Opinião

O desafio da empatia

Liderar com empatia é admitir que estamos em uma sociedade doente e que só vamos sair dela se aprendermos a nos reconhecer humanos

Carol Escorel

Vice-presidente de negócios da AlmapBBDO 28 de agosto de 2025 - 8h40

(Crédito: Shutterstock)

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No evento do Women to Watch, ouvi a neurocientista Carla Tieppo falar sobre empatia. Saí de lá com uma pergunta na cabeça: como ser um líder empático em uma sociedade em que quase ninguém está dando conta de si mesmo?

Vivemos uma era paradoxal. Nunca se falou tanto em saúde mental, mas os índices de solidão, ansiedade e burnout só crescem. A Organização Mundial da Saúde aponta que a depressão e os transtornos de ansiedade custam à economia global cerca de US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade. No Brasil, uma pesquisa recente da Deloitte revelou que 82% dos trabalhadores se sentem exaustos, e quase metade já pensou em deixar o emprego atual por motivos de saúde mental.

Outro dado simbólico: um levantamento da Gallup mostrou que mais da metade das pessoas não tem um amigo próximo no trabalho, algo que, há 20 ou 30 anos, era praticamente o oposto. O ambiente profissional, que antes gerava pertencimento, virou, para muitos, apenas mais um lugar de passagem, um check-in obrigatório.

E é justamente neste cenário que se cobra dos líderes empatia. Mas como praticá-la quando a exaustão é coletiva? Quando cada um mal consegue administrar o próprio caos?

A empatia no trabalho não pode ser confundida com condescendência ou romantismo. Não é sobre abraços motivacionais ou frases de impacto em murais nas empresas. É sobre presença real, escuta ativa e responsabilidade compartilhada. É admitir vulnerabilidade, abrir espaço para conversas honestas e reconhecer que não há performance que se sustente sem cuidado humano.

Ser líder empático não significa resolver a vida dos outros. Significa reconhecer limites, inclusive os próprios. É ter coragem de dizer “não sei”, “não dou conta sozinho”, “vamos achar outro caminho juntos”.

Do ponto de vista de gênero, esse debate também é central. Pesquisas apontam que mulheres em cargos de liderança são vistas como mais empáticas e, muitas vezes, sobrecarregadas por isso. Espera-se delas uma “carga emocional” adicional — ouvir, acolher e mediar conflitos. Essa expectativa transforma empatia em fardo, especialmente em ambientes pouco estruturados para dividir responsabilidades. Ser empática não pode significar carregar o dobro de peso, precisa significar transformar a cultura para que todos assumam sua parcela de humanidade.

Tenho vivido isso de perto. Em um dos momentos mais intensos da minha carreira, percebo que meu papel não é ter todas as respostas, mas criar espaço para as perguntas serem feitas sem medo. Lembro de uma reunião em que, ao admitir que eu também estava sobrecarregada, abri a porta para que meu time se sentisse seguro em compartilhar suas próprias dificuldades. Foi um ponto de virada: passamos a dividir tarefas de forma mais justa, redefinir prazos e, sobretudo, nos apoiar mutuamente.

Exemplos práticos de empatia na liderança não estão em grandes gestos, mas em atitudes cotidianas: flexibilizar horários para quem atravessa um problema pessoal; respeitar o silêncio de alguém que não está pronto para falar; estimular pausas reais em culturas obcecadas por urgência; celebrar pequenas vitórias em meio a grandes pressões.

O mercado, no entanto, ainda insiste em uma lógica de produtividade infinita, como se pessoas fossem softwares sempre atualizáveis. O resultado é o oposto: lideranças esgotadas liderando times esgotados.

Talvez a maior provocação seja essa: a empatia de verdade só floresce quando paramos de fingir que está tudo bem. Porque não está. Liderar com empatia, hoje, é admitir que estamos todos atravessando uma sociedade doente e que só vamos sair dela se aprendermos a nos reconhecer humanos antes de nos reconhecermos profissionais.