segue para votação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Casa. Se virar Lei, a iniciativa altera o Programa Nacional de Microcrédito Produtivo Orientado (PNMPO) para dar prioridade para as micros e pequenas empresas conduzidas por mulheres.

Afroempreendedorismo e programas de educação e incentivo financeiro

Além do preconceito de gênero, o racismo é outra barreira que mulheres negras vivenciam ao abrir um negócio. Se muitas vezes não é possível exemplificar em palavras, recorremos aos números do Sebrae: a renda média das empreendedoras negras no Brasil é de R$ 1.539, e das empreendedoras brancas é de R$ 2.305. A renda média mensal de empreendedoras negras é 34% inferior ao rendimento médio mensal das empreendedoras brancas, e 44% inferior à renda dos homens brancos.

Ao todo, entre quase 10 milhões de empreendedoras no país, 4,7% são negras. Essa disparidade de gênero e raça é evidente também nas oportunidades de obtenção de crédito, pois as mulheres negras têm mais dificuldade de conseguir investimento. Para superar esses e outros desafios particulares às empreendedoras(es) negras (os) no país, desde 2017 o Movimento Black Money, um hub digital, fomenta um ecossistema de inovação, investimento e visibilidade cada vez maior e mais consistente para os afroempreendedores.

Todas essas iniciativas são importantes para o crescimento do empreendedorismo feminino. A Semana Nacional do Empreendedorismo Feminino, sem dúvida, ajuda a dar visibilidade ao trabalho das empreendedoras, porém o aumento de programas e ações de educação e de incentivo financeiro são mais importantes para as mulheres no momento. Definitivamente, ter liberdade e autonomia financeira não irá resolver todos os problemas estruturais e históricos que as mulheres vivenciam no dia a dia, mas para uma empresária isso significa encarar os desafios com mais autoestima, sabendo que o seu papel na sociedade tem valor.

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