O que aprendemos em um ano de More Grls

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O que aprendemos em um ano de More Grls

Ninguém luta por uma causa que não participa porque ninguém é tão altruísta


3 de dezembro de 2019 - 12h29

(Crédito: Fokusiert/ iStock)

Não há como negar que o fato de Camila (Moletta, cofundadora da plataforma More Grls) e eu estarmos sentadas na cadeira da liderança faz toda diferença para a nossa causa. Além da influência, as conexões e facilidades de conseguirmos fornecedores e favores, outro fator importante é entender como as decisões são tomadas no board.

Estou há quase sete anos no cargo executivo dentro de agências. E isso é muito diferente de ser diretora de criação. Além do mundo das ideias e da gestão de pessoas, entra o mundo do planejamento, receita, folha, previsão de faturamento e todos os Qs, Q1, Q2… O criativo é jogado no mundo dos negócios de uma hora para outra, no dia da promoção, e passa a frequentar reuniões de board e faturamento sem o menor conhecimento prévio. Nós, criativos, somos muito mimados (mas isso é assunto para outro texto).

O fato é que, hoje, o negócio das agências não está essa maravilha toda. Perdemos relevância, respeito e, principalmente, verbas. Mas o que isso tem a ver com o More Grls e o ativismo? Tudo. Porque quando se está discutindo sobre o não fechamento da meta do mês, é difícil trazer atenção para o número baixo de mulheres na criação ou negros na liderança. As questões de diversidade ou, numa palavra melhor, conforme usada pela Gabi Rodrigues, da Soko, proporcionalidade, fica em segundo plano, pois, em primeiro lugar, o board está preocupado com a questão mais prioritária: sobreviver. Nenhuma outra questão passa na frente de salvar a própria pele.

Não quero que você que está lendo este texto chegue à conclusão precipitada de que enquanto as agências não estiverem de vento em popa, não vão pensar em equidade. O que quero colocar é que as questões de diversidade devem estar diretamente relacionadas à performance financeira.

E, para isso acontecer, precisamos engajar bem mais pessoas do que os ativistas e simpatizantes. Vamos precisar de todo o ecossistema que vai além das agências. Precisamos dos clientes. Um exemplo prático para ilustrar: as coisas vão acelerar quando os clientes não convidarem para as concorrências as agências que não tenham proporcionalidade ou que entenderem que o abuso das concorrências influencia, por exemplo, ter ou não mães na criação.

Nos últimos dias, fizemos uma roda na nossa dinâmica do “Furando a Bolha”, com diferentes públicos para definir diretrizes de equidade: liderança de agência, liderança de clientes, organizações da indústria, jornalistas e ativistas. Nosso foco era liderança. Convidamos os participantes a pensarem que deveríamos encontrar soluções que tornasse possível uma mulher negra chegar ao cargo de liderança. Foi importante fazer essa cocriação para chegarmos em coisas possíveis. Porque, só com ativistas, chegaríamos em uma lista ideal, que ninguém seguiria.

Foi superprodutivo ver os clientes (mesmo que poucos) tomarem consciência do impacto nessa mudança, assim como os jornalistas e organizações entendendo também o seu papel em divulgar e cobrar iniciativas, além dos líderes das agências perceberem que, mesmo tendo tantos problemas na frente, diversidade pode salvar o negócio.

E o que para nós ficou mais claro é que, sem envolver as pessoas-chave, todo nosso trabalho seria apenas um sonho. Outro aprendizado importante: para envolver todas as questões, não adianta impor suas crenças. É preciso ouvir, às vezes, como numa sessão terapêutica, e fazer com que cada um ache seu papel nessa história. Ninguém luta por uma causa que não participa. Ninguém é tão altruísta.

*Crédito da foto no topo:Reprodução

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