The last dance

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The last dance

A última apresentação de um gênio ou o fim de um estilo de gestão que ultrapassa todos os limites de respeito e não é mais aceito nos dias de hoje?


24 de junho de 2020 - 15h33

(Crédito: Erhui1979/iStock)

Havia um diretor criativo nos anos 1990 que se chamava MJ. Ele era um gênio. E começou cedo. Foi contratado já na sua primeira participação no Portfolio Day das agências de publicidade, mas não foi selecionado por uma grande agência tradicional, e sim por uma que tinha o sonho de se tornar uma delas.

E MJ abraçou o desafio. Começou pequeno, na dele, como diretor de arte júnior, mas, em pouco tempo e com talento de sobra, já havia alcançado o status de líder criativo dessa operação.

Liderando a operação, MJ ganhou inúmeros clientes novos para a agência, abocanhou três Grand Pix consecutivos em Cannes e fez da sua agência a Agência do Ano durante aqueles anos.

Sua gestão de liderança era implacável e o nível criativo era tão além dos seus pares que o seu padrão de qualidade não era facilmente atingível. Uma vez, certo diretor de criação de uma grande agência tradicional, após perder uma concorrência para ele, disse: “Não é MJ, é Deus disfarçado de MJ”, comentando sobre seu talento, perfeição e padrão de qualidade.

Na verdade, seu padrão de qualidade era inatingível, ninguém conseguia chegar nem perto do que ele criava. E essa cobrança também criou um monstro. Um monstro que levava sempre sua equipe ao extremo para subir a barra criativa e zerar o número de erros e refações.

Para atingir tal perfeição, esse monstro não via limites na relação com seus pares. Xingava. Abusava. Menosprezava. Maltratava. Xingava de novo. Tudo isso para atingir o inatingível: seu próprio padrão de criatividade.

MJ tinha um braço direito na equipe, um cara que o servia, abria e pavimentava o caminho para que ele, MJ, pudesse brilhar. Sem esse braço direito, ele teria muito mais trabalho para conseguir chegar onde queria. Mesmo assim, MJ sabia que esse cara era subvalorizado em termos salariais, ganhava dez vezes menos que ele e, como líder, não fez muito pra reverter essa situação.

No auge do seu sucesso, depois de ganhar o terceiro Grand Prix em Cannes, MJ abandonou sua carreira de publicitário e decidiu ser arquiteto. Na sua ausência, quem assumiu o posto foi o seu braço direito. Nesse período, o braço direito teve a melhor performance individual da sua carreira. Inclusive, foi eleito o Criativo do Ano pela AdAge. E mais, sua equipe falava que o modelo de gestão dele era muito melhor que o de MJ. O braço direito tornara a agência um lugar muito melhor para se trabalhar.

Mas, apesar disso e da melhor performance individual da carreira, o braço direito não conseguiu levar a agência a conquistar o GP, como MJ havia feito. Então, MJ decide voltar. Ele toma a liderança, volta com o mesmo estilo agressivo e sem limites de gestão, deixando a equipe em segundo plano e voltando a ser o protagonista.

Nos três anos seguintes à sua volta, ele garante o Grand Prix em Cannes e a eleição da sua agência como Agência do Ano. Indiscutivelmente, MJ faz a diferença. Por incrível que pareça, sua equipe concorda. Mesmo sofrendo todo tipo de abuso e assédio moral de MJ, as cobranças excessivas e a loucura do líder criativo, a equipe dizia que tudo que MJ fazia era para um bem maior, a conquista do GP e de Cannes. E não foram poucos os que afirmavam que, apesar de tudo, se tornaram outros profissionais, muito melhores, mais técnicos e competitivos após trabalhar com MJ.

Depois desse novo tricampeonato em Cannes, MJ decide novamente se aposentar. Dessa vez, para sempre. E seu último ciclo de agência ficou conhecido como “the last dance”. Para muitos, “the last dance” se refere à última apresentação de um gênio, de um talento nato da publicidade. Para outros, o fim de um estilo de gestão que ultrapassa todos os limites de respeito e, ainda que vitorioso, não é mais aceito nos dias de hoje.

**Crédito da imagem no topo: Champc/iStock

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