Ideias que duram

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Ideias que duram

A criatividade terá um papel essencial não apenas para as marcas, mas para a própria sociedade dentro deste capítulo desafiador de nosso processo evolutivo


13 de abril de 2020 - 10h38

Gas Mask Boy, do Banksy (Crédito: Reprodução)

– Por que essa criança está usando máscara?

A pergunta de Helena poderia ter sido feita hoje, motivada por novos hábitos que temos incorporado durante a pandemia do coronavírus. Na real, é dos tempos em que ainda saíamos todos os dias às ruas e podíamos até visitar outros países. Amsterdã, julho de 2019. Faz dez meses, de fato, mas a sensação é de que anos se passaram. A distorção na percepção de espaço e tempo deve ser um dos efeitos do confinamento. Quanto durou, por exemplo, a segunda quinzena de março, quando o home office virou default no nosso mercado? Aqui em casa, demorou mais
do que todos os outros 75 dias que vivemos antes em 2020, juntos. Juntos!

Voltemos ao foco (e aqui registro mais um efeito da quarentena na minha rotina: uma tendência ainda maior que a já habitual a divagar, independentemente do assunto). Expressa na linha que abre esse texto, a dúvida de minha filha era referente a uma obra de Banksy, Gas Mask Boy, exposta em mostra não autorizada do artista anônimo no Moco Museum. Antes de responder, dei um Google.

Encontrei um fórum de 2007 criado para debater a farta presença de máscaras de gás na arte de rua contemporânea. Havia interpretações figurativas e literais. A máscara seria um símbolo da representação governamental. Um artefato para manter-se isolado da decadência da civilização. Um item cotidiano para grafiteiros e pichadores, tanto para manter o anonimato quanto para evitar a toxicidade das tintas por meio das quais se expressam. Uma proteção contra uma atmosfera envenenada, após uma guerra química ou biológica. Sob todas as abordagens, e especialmente em uma analogia com essa última, o garoto em preto e branco cujo visor da máscara reflete um campo colorido de flores e céu azul, originalmente da década passada, poderia ser um ícone dos dilemas humanos na era da Covid-19.

Essa é a beleza dos artistas de vanguarda: vistos pelas luzes e dentro de contextos de diferentes épocas, seus clássicos permanecem atuais. Máscaras de gás continuam sendo um aparato cult no universo pop e seus territórios de adoração. Volta e meia, dão as caras na venerada La Casa de Papel, cuja quarta temporada entrou este mês no catálogo da Netflix. Aliás, assim como as fotos das viagens de férias, maratonas de séries têm sido um dos escapes favoritos para combater as fobias intrínsecas ao isolamento social. Emociono-me ao ver os generosos abraços dos romantizados bandidos que protagonizam a produção espanhola, e me arrependo da cerveja com os amigos cancelada por pura preguiça, na última hora, dias antes de cada um ir para o seu canto. Sinto falta das conversas cotidianas, corriqueiras e mesmo as banais e ordinárias. De ver a vida dos outros passando em frente aos meus olhos, ao vivo, in loco, a maior fonte de inspiração para quem é da área de comunicação e cujo ofício, no fim das contas, é gerar informação, engajamento, empatia.

Como nos manteremos criativos sem esse acesso real ao que acontece da nossa porta para fora, a mais valiosa ferramenta de nosso trabalho?

Ainda que a duras penas, vamos descobrindo, levantando a poeira e preparando a volta por cima. Além de diferencial fundamental de nossos negócios, como mostra a pesquisa com os principais CMOs do País, que deu origem à reportagem de capa da edição impressa de Meio & Mensagem, que circula nesta semana, a criatividade será essencial não apenas para as marcas, mas para a própria sociedade dentro deste capítulo desafiador de nosso processo evolutivo.

“O marketing emocional teve um importante papel na construção da imagem das marcas, mas é uma ferramenta que
está ultrapassada. Porque, no imaginário das pessoas, as marcas estão se transformando em commodities, e só vão se sair bem aquelas que tiverem sucesso em associar o seu nome a um propósito”, escreve Ricardo Dias, vice-presidente de marketing da Ambev. “Para todos que trabalham com criatividade e comunicação, não é exagero afirmar que este momento é um divisor de águas. Esta crise evidencia algo que está tomando corpo há algum tempo: em um futuro próximo, vão sobreviver apenas as marcas que consigam transmitir valores que se conectem com os anseios da sociedade”.

*Crédito da foto no topo: Reprodução 

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