Juliana Oliveira, CEO da Oliver Press, e a química entre diversidade e inovação 

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Juliana Oliveira, CEO da Oliver Press, e a química entre diversidade e inovação 

A jornalista lidera uma agência exclusivamente feminina especializada em startups, tecnologia e inclusão 


23 de outubro de 2023 - 14h17

Juliana Oliveira é fundadora e CEO da Oliver Press, agência de comunicação especializada em inovação e diversidade (Crédito: Divulgação)

Juliana Oliveira é da geração de mulheres pretas que decidiu se tornar jornalista após assistir a Glória Maria viajando pelo mundo. De início, ela não se imaginava fazendo outra coisa a não ser jornalismo, mas a assessoria de imprensa logo roubou seu coração. Hoje, Juliana é CEO e fundadora da Oliver Press, agência de comunicação especializada em inovação e diversidade. 

Recentemente, recebeu o prêmio Troféu Mulher Imprensa 2023, na categoria Agência de Comunicação, e, no discurso de premiada, destacou a importância de contar histórias a partir da perspectiva das mulheres e de representar um Brasil diverso e autêntico. 

Nesta entrevista, Juliana Oliveira conta como surgiu a Oliver Press e como uma equipe composta apenas por mulheres se tornou parte do seu propósito. A CEO também reflete sobre a transformação que a comunicação e a gestão de equipes sofreram durante a pandemia, e como a agência conseguiu se expandir durante o período. 

Conte sobre sua trajetória profissional. 

Sou jornalista com 17 anos de experiência. Iniciei minha carreira em sites e revistas de tecnologia da informação, migrando para assessoria de imprensa após três anos. Acompanhei o surgimento do comércio eletrônico no Brasil e o movimento dos empreendedores, especialmente no cenário das startups. Fui responsável por lançar na imprensa alguns aplicativos que, naquela época, foram vistos com muito receio, como a Easy Taxi e o Hellofood, bem antes da Uber e do Ifood existirem.  

Minha trajetória inclui diversas funções em agências de comunicação, mas, em 2015, após um burnout, decidi empreender. Abri a Oliver Press com apenas R$ 500 reais, transformando-a numa agência especializada em startup e inovação. Desde o início, minha visão era ter mulheres na liderança, protagonizando discussões sobre diversos temas, desde inteligência artificial e venture capital até moda e beleza. 

Quais desafios você enfrentou nesse processo de empreender? 

Empreender para mim é uma jornada de altos e baixos. Cada novo cliente traz desafios únicos: investir em plataformas de e-mails para um, segurança para outro, computadores para um terceiro. À medida que a empresa cresce, surgem novos desafios. Hoje, minha equipe tem quase 45 mulheres e a gestão tornou-se uma prioridade. 

Empreender exige resiliência. Todos os dias enfrentamos notícias boas e ruins, mas o propósito é o que nos mantém firmes. Meu objetivo com a Oliver Press é claro: quero que a imprensa compreenda a importância da diversidade na comunicação, tanto em termos de profissionais quanto de estratégia. Internamente, quero proporcionar um ambiente seguro e inclusivo para as mulheres, onde elas possam expressar suas opiniões livremente. 

Queremos deixar um legado, mostrando que agências boutique também podem operar com profissionalismo e dedicação. É desafiador, mas empreender com um propósito genuíno é o que me impulsiona. A liberdade de criar algo alinhado com minhas crenças e valores é o que torna essa jornada incrível. 

Nesses oito anos de Oliver Press, quais transformações a comunicação sofreu e como vocês se adaptaram? 

Durante a pandemia, experimentamos uma aceleração significativa na digitalização. Algo previsto para acontecer em dez anos foi concretizado em apenas dois. Para a Oliver Press, esse período também representou um momento crucial de expansão. Em março de 2020, tínhamos 12 colaboradoras. Até dezembro do mesmo ano, esse número cresceu para 27. Por quê? Porque estávamos operando em duas áreas vitais e em alta demanda: digitalização e diversidade. 

As startups, mesmo durante a pandemia, continuaram a florescer. Elas perceberam que a assessoria de imprensa era um caminho orgânico para alcançar o consumidor final. Além disso, vivemos um momento em que a diversidade e a inclusão viraram pontos cruciais nas agendas das empresas, especialmente após eventos significativos como o assassinato de George Floyd e a tragédia de João Alberto no Brasil. 

A Oliver Press estava na interseção desses dois movimentos. Crescemos como uma das maiores agências focadas em diversidade no Brasil. Participamos ativamente dos diálogos sobre a inclusão de grupos minorizados nos conselhos das empresas. Também lançamos iniciativas inovadoras, como a primeira imersão antirracista em comunicação, promovida em parceria com a PretaHub, que consiste numa caminhada pela história negra do centro de São Paulo para alguns jornalistas convidados. 

