O que Cannes escreve na gente
Entre anotações, conexões improváveis e ideias em suspensão, o que fica de Cannes quando acaba
O Festival de Cannes é um lugar onde até o calor parece ter pressa. A cabeça ferve, o sol castiga e a programação não dá trégua. Entre uma hidratação (sim, em Cannes também tem hydration break) e a corrida para o próximo auditório, começo a anotar frases. Algumas que ouvi num palco, outras que pipocam das conversas de corredor. Fotografo slides para lembrar depois. Escrevo palavras soltas, frases pela metade. Aquele caos organizado.
Uma das primeiras foi do Kevin Durant, no espaço da Amazon. Ele falava sobre esporte e o homem de negócios que virou. Em algum momento, quando perguntado sobre qual o segredo do sucesso, ele responde : “Being able to have the best team around.”A frase foi para as anotações porque esse é meu lema no audiovisual, os filmes incríveis que a gente ama e ganham os disputados Leões, são feitos sempre de muitos talentos, de ter o melhor time jogando junto. E acho que isso é igual em todas as áreas.
Entre um palco e outro, o festival continua acontecendo. Nos jardins, nas varandas, nesses espaços ocupados pelas marcas, onde as conversas as vezes seguem sem microfone e sem mediação. Foi em um desses encontros, no espaço da Spotify, que ouvi Anderson Paak falar sobre seu processo criativo. “I go with the flow, so it’s always different.” Me chamou a atenção não por ser nenhuma sacada genial, mas porque ela soava quase como um respiro. Em uma semana cheia de frameworks, metodologias e novas trends de IA, havia alguém dizendo simplesmente que cada processo encontra seu próprio caminho.
Segui anotando coisa ou outra: “Humans value more, not less.” “Return to human”. “Return to creativity”. “Copilot is your crew”.”You will be the judgment”. “Try to make your own voice.” Na hora anoto e elas se perdem entre um palco e outro, é tanta informação que a gente só segue rumo a próxima. Hoje fui buscar pra escrever esse texto e olhando para o notes, quase parece que estavam todas na mesma conversa.
A inteligência artificial estava por toda parte, claro. Era difícil encontrar um painel que não passasse por esse tema. Mas tive a impressão de que ela já não ocupava o centro da discussão. A conversa avançava rapidamente para outro lugar. Quem está na mesa? Quem faz as perguntas? Quem escolhe o caminho quando existem infinitas possibilidades? A frase sobre julgamento ficou ecoando mais do que eu imaginava. Talvez porque ela tire a criatividade daquele lugar romântico do insight genial e a aproxime das escolhas.
Escolher um caminho. Escolher uma ideia. Escolher o que deixar de fora. Outra anotação me levou para um slide que fotografei quase sem pensar – Everyone wants to be in culture. Logo abaixo vinha a frase que realmente me interessou – Being in culture isn’t just about chasing what’s trending. Durante a semana inteira ouvi a palavra cultura em apresentações, conversas e encontros. Não como sinônimo de tendência ou de assunto do momento, mas de repertório. De comunidade. De relações que se constroem ao longo do tempo. Talvez por isso outro slide colocasse Reputation bem no centro de um diagrama. Ao redor dela apareciam comunidade, influência, experiência, inovação, propósito. Outra anotação perdida no celular – “The value thing is trust.” Nem lembro quem disse. Mas lembro da sensação de que ela completava o desenho.
Voltei pensando que talvez Cannes tenha sido menos sobre respostas e, de novo, mais sobre encontros. O encontro entre tecnologia e pessoas. Entre quem vem do esporte, da música, quem trabalha com publicidade, entretenimento, dados ou cultura. Presente e futuro. Entre idéias que nasceram em auditórios e palcos das marcas e acabaram se encontrando no meu bloco de notas.