Marianna Souza, a força da equidade nos bastidores do audiovisual 

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Marianna Souza, a força da equidade nos bastidores do audiovisual 

A presidente da Apro criou projetos que valorizam a diversidade na direção e combatem o assédio sexual no setor 


10 de janeiro de 2024 - 16h13

Marianna Souza é presidente da Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro) (Crédito: Divulgação)

Antes de ser uma das pioneiras a levantar a bandeira de gênero no mercado do audiovisual, Marianna Souza começou sua carreira com a formação em relações internacionais. Nascida e criada em Brasília, iniciou como estagiária na Apex, agência de promoção às exportações e investimentos do governo brasileiro, onde dava suporte na coordenação de programas ligados aos setores do audiovisual, música, franchising, artes plásticas, editorial e outros. Em 2007, a mudança para São Paulo a levou para a coordenação de projetos institucionais da Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais (Apro). Hoje, Marianna está à frente da entidade e do projeto Filmbrazil, cuidando de toda a cadeia produtiva do audiovisual publicitário e promovendo os talentos e serviços nacionais dessa indústria lá fora.

Em toda sua trajetória, a executiva esteve à frente de projetos importantes do audiovisual, em especial na promoção da equidade de gênero e diversidade. Foi ela quem trouxe ao Brasil o movimento internacional Free the Bid, iniciado em 2017 nos Estados Unidos por Alma Horrell, diretora israelense. Desde então, Marianna tem sido uma figura-chave na promoção das diretoras brasileiras no cenário global. 

“No início, o Free the Bid visava garantir a presença de pelo menos uma mulher em concorrências publicitárias, desafiando o ciclo vicioso que excluía as diretoras por falta de experiência em segmentos específicos”, relata. O movimento evoluiu para o Free the Work, abrangendo a promoção da diversidade em todas as formas, incluindo outros grupos sub-representados como pessoas negras, a comunidade LGBTQIAP+ e pessoas com deficiência.  

Marianna lidera o movimento no Brasil ao lado de outras diretoras e, em 2021, a Apro firmou um acordo de cooperação técnica com a ONU Mulheres para estender seus esforços ao programa Aliança Sem Estereótipos. O objetivo é não apenas mudar a representação nas telas, mas também nos bastidores, desafiando a predominância masculina em posições-chave no universo audiovisual. 

Apesar dos avanços, a presidente destaca que ainda há um caminho longo para alcançarmos a equidade no setor. “Infelizmente, os dados da pesquisa da Ancine divulgados este ano (2023) confirmam nossas preocupações. Ao analisar a presença de mulheres na produção audiovisual, especificamente em cinema e conteúdos para TV, os números são desanimadores. Não houve progresso significativo; permanecemos estagnados em torno dos 20%. Em alguns casos, como na direção de cinema, a participação das mulheres até diminuiu, caindo para 19%”, relata. 

Especificamente no cinema e TV, a presença feminina segue restrita em conteúdos como documentários e reality shows. Em contraste, elas ainda estão sub-representadas à frente de projetos de ficção. “Há também a dificuldade adicional de conseguir financiamento para projetos mais ambiciosos. Embora haja mais diretoras do que antes, elas ainda lutam para obter reconhecimento e oportunidades significativas”, complementa. 

Contudo, os pequenos avanços também precisam ser celebrados. Anualmente, a iniciativa do Free the Work conduz uma pesquisa com as participantes da comunidade. Em sua última edição, o estudo destacou resultados animadores. “É encorajador ver que apenas 15% delas se sentem limitadas a trabalhos relacionados a causas sociais, em comparação com os 27% de pesquisas anteriores. Isso mostra um progresso gradual”, avalia. 

Paralelamente ao seu trabalho no Free the Work, Marianna fundou em 2017 o “Corta! – Movimento Contra o Assédio na Indústria Audiovisual”, visando combater o assédio sexual e criar ambientes de trabalho mais saudáveis. “O movimento surgiu como resposta a uma provocação feita pela roteirista Antonia Pellegrino, que nos alertou sobre situações de assédio que aconteciam dentro da Globo”, relata.  