Além disso, as agências tiveram que se adaptar rapidamente às mudanças tecnológicas. A tecnologia nos ajudou a ajustar nossos discursos e a preparar nossos porta-vozes para as crises, cada vez mais frequentes e imediatas no ambiente digital. 

Gerenciar uma equipe também se transformou completamente. Passamos de um modelo presencial para um ambiente de trabalho remoto. A diversidade de profissionais, tanto em idade quanto em origem, virou uma riqueza para nossa empresa. Todos esses desafios e transformações foram impulsionados pela pandemia, mas nos permitiram crescer, aprender e evoluir rapidamente. 

Vocês têm uma equipe inteiramente feminina. Foi intencional? Como é trabalhar com um time só de mulheres? 

É incrível. Inicialmente, a ideia era ter uma liderança composta exclusivamente por mulheres na agência. No entanto, à medida que contratávamos mais pessoas, nossa equipe acabou ficando completamente feminina. Isso se transformou em um propósito genuíno para a Oliver Press e rompeu com o estigma de que mulheres não ajudam outras mulheres, ou que são competitivas entre si.  

Após oito anos de experiência, posso dizer que isso deu muito certo. Nunca enfrentamos problemas com nossos clientes, mesmo na área de tecnologia e negócios. A Oliver Press foi criada para falar sobre esses temas pela perspectiva feminina. Quando trabalhava com inovação, percebia a falta de mulheres nesse campo, especialmente de mulheres negras. Isso me motivou a criar uma agência onde profissionais femininas de diversas origens étnicas pudessem se destacar. E, adivinha? A régua continua alta, não importa o gênero ou a etnia de quem está na equipe. O resultado final é sempre o mesmo: excelência e profissionalismo. 

Como você descreveria seu estilo de liderança? 

A evolução da minha liderança tem sido um processo de aprendizado contínuo. Além de contar com uma consultoria em Recursos Humanos e de ter mentores, dediquei-me intensamente aos estudos. A base fundamental desse crescimento foi o desenvolvimento da inteligência emocional. Essa capacidade me proporcionou um norte para liderar de maneira ambidestra, ou seja, equilibrar a gestão de profissionais experientes com os recém-chegados, muitas vezes apenas interagindo por meio de telas de computador. 

Compreendi a importância de entender as realidades de cada indivíduo, reconhecendo que cada pessoa tem sua própria trajetória e ritmo. Uma parte significativa do meu desenvolvimento foi ouvir atentamente as vozes da Oliver Press. Em um exercício de análise SWOT, escutei as opiniões das funcionárias sobre as fraquezas, oportunidades, pontos fortes e áreas de melhoria da empresa. A partir dessas contribuições, ajustei nossa estratégia e implementamos mudanças. 

Introduzi iniciativas como o “Café com CEOs”, onde escuto as preocupações e ideias dos clientes. Estabeleci programas de desenvolvimento de liderança e de carreira, para identificar e cultivar talentos internos. Adotei práticas para promover a saúde mental das colaboradoras, incluindo uma pesquisa de bem-estar psicológico e a criação de canais de denúncia de assédio. Além disso, incentivamos a diversidade por meio de programas de estágio voltados principalmente para mulheres negras. 

Estou empenhada em tornar a Oliver Press um ambiente onde as pessoas se sintam valorizadas, ouvidas e seguras. Essas práticas não apenas moldaram a cultura da nossa empresa, como também fortaleceram nossas relações com os clientes. 

Por fim, indique três filmes, livros ou séries sobre comunicação que você considera essenciais para um profissional da comunicação. 

Tem um podcast que adoro, o Projeto Querino, que dá uma visão única e necessária do Brasil. Quanto à literatura, gosto do livro “Minha História”, da ex-primeira-dama Michelle Obama, que é uma fonte inspiradora para mim.  

No contexto do empreendedorismo, há uma série que admiro muito, sobre a Madame C.J. Walker. A produção conta a história da primeira mulher negra a criar uma empresa de cosméticos voltada para a população negra. A jornada dela é incrível, e me identifico muito com sua determinação, porque enfrentou muitos obstáculos até provar seu valor. 

Quando falamos de diversidade de olhares na comunicação, acho essencial sair da nossa bolha e explorar diferentes perspectivas. Recomendo ler obras de autoras como Sílvia Almeida e Conceição Evaristo. Essas leituras oferecem uma visão genuína e rica do Brasil que muitas vezes não é mostrada na mídia convencional.  

É importante entender a realidade do nosso país, especialmente os profissionais de comunicação, sejam da publicidade, da redação ou da assessoria de imprensa. Ao compreender a diversidade de experiências dos brasileiros, com olhar racializado, podemos contar histórias mais autênticas e impactantes. 

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