Mais humanas, menos robôs

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Mais humanas, menos robôs

Empresas precisam desenvolver processos e estruturas que acomodem também os talentos, os sonhos e as vulnerabilidades de seus colaboradores


3 de novembro de 2020 - 10h51

(Crédito: Reprodução)

Assim como diversas tendências e comportamentos, um dos grandes paradoxos do futuro do trabalho também foi escancarado e acelerado durante a pandemia. O avanço da transformação digital e dos negócios foi tema onipresente no noticiário relacionado ao universo corporativo, ao longo desses oito meses. O crescimento exponencial nos índices de adesão a serviços digitais pelos consumidores, a necessidade de processos e soluções integradas e a evolução da jornada multicanal até o desembolso moveram empresas de todos os setores e tamanhos a adaptarem suas entregas, estruturas, organizações internas e as habilidades desejadas para seus colaboradores.

Segundo conceitos em voga no final dos anos 1990, que se tornaram populares principalmente a partir das ideias do holandês Arie de Geus (ex-executivo de estratégias do Grupo Shell) e, posteriormente, do autor norte-americano Peter Senge, corporações podem ser analisadas como organismos vivos. O desenvolvimento constante de uma empresa depende diretamente do aprendizado e da organização e engajamento das pessoas que nela trabalham.

Essa capacidade de adaptação evolutiva em tempo real, defendem, seria o único diferencial competitivo verdadeiro, especialmente em tempos de ofertas abundantes. Pois a relação das empresas com seus funcionários também foi atualizada.

Pelo lado humano dessa parceria, poucos assuntos tiveram tanto espaço quanto as pautas sobre saúde mental e bem-estar, que alertaram para os riscos tanto de quem se enfurnou no home office quanto àqueles que seguiram a rotina de deslocamento para o expediente no escritório. O reconhecimento da fragilidade perante variáveis macro que fogem ao nosso controle alimentou aspirações e expectativas, que passam a ser também inspiração para a vida profissional, sob vários ângulos.

“Essa insegurança ajuda a criatividade. Não ter tantas certezas nos faz buscar repostas diferentes. Quando estamos muito certos, quando há muita precisão, a tendência é seguir os mesmos caminhos ou caminhos que já deram certo.
Essa vulnerabilidade rara para várias gerações é muito boa para o processo criativo”, afirmou Guga Ketzer, sócio e CEO da Suno United Creators, em entrevista após o debate que protagonizou com Roberto Martini, sócio e CEO da FlagCX, no palco do ProXXIma, evento realizado por Meio & Mensagem, na semana passada, em São Paulo.

De fato, a pandemia tem sido território fértil para a reflexão individual e coletiva sobre os relacionamentos e a própria vida. Valores foram questionados, e prioridades, revistas, influenciando comportamento e atitudes. Muita gente que sonhava em obter seu sustento a partir de crenças pessoais e causas sociais nas quais se engajam sem o crachá colocou a busca dessa realização como meta de curto prazo. Hierarquias consagradas sob premissas insustentáveis para os dias de hoje estão na berlinda, afirmando a ascensão do propósito como drive de carreiras profissionais e fator preponderante de decisão entre propostas de emprego.

Como apontou Luciana Bazanella, cofundadora da consultoria White Rabbit, também em painel do ProXXIma, é a primeira vez que profissionais de marketing podem, realmente, fazer a diferença na sociedade. A constatação passa por resultados de estudos apresentados durante a sessão (com a participação da líder de parcerias com empresas e fundações do Unicef Brasil, Camila Carvalho), nos quais a maior parte do público revelou esperar que as marcas sejam agentes ativas e responsáveis pela transformação a qual anseiam — seja essa qual for, pois o espectro, quando falamos em mudanças, é tão diverso quanto as próprias pessoas.

Se é necessário incorporar novas habilidades e atualizar conceitos para ser um profissional atraente no mercado de trabalho, o outro lado da moeda tem se mostrado tão determinante quanto, para o sucesso das empresas, que mais do que nunca precisarão desenvolver processos e estruturas que acomodem também os talentos, os sonhos e a vulnerabilidade de seus colaboradores. A automatização nas empresas deve nortear a relação com as máquinas, nunca com as pessoas.

*Crédito da foto no topo: Feja/ iStock

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