Assim, a iniciativa lançou uma cartilha que delineava os marcos legais e como lidar com uma situação de assédio sexual, além de outros materiais informativos que destacavam os direitos e deveres relacionados à questão. Com o amadurecimento do projeto, novas diretrizes foram incluídas, como cláusulas antiassédio em contratos e até mesmo um organismo externo para avaliar denúncias. Dessa forma, o Corta estabeleceu uma parceria com o Me Too Brasil para ampliar suas ações e promover um ambiente de trabalho mais saudável. 

O caminho à frente

 “O movimento Free the Bid e o Free the Work desempenharam um papel crucial ao criar uma demanda por diretoras na indústria, algo que não existia anteriormente. Hoje, as produtoras que não têm diretoras em seu portfólio são descartadas, porque isso já não é mais aceitável”, avalia Marianna. Mesmo com a maior oferta de diretoras mulheres, ainda existem desafios consideráveis para avançarmos. 

“Estamos no estágio de tentar alçar voos mais ambiciosos para essas diretoras”, afirma. Isso inclui oferecer espaço em projetos maiores, com grandes orçamentos e de gêneros em que as mulheres são sistematicamente excluídas, como projetos de ficção, no caso do cinema e TV, e filmes de carros e bebidas, no caso da publicidade. 

O apoio das grandes marcas e agências é fundamental nesse processo. É preciso superar o medo de arriscar devido à pressão por resultados. “Às vezes, as mulheres podem não ter um determinado produto em seu histórico, mas ainda assim são capazes de criar trabalhos tão bons quanto”, destaca. 

A presidente ainda ressalta que o diferencial de uma mulher diretora não pode ser reduzido a uma questão de “sensibilidade”: trata-se da capacidade de conexão com o público-alvo. “Utilizar a perspectiva feminina pode ser valioso, não porque as mulheres são inerentemente mais sensíveis, mas porque é fundamental representar de forma autêntica e precisa a experiência do público-alvo”, reforça. 

Além de alavancar iniciativas como o Free the Work e o Corta, Marianna também movimenta as pautas sociais dentro da Apro. Projetos como “Novos Olhares da Publicidade”, em parceria com o Instituto Criar, são exemplos desse esforço. O Instituto Criar de TV, Cinema e Novas Mídias tem como objetivo capacitar jovens na indústria audiovisual. Já o programa Novos Olhares funciona como um curso de extensão para os alunos que concluem o curso no Criar, aprofundando em processos mais técnicos e específicos da dinâmica do audiovisual publicitário.  

Ainda na agenda ESG, a Apro desenvolveu uma cartilha de governança em parceria com a Associação dos Anunciantes (ABBA). A iniciativa visa promover práticas éticas e transparentes nos processos de contratação de serviços de produção publicitária. “Acreditamos que a transparência e a ética são fundamentais para estabelecer relações sólidas e bem-sucedidas na indústria”, ressalta a presidente. 

Mariana Souza emerge como uma líder inspiradora, dedicada não apenas em quebrar barreiras de gênero na indústria audiovisual, mas também a promover uma mudança abrangente, sustentável e ética. Sua trajetória e esforços representam um impulso significativo em direção a uma indústria audiovisual mais diversificada, igualitária e inclusiva. 

As “explosões” de carreiras femininas no mercado audiovisual são menos frequentes do que a dos homens, e muitas vezes elas demoram a acontecer. As diretoras vivem em um constante limiar entre o desejo de trabalhar em projetos com orçamentos significativos e a necessidade de construir um portfólio com grandes orçamentos. As oportunidades são mais limitadas para as profissionais nesse contexto, reflexo de uma indústria quase clubista, que oferece trabalhos sempre para os indivíduos da mesma cor e do mesmo gênero. 

As poucas que conseguem alavancar suas carreiras pelas frestas que surgem tiveram que batalhar muito para conquistar o espaço que têm. Seja atrás das câmeras ou na gestão, elas sabem que estão em cadeiras de privilégio, e, justamente por isso, usam esse privilégio para escancarar a porta do mercado audiovisual. 

Esta matéria faz parte da série “A lente criativa das mulheres”, que irá trazer histórias de profissionais que, apesar de ocuparem diferentes posições, compartilham o mesmo propósito: promover o talento feminino no audiovisual brasileiro.

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